Somos, existimos

Historicamente, o Autismo tem sido considerado mais prevalecente no sexo masculino. A primeira pessoa conhecida a ser diagnosticada foi um rapaz de 8 anos, de nome Donald Tripplet. Mas na altura, além do Donald, foram diagnosticados mais outras dez crianças, das quais, três delas eram raparigas. E como tal, dizer que o Autismo é uma condição mais prevalecente no sexo masculino, importa compreender a razão de o ter sido durante muito tempo. Até porque a afirmação não é verdade. A ideia que sustenta a afirmação é que foi sendo construída ao longo do tempo desta forma. Já na altura, nos trabalhos iniciais de Leo Kanner e Hans Asperger, na procura de compreensão do Autismo e da sua conceptualização, a recolha de informação e observação comportamental era realizada principalmente com rapazes. Mas não porque não existissem raparigas com características comportamentais semelhantes, porque existia. Mas o enviesamento destes dois profissionais de saúde, e de muitos que os procuraram seguir ao longo destes anos foi determinando que o Autismo no feminino fosse relegado para um segundo plano. E este movimento levou ao desenvolvimento de um perfil de funcionamento do autista predominantemente masculino. Embora a grande maioria dos profissionais de saúde esteja ciente acerca dos critérios de diagnóstico, agora designado de Perturbação do Espectro do Autismo (PEA), a informação tal como está descrita nos manuais de diagnóstico e outros referenciais, sugere que as raparigas e mulheres não se enquadram neste perfil. Além do mais, as próprias teorias que foram sendo desenvolvidas dentro do Autismo deram pouca atenção às diferenças de género dentro do espectro. Por exemplo, a teoria do Extreme Male Brain, do Baron-Cohen e seus percursores, sugeria que as pessoas autistas de ambos os sexos apresentavam cérebros com um funcionamento tipicamente masculinos face àquilo que era esperado. Mas ao longo destes oitenta anos foram existindo muitas raparigas e mulheres com esta condição, ainda que negligenciadas, sem o diagnóstico correcto e a resposta clinica adequada à sua pessoas e necessidades. Esta questão não parece ser assim tão diferente face a outras batalhas que as mulheres foram e ainda vão combatendo em termos de igualdade de acesso, aqui neste caso a cuidados de saúde especializados. Profissionais de saúde mas também investigadores foram perpetuando este perfil do Autismo ancorado ao masculino, deixando para trás milhares de raparigas e mulheres sem uma resposta de saúde adequada. O preconceito de género no diagnóstico de Autismo nas raparigas e mulheres é marcadamente visível. Apesar dos números epidemiológicos referirem uma diferença no diagnóstico de 4 rapazes para cada 1 rapariga com esta condição. Já vão existindo outros estudos, além da própria experiência clinica dos vários profissionais de saúde que trabalham nesta área a alertar para uma diferença menor (e.g., 1,8:1). Mas ainda assim, e apesar de todos estes esforços, continuam a haver profissionais de saúde que questionam veemente a possibilidade daquela rapariga ou mulher poder ter um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. E principalmente porquê? Porque referem que as raparigas e mulheres apresentam um conjunto de comportamentos sociais e de comunicação mais funcionais e que as retira do funcionamento do Espectro do Autismo. Um dos factores que se tem demonstrado importante para ajudar a que as mulheres no Espectro do Autismo possam vir a receber a ajuda necessária no diagnóstico e posteriormente no acompanhamento é o facto de poderem ter alguém no grupo familiar com esse diagnóstico ou então alguma participação na comunidade autista. Ou seja, o facto de haver algum outro familiar com o diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo pode ajudar a que esta sua familiar do sexo feminino possa estar mais desperta para algumas das suas características e possa começar a suspeitar e por conseguinte começar a seguir um percurso para poder dar alguma resposta a essas suas dúvidas. Por exemplo, verificamos isso quando é feito o diagnóstico aos filhos, e mais especificamente às filhas, e a mãe começar por se perguntar em relação às suas próprias características. Além disso, o aproximar da comunidade autista tem sido igualmente importante para ajudar a que estas mulheres possam mais facilmente obter uma ajuda adequada, seja na avaliação mas também no acompanhamento. Ou seja, muitas das mulheres que suspeitam de pertencer ao Espectro do Autismo acabam por preencher alguns questionários online. E nestas pesquisas acabam por encontrar algumas referências de grupos dentro da comunidade autista. E quando confrontam o grupo com algumas das suas queixas sentem que há um reconhecimento por parte de muitos destes membros, muitos deles já com o diagnóstico e que procuram encaminhar estas mulheres para um pedido de ajuda. Será fundamental poder olhar para este facto e poder dar um maior enfoque no processo de diagnóstico e acompanhamento das raparigas e mulheres no Espectro do Autismo. Há uma chamada de atenção preponderante a ser feita junto dos profissionais de saúde que recebem estas raparigas e mulheres. E que apesar de poderem demonstrar uma melhor competência do ponto de vista social, a qualidade da mesma apresenta algumas características diferenciadoras e que não se enquadram em outras condições. Ou seja, muitas destas raparigas e mulheres apresentam características comportamentais com um compromisso nas mesmas áreas identificadas nos critérios de diagnóstico para uma Perturbação do Espectro do Autismo. Isto porque por vezes gera-se a ideia de que poderemos estar a falar de situações bastante distintas. A distinção encontrada verifica-se principalmente na qualidade e não propriamente na quantidade de questões evidenciadas. E poder pensar que algumas destas mulheres, principalmente aquelas que apresentem um perfil de funcionamento mais funcional, muitas delas devido à sua competência de mascaramento social, ainda assim não deixam de preencher critérios para o diagnóstico. Mas igualmente importante é o facto de muitas delas já terem sido avaliadas e acompanhadas ao longo do tempo e sem uma resposta adequada, além do aumento exponencial de sofrimento psicológico.


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