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Sobreposições no espectro: É pró menino, menina, _________ (preencha o espaço em branco)

Durante muito tempo funcionamos neste formato binário - menino ou menina. Em 1965 John Oliven designou o conceito de transgénero no seu trabalho Sexual Hygiene and Pathology, como pessoas que têm uma identidade de género que difere do típico do seu sexo atribuído ao nascer. Se há coisa que a Perturbação do Espectro do Autismo nos tem habituado é a pensar fora da caixa. E na questão da identidade de género não foge à regra. Não é um tema que a maioria das pessoas se sintam à vontade em abordar. Seja pelo que ainda falta compreender do fenómeno. Mas também pelo receio que se tem de que estejamos a tentar patologizar este mesmo fenómeno.

Se recuarmos não muito tempo atrás podemos encontrar na DSM - I publicada em 1952 a designação de homossexualidade como um diagnóstico de perturbação mental. Era designada nas perturbações sociopáticas da personalidade, como um desvio sexual envolvendo comportamento patológico. Ainda na DSM - III, publicada em 1968, a categoria das perturbações sociopáticas da personalidade deixava de aparecer. Contudo, a homossexualidade ainda continuava presente entre os desvios sexuais, sendo os desviantes descritos como incapazes de substituir suas práticas pelo comportamento sexual normal. E só em 1973, e após um grande protesto da comunidade gay e com o apoio de vários profissionais de saúde mental, o conselho director da American Psychiatric Association decidiu retirar a homossexualidade como diagnóstico de doença mental. Ainda assim, esta mudança passou com uma percentagem de 58% dos votos. O que quer dizer que também naquela altura a comunidade cientifica descordava em número suficiente (42% em 10000 votos). De tal forma que em 1977, um estudo publicado na revista Medical Aspects of Human Sexuality, 69% dos psiquiatras (num total de 100000), considerava a homossexualidade como uma adaptação patológica, em oposição a uma variação normal.


Entre outras razões é compreensível que quando se procura falar de uma relação entre a identidade transgénero e a perturbação do espectro do autismo o discurso possa ficar um pouco mais inflamado. Ainda assim, e quando acompanhamos a nível psicológico pessoas com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo (PEA), esta questão da identidade sexual é um tema prevalecente. E a própria comunidade fala da importância que sente em que se possa compreender dentro e fora da comunidade o que eles sentem. Até porque os casos reportados têm sido em adultos mas também em crianças. A orientação sexual e a identidade de género desempenham um papel importante na maneira como pensamos sobre quem somos, nossa saúde sexual e nossos relacionamentos. E isso é vital, mais do que tudo.


Todos têm uma orientação sexual e identidade de género. As pessoas no espectro do autismo não são excepção. Às vezes, as pessoas ignoram ou não acreditam que uma pessoa no espectro do autismo possa ter sentimentos românticos ou sexuais em relação a outras pessoas, mas isso não é verdade! Da mesma forma, algumas pessoas acreditam que as pessoas no espectro do autismo não podem ter uma identidade de género não conforme ou uma orientação sexual não conforme, mas isso também não é verdade! Esta área pode ser um assunto difícil de se discutir e entender - esteja você no espectro do autismo ou não. Embora esteja se tornando mais comum as pessoas falarem sobre ser LGBTQ, nem todo o mundo entende ou apoia pessoas LGBTQ. A percentagem de pessoas LGBTQ que estão no espectro do autismo é pelo menos a mesma porcentagem de pessoas LGBTQ na população neurotípica. Algumas pesquisas sugeriram que existe uma percentagem maior de pessoas no espectro do autismo que são LGBTQ. De qualquer maneira, as pessoas LGBTQ no espectro do autismo certamente existem, e não há problema em estar no espectro do autismo e ser LGBTQ.


Às vezes, leva mais tempo para que as pessoas - estejam elas no espectro do autismo ou sejam neurotípicas - descobrirem a sua orientação sexual e identidade de género. Alguém que se questione pode tentar namorar pessoas do mesmo sexo que elas para ver se é isso que eles desejam e se sentem bem. Ou eles podem experimentar diferentes papéis e expressões de género para ver o que lhes parece certo. Não há problema em explorar as suas opções e dedicar um tempo para descobrir tudo, desde que respeite os outros e tome as mesmas precauções de segurança que faria em qualquer outro relacionamento.


Contudo, nos serviços de saúde mental e que estão ligados à transição esta questão é fundamental, principalmente para a comunidade transgénero e ainda mais para aqueles com um diagnóstico de PEA. Por exemplo, são reportados vários casos de pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo (nível 1) transsexuais ou transsexuais com outras perturbações do desenvolvimento ou condição de saúde mental e que enfrentam vários obstáculos ao procurarem atendimento médico relacionado com a transição. Para além das dificuldades sentidas pelos outros na compreensão das características do espectro do autismo. As dificuldades tornam-se ainda maiores quando a pessoa é transgénero.

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