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Se já percebeste que não sou um unicórnio pára de me tratar como tal

É um título grande para uma questão com igual importância: empregabilidade nas Perturbações do Espectro do Autismo (PEA). O mercado de trabalho continua a mudar a uma velocidade vertiginosa. Se por um lado continuamos a assistir a uma dificuldade imensa na integração sócio profissional de pessoas com PEA. Por outro lado temos pessoas que a sua actividade é exclusivamente seleccionar pessoas com estas características para as integrar em determinados sectores de organizações que contratam pessoas com este diagnóstico. Entre estas realidades há as pessoas com PEA que procuram por elas próprias encontrar trabalho.

Quando falamos com um jovem adulto ou adulto com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) é inevitável encontrarmos relatos de grande dificuldade ao longo da sua vida. E neste processo de transição da escolaridade obrigatória ou Ensino Superior para o mercado de trabalho não é diferente. Pessoas que procuraram durante um ano, dois ou mais e sem sucesso. Fizeram o seu curriculum vitae, realizaram outras formações em áreas complementares à sua formação de base, enviaram candidaturas e numa parte significativa as vezes não foram sequer chamados para realizar uma entrevista de emprego. Ou se foram acabaram por não serem seleccionados e não souberam o porquê da situação. Algumas das pessoas poderão pensar que não parece uma descrição diferente de algumas outras pessoas sem diagnóstico de PEA, certo? A questão é que estas outras pessoas terão à partida competências para fazerem o seu percurso com outras respostas e no caso das pessoas com PEA esta situação já não é tão plausível.


Muito frequentemente aquilo que as pessoas com PEA e que passaram por experiências de entrevistas de emprego ou até mesmo de experiências em contexto real de trabalho, seja em estágio ou com contrato de trabalho refere que parece haver um enorme desconhecimento e mitos face ao autismo.


Se por um lado há organizações e empregadores que têm uma ideia de que todas as pessoas com PEA são extremamente capazes, com uma inteligência muito acima da média, quase génios na maior parte das vezes, e que se os contratarem verão os problemas das suas empresa resolvidos num ápice. Há o outro extremo oposto de organizações e empregadores que pensam que as pessoas com PEA têm um nível de incapacidade bastante grande, perfil cognitivo abaixo da média e com bastantes dificuldades a nível da interacção e comunicação social. Uma situação e outra não ajuda em nada ao processo de integração sócio profissional das pessoas com PEA já de si desastroso. Os números mostram que a percentagem de pessoas com PEA com um contrato de trabalho válido é mínimo (cerca de 16%). São muitas as situações de estágios não remunerados ou estágios curriculares/profissionais que depois não passam a contrato de trabalho.


Como em muitas outras situações e não apenas na neurodiversidade e no emprego/recrutamento inclusivo há a questão das "modas". Ou seja, no presente momento é algo que vai estando em voga e existem algumas empresas que estão a contratar pessoas com PEA que na realidade parecem não o estar a fazer pelas melhores razões. À partida verifica-se como sendo importante a contratação das pessoas com PEA mas depois verificamos que as mesmas acabam por não ter oportunidades iguais dentro das organizações e em determinadas situações os seus contratos acabam por não serem continuados. E a situação parece apenas afigurar como uma fotografia que fica bem tirada para a empresa em questão e para as estatísticas. Pode parecer uma análise cruel mas quando observamos os relatórios das principais consultoras a nível internacional verificamos que o número de empresas a implementar uma politica para a contratação inclusiva na sua organização cresceu mas o número de colaboradores dessas mesmas organizações que reconhece ser integrado no âmbito dessas medidas não acompanha a subida. Muito pelo contrário, a discrepância nos números mostra que estes planos não estão a ser devidamente reflectidos para espelharem as necessidades mas também as competências das pessoas com PEA.


Um outro aspecto e que se parece prender mais com a própria avaliação do perfil do candidato e a sua orientação vocacional tem a ver com o seguinte. Continua a verificar-se a situação do encaminhamento de pessoas com PEA para determinados trabalhos que nós, seja técnicos, pais ou outros profissionais achamos que estão mais indicados para a pessoa com PEA. E isto na maior parte das vezes sem termos feito uma avaliação adequada e principalmente ouvirmos a própria pessoa com PEA e explorarmos em conjunto consigo os seus interesses. Já para não falar da possibilidade de adaptar o próprio processo de trabalho à forma como a própria pessoa já em si é capaz de o fazer.


É importante que a pessoa com PEA seja contratada pelas suas competências, tal como qualquer outra pessoa. É isto! Parece simples, certo? E em certa medida é-o. Ainda que o processo em si possa ser mais complexo principalmente pela necessidade que há em conhecer-se o perfil da própria pessoa, os melhores instrumentos para se poder avaliar este mesmo perfil e não esquecer as necessárias adequações no processo de selecção adequadas à pessoa com PEA. Mas no final resume-se a poder escutar devidamente a pessoa, conhece-la e orienta-la para um trabalho/função que seja a escolha da pessoa.

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