Será que chove amanhã?

Não sei qual a vossa relação com o serviço de meteorologia, mas são muitas as pessoas que já ficaram em situações mais difíceis por terem confiado neles. E o que dizer dos despertadores? Quantos de vocês não chegaram atrasados a compromissos matinais porque estes decidiram falhar em momentos decisivos. Mas não são apenas os objectos, as pessoas também falham, e muito. Quantos de vocês não ficaram apeados à espera que chegassem para jantar? Ou o 751 de Estação de Campolide para Linda-a-Velha que se atrasa frequentemente. Se ao menos tivéssemos a certeza de como as coisas vão correr! Não ter informações sobre a certeza do que está para acontecer pode ser uma fonte importante de ansiedade para algumas pessoas. Aquilo que é chamado de intolerância à incerteza. E no Espectro do Autismo parece também haver muito disso e é grandemente condicionador da vida das pessoas autistas. E se ainda por cima te disserem "Não te preocupes."?

"- Não consegui ir ter com ele. Já tinha ganho coragem para o fazer, mas entretanto ele pegou no telemovel e atendeu a chamada. Eu esperei que terminasse e quando estava mesma para avançar pensei - e se ele voltar a ter uma chamada quando eu estiver ao pé dele? Como é que vou reagir? E se ele ficar muito tempo a conversar devo ficar à espera? E se ficar devo afastar-me um pouco para não ouvir? E se me for embora interrompo-o para dizer que vou embora? Ou não lhe digo nada e envio uma mensagem? As dúvidas era tantas e não fui ter com ele!", responde o António (nome fictício) de 35 anos com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo há um ano e meio.


Etimologicamente, a incerteza é composta pelo prefixo in (negação) e certus (certos), razão pela qual é definida como a falta de conhecimento preciso ou a dúvida sobre algo que está a acontecer ou que está por vir. E isso, em maior ou menor grau, preocupa-nos a todos. As evidências são cada vez maiores e incontestáveis, apontando para um mecanismo-chave e intimamente ligadas a problemas de ansiedade. De facto, o medo do incerto, do desconhecido e do imprevisível é um medo fundamental subjacente à experiência de inquietação e inquietação em geral, e às Perturbações de Ansiedade (e.g., ansiedade generalizada, fobia social), mas também Perturbação Obsessivo-Compulsiva e Perturbação do Espectro do Autismo. Ainda que nesta última não esteja suficientemente estudada e compreendida.


"Não te preocupes." é uma expressão que comumente usamos quando percebemos que a outra pessoa sente inquietação ou medo por algo que considera prejudicial ou negativo e, além disso, pensa com insistência. Não saber o que vai acontecer é mais ou menos angustiante para a maioria das pessoas. Sentir-se desconfortável pode até ser adaptável e melhorar o desempenho quando feito na frequência e intensidade correctas. Mas nem todos são capazes de comprometer os incertos da mesma maneira.


Independentemente do que nos preocupa, com que frequência ou o quanto, um passo importante para enfrentar o mal-estar é entender a sua relação com um aspecto sempre presente na vida quotidiana: ignorância ou falta de informações sobre uma situação futura, a previsibilidade imperfeita dos factos ou a ignorância da probabilidade de ocorrer determinam uma situação. Desde o início, qualquer situação que não tenha 100% de certeza do resultado pode ser considerada incerta: situações desconhecidas ou imprevisíveis, relacionadas a novas tarefas, situações sociais com toda a espontaneidade que implica, ou situações incomuns, repentinas e inesperadas. E a vida está cheio destas incertezas.


A evidência é clara e quanto mais as pessoas se preocupam, maior a probabilidade de esta ser maior. Num continuo de menos para mais, a pessoa com baixa tolerância à incerteza experimenta mais stress, reage prematuramente e evita estímulos confusos. As situações ambíguas tornam-se exaustivas e perturbadoras, e os eventos inesperados são percebidos como negativos e devem ser evitados, e um futuro incerto é na grande parte das vezes considerado injusto. E tudo isso interfere geralmente no funcionamento da pessoa em diferentes níveis: académico, profissional, social, relacional, familiar, ... até se tornar um factor de risco ou vulnerabilidade causal para a preocupação clínica subjacente a certas condições psiquiátricas. , como a Perturbação de Ansiedade e Perturbação do Espectro do Autismo. Sendo que da análise do fenómeno de ansiedade no autismo, a intolerância à incerteza é vista como um dos sintomas que, em parte, a modula.


Se focarmos nos padrões restritivos e estereotipados de comportamento, interesses e actividades no autismo, os dados são exaustivos a esse respeito: altos níveis de ansiedade estão associados a uma maior presença de movimentos repetitivos e estereotipados, uso de objectos e fala; insistência em invariância; adesão intransigente a rotinas ou padrões ritualizados de comportamento verbal e não verbal; e interesses altamente restritivos e fixos de intensidade e foco inusuais.


Uma das hipóteses explicativas mais plausíveis está relacionada aos problemas de previsibilidade no autismo. Se a capacidade de prever, mesmo para os eventos que não precisam envolver consequências aversivas associadas, for comprometida por qualquer motivo, as hipóteses de se sentir angustiado são maiores. A dificuldade em tolerar a incerteza causa a necessidade de impor previsibilidade, e a melhor maneira de uma pessoa com autismo fazer isso é implementar rotinas e rituais como defesa natural. Rotinas, estereótipos, rituais tornam-se um método de encontrar ordem no caos. Dessa maneira, os padrões restritos e estereotipados de comportamento inerentes ao diagnóstico do autismo tornam-se mecanismos de autorregulação que contribuem para o controle de um ambiente emocionalmente inaceitável e cognitivamente incompreensível, reduzindo assim sentimentos de inquietação e ansiedade.


A incerteza social; isto é, a dificuldade de prever com precisão os próprios estados e ações futuras - dado que dependem do déficit ou da falta de informações sobre os estados e ações de outros - é uma das espadas de Dâmocles no autismo. Eles aprendem e funcionam melhor em situações sociais inequívocas e previsíveis. Os pensamentos e intenções dos outros estão em grande parte ocultos, o que os obriga a realizar processos de inferência social cometidos nessa condição e tornam o mundo social um dos maiores gatilhos da ansiedade. Por outro lado, a incerteza não social engloba a incerteza residual que se experimentaria na vida quotidiana se os pensamentos e comportamentos dos outros fossem completamente previsíveis. Nesses casos, a vida útil dos scripts é o melhor recurso. Os testemunhos na primeira pessoa das pessoas autistas são consistentes com isso.


A vida já por si é incerta. E neste período em que vivemos ainda mais se avoluma esta percepção. As aulas síncronas e assíncronas que são mudadas à ultima da hora, a escola que não se sabe como vai voltar a ser, nem mesmo no próximo ano lectivo, o risco de poder ter de ficar novamente em confinamento, etc. E com tudo isso, o ter de voltar a desenvolver novas estratégias para lidar com estas situações que vão e voltam é um verdadeiro desafio para todos e em principal para as pessoas autistas.

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