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Sacanas sem lei


O medo está na base de todas as formas de exclusão, tal como a confiança está na génese de todas as formas de inclusão.”

Jean Vanier


Há uns tempos, confesso que já vai algum tempo e já vão perceber porquê, estava sentado num café a degustar um café sem pressas, enquanto descontraia ouvindo o que o grupo na mesa do lado conversava. Não sou voyeur, e confesso que a leitura de diários nacionais cada vez mais me desmotivam a leitura. Quando me perguntam porque o faço, quase sempre respondo com a frase - Deve ser por ser psicólogo. É defeito profissional. Normalmente as pessoas sorriem e parecem concordar. O grupo de jovens adultos, porventura na casa dos trinta ou talvez quarenta anos, pareciam animados. Começa um deles. Oiçam esta, está demais, a Economia é o único campo onde duas pessoas podem ganhar um Prémio Nobel dizendo exatamente coisas opostas. Riram de forma despregada. Alguns deles pareciam menos entusiastas. Esboçaram um sorriso mais tímido e esgueirado. Uma delas, personificava a típica consultora da Delloitte. Porventura, Economista de formação de base. Facto que enquadrava a minha teoria. Depois de ouvir o que os outros conversam, também gosto de formular teorias. Quando me perguntam do porquê, respondo da mesma forma que da situação anterior. As pessoas parecem concordar com isso. Penso que talvez tenham ideia de que é algo que os psicólogos gostam de fazer! Já me disseram isso. Mas penso que o número de vezes em questão não oferece significância estatística. Por isso é que os economistas só fazem sexo com modelos, sussurrou um outro na mesa. A tarde estava ao rubro e não pareciam querer parar ali. A jovem que aparentava ser consultora na Delloitte corou. O colega do lado acotovelou-a e perguntou-lhe alto em em bom som - Confere, certo? Pareceu não ter aguentado, levantou-se e disse que tinha de voltar para o escritório. Fez-se algum silêncio. Não muito depois dela sair, desataram a rir. Então foste perguntar-lhe uma coisa daquelas, questionou um deles. Qual é o problema?, retorquiu-lhe. Acho que ela é lésbica, disse alguém na mesa (...).


Ao invés de ter criado uma situação ficcionada com Economistas. Confesso que me lembrei da situação devido ao episódio último do Camilo Lourenço no Jornal de Negócios. Poderia ter perfeitamente feito a rábula com políticos. Até porque há alguns meses atrás foi a própria Ministra da Saúde a fazer a utilização da palavra autista como adjectivo e que uma utilização negativa. Recordo que já há bastante tempo que os próprios políticos têm procurado reflectir de como podem contribuir para alterar a visão do seu papel para a Sociedade. É frequente ouvirmos falar de forma associada a política à corrupção. E isto tem um impacto devastador para todos nós, principalmente pela forma como nos vamos afastando das questões relacionadas com a política e com a democracia. E uma consequência prática disso é a abstenção crescente verificada nos últimos anos. Mas em boa verdade, é muito frequente, infelizmente, ouvirmos ou lermos no discurso de políticos a utilização negativa da palavra autista, normalmente usada com uma conotação negativa.


A frase inicial de Jean Vanier que inicia este post serviu de inspiração para pensar na importância de haver um guia orientador de como abordar o autismo na comunicação social. O estigma face às perturbações mentais leva a que as pessoas sintam receio, medo que a pessoa possa ser agressiva, imprevisível, violenta, incompetente ou até mesmo responsável pela sua situação clinica.


Se ao menos soubéssemos que uma perturbação mental é uma adulteração do pensamento e das emoções produzida por desadequação ou deterioração do funcionamento psicossocial em dependência de factores biológicos, psicológicos e sociais. Talvez assim, deixassem de se dirigir à pessoa com uma perturbação mental de uma forma negativa, pejorativa e lesiva.

E no caso da Perturbação do Espectro do Autismo, se soubéssemos que esta é uma perturbação do neurodesenvolvimento e que ocorre ao longo do ciclo de vida, não estaríamos por exemplo tão frequentemente a ligar o autismo às crianças, deixando de fora os adultos.

Mas não são somente os cidadãos individualmente que activam este estigma face às perturbações mentais e neste caso especifico face ao autismo. Se pensarmos que na Sociedade existe além do cidadão individual, Instituições que representam determinados sectores fundamentais e que têm um impacto ainda maior, nomeadamente pela representação que estes têm para todos nós. É o caso das Escolas, Instituições Políticas, Profissionais de saúde, mas também os jornalistas.

