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Terra à vista, capitão!

É oficial. A Joana, a Cláudia e o João (todos nomes fictícios) vão entrar na Universidade. Saíram os resultados dos exames e as restantes contas já estavam feitas. Todos partilham um sonho e uma condição em comum. Tornarem-se adultos autistas autónomos, independentes e felizes. "Na verdade todos querem ser felizes, ainda que tenham que usar um mapa!" diz Cláudia.

Joana tem Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) e Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC). É a filha mais velha de um total de três irmãs. Todas elas pertencentes ao Espectro do Autismo. Joana teve o trabalho mais dificultado. Descobriu grande parte das coisas sozinha. Com grande custo e sofrimento. Lembra-se que nem queria acreditar que aquilo que sentia poderia chamar-se Autismo. Primeiro negou, chegou mesmo a amaldiçoar os pais. Depois estranhou, questionou, leu e releu tudo o que podia. Coisa que lhe era comum em outros temas. E depois começou a partilhar. Primeiro a medo com a sua única amiga. Mais tarde descobriu outros e outras como ela. Não totalmente iguais, nunca o são. Mas que a compreenderam e ajudaram a se compreender. Quando chegou o diagnóstico não foi uma surpresa, mas foi um alívio. Dito por outra pessoa é como se passasse a ser uma realidade diferente.


Cláudia apenas agora soube que tem PEA. Sempre lhe conheceram como tendo Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção (PHDA) subtipo desatento. Toma Concerta. Algumas das suas dificuldades começaram a diminuir. A medicação ajuda mas não é tudo. A terapia foi sendo um grande veículo de mudança. Mas também não chegou. Cláudia continuava a sentir-se diferente. Não sabia porquê. não sabia explicar! Sabia apenas. Conheceu a Joana na internet. Cláudia é filha única. Sempre escreveu para se ocupar. Gostava de inventar. Sobre o quê? Tudo. A Joana um dia colocou um like num texto da Cláudia e tudo começou ali. A Cláudia começou a olhar para a Joana e a perguntar-se porque tinham tanto em comum. A Joana não sabia como lhe dizer. Foi-lhe dizendo. A Cláudia é inteligente e começou a deduzir. Quando confrontou a Joana e esta lhe disse mais bruscamente zangaram-se e muito. Ao fim de algum tempo voltaram a falar. Agora vão para a mesma universidade para Contabilidade.


João sente que não tem ninguém. Mas diz frequentemente aos poucos que ainda o escutam que está bem assim. Não o compreendem. Foi diagnosticado em criança ainda pequena - Síndrome de Asperger. Ainda se dizia assim naquela altura. Agora é tudo Perturbação do Espectro do Autismo. É tudo Autista. João sempre foi bom aluno. Muito bom aluno, excelente, quadro de honra. Nunca quis saber disso. Nunca foi à entrega dos prémios na escola - negava-se. Não lhe fazia sentido, ainda hoje. Os pais sempre viram isso como a sua humildade muito característica. Não tem amigos. Nunca fez para ter. Estuda, sempre estudou. Vai entrar para Engenharia Aeroespacial. Na verdade podia ir para qualquer curso, diz com alguma altivez. Talvez não o seja, mas quem ouve diz que sim. Vai para o Técnico. Onde o seu pai também andou e lecciona desde sempre.


Três histórias com alguns pontos em comum. Três histórias de sucesso e que se fizeram com muito custo e sofrimento. Principalmente sofrimento. Todos eles têm uma certa ideia de que ainda não acabou. O seu caminho mas o sofrimento também. Têm algum conhecimento do que os espera. Dizem algum conhecimento com receio porque na verdade a sensação de desconhecido é grande. Mesmo para o João que espera vir a pisar solo lunar. Ou para a Cláudia que espera concorrer para o Banco Central Europeu e a Joana que prefere continuar o negócio do avó - o escritório de contabilidade. O lugar onde e com quem aprendeu tudo o que sabe e a perguntar o que não sabe.


Não sabem se vão continuar a ter apoios como os que tiveram na escola anterior. Ou a compreensão dos directores de turma. Já foram visitar a universidade para onde vão. Nem tudo é desconhecido. Sabem desde há algum tempo que conhecer o espaço é importante e saber onde se encontram as coisas e os serviços. Assim não têm que estar frequentemente a perguntar onde ficam as coisas. Algo que ainda sentem como sendo difícil. Já têm também o e-mail dos coordenadores dos seus respectivos cursos. Se há coisa que aprenderam é a antecipar. Isso dá-lhes segurança. Sabem que há muito mais por detrás da cortina. Mas sentem que têm o apoio completo dos pais. Nem sempre foi assim. Eles também tiveram de aprender a conhecê-los.

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