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Tendências

Fiquem tranquilos que não vou propor nenhuma tendência de cor, tecido ou combinações para o próximo ano! Não fosse este ser um site para pessoas autistas e escusado será dizer que são pessoas que por norma não seguem as tendências.


Se no final de cada ano e na transição para o novo ano é habitual fazer resoluções, deixo aqui algumas ideias. Confesso que não são novas, mas as calças de boca de sino também se vão usando apesar desta tendência ter começado nos anos 60 do século XX.


Se seguirmos os centros de investigação de referência para o autismo podemos observar quais poderão ser as tendências do próximo ano. Por exemplo, ao lermos as tendências de investigação de 2021 na Spectrumnews.org, verificamos que algumas das propostas não são apenas deste ano. E porventura irão continuar em 2022 e esperemos que não se arrastem por muitos mais. Ainda que algumas delas, nomeadamente as que se prendem com as causas do autismo e os aspectos genéticos envolvidos, irão ter de continuar por muitos e bons anos.


Contudo, as questões que se prendem com o diagnóstico precoce, as diferenças fenótipicas na expressão comportamental de homens e mulheres no autismo, no acesso de cuidados de saúde especializado para realizar avaliação de despiste e acompanhamento no Espectro do Autismo, integração das pessoas autistas no mercado de trabalho e acesso a habitação própria, entre outros. Todos estes e outros aspectos prendem-se muito com questões comportamentais e principalmente das pessoas não autistas.


Isso mesmo, há todo um conjunto de entraves na progressão da vida das pessoas autistas que continua a ser explicado pelas dificuldades das pessoas não autistas. Irónico não é? Tanto que as pessoas não autistas pensam que as pessoas autistas têm de dificuldades, deficits, necessidades, etc. E são precisamente as pessoas não autistas que estão a causar alguns destes entraves. Talvez em 2022 possa haver alguma equipa de investigação que se debruce precisamente sobre quais as variáveis que nas pessoas não autistas levam a causar impedimentos de progressão na vida das pessoas autistas. Por exemplo, por que é que em algumas escolas se continua a negar a entrada de pessoas autistas ou a não aplicar as medidas de referenciação que são inclusive contempladas na legislação? E por que é que se continua a questionar de forma selvática os diagnósticos clínicos, principalmente quando as pessoas que o fazem não são sequer clínicos? Ou por que é que há professores universitários que por verificarem que alguns dos seus alunos são inteligentes concluem que não podem ser autistas? E o mesmo para quando fazem contacto ocular. E por que razão os empregadores ainda continuam a pensar que o facto de ser uma pessoa autista é sinónimo de ser alguém que não aprende ou não é capaz de vir a realizar tarefas de uma forma eficiente? Já para não falar dos sucessivos governos que não pensam que as pessoas autistas necessitam de ser contempladas como pessoas que desejam vir a ter uma habitação própria? Para além de ser um direito seu.


Como podem verificar as tendências para 2022 são várias e porventura se perguntarmos às pessoas autistas haveremos de verificar que ainda existem muitas outras mais. Por exemplo, ainda recentemente li uma pessoa autista que perguntava, qual o sentido de continuarmos a financiar grandemente a investigação acerca das causas do autismo quando a qualidade de vida dos mesmos ao longo da vida continua a ser tão discriminada e com números preocupantes?


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