Os meios de comunicação são agentes transmissores do que acontece nas diferentes esferas da Sociedade e, como tal, o seu trabalho influencia directamente a percepção e a criação de opinião que cada pessoa faz da realidade.

Neste contexto de realidades sociais, a deficiência é uma realidade mais que a compõem, e que no Censos de 2017 eram 1 milhão e 700 mil Portugueses, dos quais, cerca de 50.000 têm Perturbação do Espectro do Autismo (PEA).

Apesar disso, a PEA ainda é uma realidade social que muitos desconhecem ou sabem muito pouco: O que é a PEA? Como é abordada? Quais são as suas causas? Suas características? Por que ocorre? A especificidade (apresenta necessidades particulares), a variabilidade (manifesta-se de maneira diferente em cada pessoa) e a invisibilidade da PEA (i.e., não haver nenhum traço físico associado) também contribuíram para favorecer esse facto.


Se adicionarmos a isso alguma falta de rigor informativa, abordagens erradas ou tendenciosas ou uso inadequado e depreciativo de termos "autismo" ou "autista", chegamos a uma situação em que mitos, estereótipos e preconceitos proliferaram e afectam negativamente a inclusão social do coletivo.


Existe uma solução?


Uma das prioridades das diferentes Associações e grupos pró-autismo a nível mundial é a implementação de ações para sensibilizar e conscientizar sobre a realidade e as necessidades das pessoas autistas e, ainda mais, sobre suas competências e talentos, para garantir que a sociedade possa construir uma imagem real e positiva que contribui para a plena participação da pessoa autista com igualdade de oportunidades, melhorando assim a sua qualidade de vida.


Para enfrentar com êxito esse trabalho é preciso a colaboração dos órgãos de comunicação social. São eles que podem ajudar a sociedade a entender o autismo e a promover uma opinião solidária e respeitosa em relação à diferença.


Nesse sentido, este meu contributo pretende ajudar os profissionais dos órgãos de comunicação social a tratar adequadamente o autismo, a partir da base da liberdade de expressão, mas também do respeito aos direitos fundamentais e à dignidade de todas pessoas com PEA e suas famílias.


A comunicação social pode fazer parte da solução e não do problema


Por todas as razões expostas anteriormente, acreditamos que este contributo é muito necessário, e procura consolidar critérios sobre como tratar informações sobre o autismo.


Não se pretende, de forma alguma, influenciar a forma de trabalhar dos profissionais. Respeitamos totalmente a sua autonomia. O nosso objectivo é facilitar o seu trabalho, fornecendo-lhes uma série de recomendações para que o conteúdo informativo sobre o autismo seja ajustado exactamente à realidade através do uso apropriado e respeitoso de:

  • Linguagem, evitando termos ou expressões tecnicamente incorretas ou que possam prejudicar a sensibilidade do coletivo;

  • Imagem, fugindo de uma visão caridosa, compassiva ou estereotipada;

  • Conteúdo, ajustando-os à realidade das pessoas com PEA (sempre com base no respeito e na promoção das suas competências) e no rigor informativo (com dados comprovados e com base em evidências científicas).


Como já apontamos, os órgãos de comunicação social desempenham um papel fundamental na percepção da sociedade sobre a incapacidade. A sua função informativa une-se à criação de opinião e troca de ideias, promovendo o conhecimento de outras realidades e enriquecendo cultural e intelectualmente uma alta percentagem da sociedade que se alimenta delas.


Por esse motivo, os profissionais de comunicação são colaboradores necessários na defesa dos direitos e da dignidade do colectivo.


Somente a partir do conhecimento e compreensão é possível alcançar a normalização e a inclusão social. E é exatamente isso que nos motiva a elaborar este texto, que você dê visibilidade e voz ao movimento coletivo e associativo de autismo, com uma presença mais frequente de notícias e um tratamento mais adequado das informações sobre a PEA.


Orientações sobre como abordar uma noticia sobre o autismo


Deve ser dada a oportunidade às próprias pessoas autistas para falar sobre a sua condição

Para conhecer a realidade do grupo, é essencial “dar voz” aos verdadeiros protagonistas e ter a opinião das pessoas com PEA, tornando-as participantes do processo de informação.

A informação contrastante é um dos princípios básicos do jornalismo. Antes de preparar uma história, o profissional verifica se a fonte é confiável, se os dados são precisos, se tem uma abordagem tendenciosa ... Ter os testemunhos de todos os atores envolvidos ajudará a evitar erros ou imprecisões futuras.


