These boots were made for something else: Autismo & radicalização online
- pedrorodrigues

- 26 de jun.
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Sempre que ocorre um caso mediático envolvendo extremismo, violência ou radicalização, surge inevitavelmente a tentação de procurar uma explicação simples. Em alguns casos, essa explicação recai sobre o autismo. Esta associação é profundamente errada, cientificamente infundada e socialmente perigosa.
O autismo não transforma ninguém num extremista.
Da mesma forma que o autismo não leva uma pessoa ao suicídio, não provoca dependência de álcool ou de substâncias psicoativas, nem conduz automaticamente a comportamentos criminosos. Contudo, a investigação demonstra que as pessoas autistas apresentam uma maior vulnerabilidade para alguns destes desfechos, não porque o autismo os provoque, mas porque enfrentam fatores de risco que resultam da interação entre características individuais e experiências sociais adversas.
Sabemos, por exemplo, que as pessoas autistas apresentam taxas mais elevadas de ansiedade, depressão, ideação suicida e suicídio consumado. Também existe uma maior prevalência de consumo problemático de álcool e substâncias psicoativas em determinados subgrupos, sobretudo quando existem dificuldades emocionais, isolamento social ou perturbações psiquiátricas associadas. O mesmo princípio poderá ajudar-nos a compreender um fenómeno ainda pouco estudado, mas cada vez mais relevante: a radicalização online.
O extremismo envolve a defesa ou promoção da superioridade do próprio grupo, sustentada por uma ideologia rígida e expressa através de crenças, influência social ou ações que comprometem os direitos, a dignidade ou a inclusão de outros grupos. O envolvimento raramente acontece de forma abrupta. Existe antes um continuum que vai desde a exposição repetida a conteúdos extremistas, passando pela aceitação progressiva dessas ideias, até à participação ativa em movimentos ou ações radicais.
A radicalização não nasce do vazio. Surge frequentemente em contextos marcados pela exclusão, discriminação, rejeição, desigualdade e perda de sentido de pertença. Muitos grupos extremistas compreendem profundamente estas necessidades humanas e exploram-nas deliberadamente. Prometem identidade, reconhecimento, amizade, propósito e uma narrativa simples para explicar um mundo complexo.
É precisamente neste ponto que algumas características presentes em parte das pessoas autistas podem constituir fatores de vulnerabilidade.
Diversos estudos sugerem que dificuldades persistentes nas relações sociais, experiências repetidas de exclusão, bullying ou isolamento, necessidade de previsibilidade, pensamento mais rígido, tendência para interpretações literais, dificuldade em compreender intenções sociais complexas e interesses intensos ou hiperfixações podem aumentar a probabilidade de determinadas pessoas serem captadas por comunidades extremistas online.
Importa sublinhar que estas características não produzem extremismo. Apenas podem facilitar a exposição ou diminuir a capacidade para reconhecer processos de manipulação quando coexistem outros fatores de risco.
As comunidades extremistas na internet são frequentemente altamente estruturadas. Apresentam regras claras, linguagem própria, identidade coletiva forte, objetivos bem definidos e respostas aparentemente simples para problemas complexos. Para alguém que passou anos a sentir que nunca pertenceu verdadeiramente a lugar nenhum, este tipo de comunidade pode oferecer algo profundamente sedutor: a sensação de finalmente ser aceite.
Também os interesses específicos podem desempenhar um papel indireto. Uma pessoa autista pode desenvolver um interesse intenso por temas como história militar, conflitos armados, geopolítica, armas, filosofia política ou teorias da conspiração. Estes interesses são perfeitamente legítimos e, na enorme maioria dos casos, permanecem apenas interesses intelectuais. O problema surge quando os algoritmos das plataformas digitais começam progressivamente a recomendar conteúdos cada vez mais polarizados, mais emocionais e mais radicais, conduzindo a pessoa para comunidades onde esses interesses são reinterpretados através de uma narrativa extremista.
Este fenómeno não é exclusivo do autismo. Acontece com qualquer utilizador da internet. Contudo, algumas pessoas autistas podem permanecer durante muitas horas imersas nestes conteúdos, explorar informação de forma extremamente aprofundada e estabelecer um elevado grau de compromisso com sistemas de ideias altamente organizados. Quando esse compromisso se combina com isolamento social, sofrimento psicológico e necessidade intensa de pertença, o risco pode aumentar.
Outro aspeto frequentemente negligenciado é a dificuldade que algumas pessoas autistas apresentam em interpretar ironia, sarcasmo, manipulação emocional ou intenções ocultas. Alguns grupos extremistas recorrem precisamente ao humor, aos memes e à linguagem aparentemente inofensiva como porta de entrada para mensagens cada vez mais radicais. O processo raramente começa com discursos de ódio explícitos. Começa muitas vezes com pequenas ideias aparentemente inocentes, repetidas diariamente, até se tornarem familiares e aceitáveis.
Tudo isto exige prudência.
Não devemos olhar para uma pessoa autista como alguém potencialmente perigoso. Devemos antes reconhecer que algumas pessoas autistas podem necessitar de maior proteção perante processos sofisticados de manipulação psicológica que hoje acontecem em ambientes digitais.
A resposta nunca deverá passar pela vigilância baseada no diagnóstico, mas sim pela prevenção baseada nos fatores de risco.
Promover competências de pensamento crítico, literacia digital, compreensão dos mecanismos de manipulação online, educação para os média, competências sociais, oportunidades reais de pertença comunitária e acesso atempado a apoio psicológico constitui uma estratégia muito mais eficaz do que qualquer tentativa de associar o autismo ao extremismo.
Tal como acontece com o suicídio, com o consumo de substâncias ou com tantas outras dificuldades, o diagnóstico de autismo não explica o comportamento. O que explica muitos destes desfechos é a interação entre vulnerabilidades individuais e contextos sociais que falham em oferecer inclusão, apoio e oportunidades de participação.
Se quisermos compreender verdadeiramente a radicalização online, devemos deixar de perguntar “o que há de errado nesta pessoa?” e começar a perguntar “que necessidades não foram reconhecidas e quem está agora a explorá-las?”.
O autismo não cria extremistas. Mas uma sociedade que exclui, isola e abandona algumas pessoas pode criar as condições para que grupos extremistas encontrem nelas terreno fértil.
A prevenção começa, por isso, muito antes do primeiro vídeo recomendado por um algoritmo. Começa na escola, na família, nos serviços de saúde, nas relações humanas e na construção de comunidades onde todas as pessoas possam sentir que pertencem, sem terem de procurar esse lugar nos cantos mais obscuros da internet.




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