Se não sabe ainda vai a tempo: como ser autista!

Nos últimos tempos as prateleiras das livrarias estão cheias de livros "How to...". Corremos o risco de passar a ideia que não se justifica viver para aprender as coisas, basta ir à Fnac ou encomendar online um "How to...". Aprendemos a ser pais & mães, filhos e alunos obedientes, pessoas felizes e agora também a ser autista.

A Amélia, autora do livro representado pela imagem deste post é autista. Descobriu que o era aos 21 anos. Como muitas outras "Amélias" por esse mundo fora. Percorreu vários médicos, psiquiatras, psicólogos e terapeutas. Leu livros, pesquisou informação na internet, colocou questões em fóruns online e não descansou enquanto não encontrou uma resposta clara ou que lhe fornecesse um melhor enquadramento àquilo que sentia desde sempre. Mas cansou-se muito, esgotou-se mesmo ao longo dos anos ao ver as portas fecharem-se sem respostas satisfatórias, múltiplos diagnósticos, inclusive alguns deles contraditórios e voláteis ao longo do tempo, múltiplas prescrições e que tomou alguns deles no início e que depois abandonou. Conheceu professores ao longo de vários anos. A grande maioria não a compreendia e além disso não parecia fazer um esforço para tal, mesmo quando a Amélia procurava ajudar. Inúmeros colegas foram atravessando o seu percurso na escola, alguns deles com características bastante perturbadoras e que praticaram bullying consigo enquanto alguns outros colegas se limitavam a ver sem fazer nada.


Não sabia como iria acordar e muito menos conseguia perspectivar como seria o fim do dia. Poderia acordar com ansiedade ou sem a mínima energia para se levantar da cama. Ou poderia estar preparada para sair duas horas antes da hora combinada e ficar sem saber o que fazer nesse tempo. A ansiedade poderia ir para a escola consigo tal como os outros levavam uma lancheira com comida. A Amélia não levava porque também tinha dificuldades na alimentação e havia imensas coisas que não gostava pela sensação que lhe causava mesmo antes de as sequer pensar em colocar na boca. O ruído sempre esteve presente, desde que nasceu e também o seu incómodo com a grande maioria dos sons e tonalidades.


Nunca teve amigos e ainda hoje não os tem. Nem sempre compreendeu porquê. Ou porque seriam assim tão necessários! Ou como é que as pessoas haveriam de ser amigas se quase sempre se dividiam entre bulies e espectadores. Olhava para as raparigas e tinha a sensação de não perceber grande parte do que elas faziam ou diziam e o porquê. Os rapazes podiam ser mais fáceis de compreender mas rapidamente o deixaram de ser quando passaram a estar mais interessados nas relações.


A Amélia no seu percurso de vida poderia ter desistido. Para muitos teria sido fácil e até justificável. Mas Amélia não desistiu. Até porque não percebia muito bem o que isso queria significar! Seria deixar de fazer coisas? Mas rapidamente dizia que não porque havia muitas coisas que acabava por deixar de fazer e não tinha a ideia de ter desistido delas. Desejar não continuar a fazer algo? Para Amélia isso não faz sentido. Até porque ela faz aquilo que quer. Não sai para ir ter com outras pessoas e não sente que o tenha de fazer. Escreve grande parte dos seus dias e quer fazê-lo. Ao ponto de este livro "How to be autistic", que sai hoje dia 19 de setembro, ter sido escrito ao longo deste tempo e recontar a sua experiência de vida ao longo da infância.

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