No que diz respeito ao autismo, os jornalistas às vezes abordam as notícias de maneira tendenciosa e nem sempre contam com a participação de pessoas com PEA, suas famílias ou organizações que as representam.


Para conhecer a realidade do colectivo, é essencial “dar voz” aos verdadeiros protagonistas e opinar, tornando-os participantes do processo de informação. Também das organizações que os representam e dos profissionais que trabalham com eles todos os dias, uma vez que fornecem dados e informações em nível geral.


O autismo não deve ser o protagonista das notícias


Uma pessoa com autismo é antes de tudo uma pessoa. A PEA é outra característica da pessoa, mas não a define. Portanto, quando uma notícia relacionada ao colectivo é produzida, e sempre que o autismo não é o eixo fundamental, o foco deve ser colocado na pessoa e não na sua deficiência.


Nesse sentido, recomendamos especialmente evitar a menção expressa da condição no titulo da noticia, para não fazer do autismo (sem necessidade) o protagonista da notícia.

Além disso, afirmamos que as notícias relacionadas à deficiência em geral e à PEA, em particular, nem sempre são vistas da perspectiva das informações sociais e publicadas nas secções "Sociedade" ou "Saúde". Recomendamos focar no conteúdo da informação e não na pessoa envolvida, para que as notícias sejam incluídas no campo a que pertencem (emprego, cultura, esporte, etc.), contribuindo assim para a visibilidade e inclusão social dos colectivo.


A titulo de exemplo deixo algumas situações de como noticias que abordaram o autismo foram apresentadas e de como podiam ser pensadas de uma forma diferente.


“Um homem preso pela morte de uma menina autista de 13 anos em...."


O facto de a criança supostamente assassinada ter autismo não é de todo relevante para ela fazer parte da manchete das notícias. O facto objetivo e digna de nota é a morte de uma menina. Se ela tinha ou não autismo, poderia ser incluído no corpo das notícias, mas não é algo que precise ser destacado no título.


“Três pessoas investigadas por abuso de criança com autismo numa escola em ...”


Tal como no caso anterior, a coisa realmente importante desta notícia é que houve um alegado caso de abuso de uma criança num centro educativo. É secundário que a criança tenha autismo ou qualquer outro tipo de deficiência.


“É assim que os adultos com autismo vivem em Portugal”


A notícia refere-se a residentes com PEA que vivem num centro numa Associação em Lisboa. Não pode ser generalizado e declarado na manchete que todos os adultos com PEA vivem da mesma maneira. De facto, a maioria reside na casa da família. Alguns vivem em centros residenciais, etc.


“Tecnologia e aplicativos como tratamento para o autismo infantil”


Este artigo afirma que o “aplicativo XYZ traz grandes benefícios no nível da linguagem receptiva e da aprendizagem de conceitos por meio de exercícios de emparelhamento”. Mas o facto de esse aplicativo ter ajudado certas crianças que participaram do estudo não significa que têm os mesmos resultados com todas as crianças com PEA.


“Uma esperança para o autismo”


Novamente, uma manchete sensacional que afecta a ideia de que o autismo é uma coisa negativa. E, novamente, uma notícia generalizada quando se fala de um projecto no qual apenas participam seis crianças com PEA.


"PEA ocorre apenas na infância"


Como já apontamos, a PEA acompanha a pessoa ao longo de sua vida. Essa afirmação implica que existem pessoas com autismo nas diferentes etapas do ciclo da vida: infância, adolescência e juventude, vida adulta e velhice. É interessante destacar porque, muitas vezes, as notícias tomam "parte do todo" referem-se apenas a crianças com autismo, embora o conteúdo delas cubra o grupo em geral. Também tendemos a prestar mais atenção às informações nas quais os menores estão envolvidos, uma vez que a sociedade é mais sensível aos problemas da infância. Mas não devemos esquecer que as crianças crescem ornar-se-ão adolescentes, jovens, adultos e idosos com PEA. E que todos fazem parte do colectivo e precisam reivindicar da mesma maneira o exercício efetivo de seus direitos.


“Por que o autismo é mais comum em meninos do que em meninas?” ou "PEA ocorre apenas em homens"


Tradicionalmente, um número maior de diagnósticos de PEA tem sido observado em homens do que em mulheres. De facto, os dados da investigação sugerem que a perturbação ocorre quase quatro vezes mais em homens. Mas isso não significa que o PEA não ocorra nas mulheres. De facto em nos últimos anos, o número de diagnósticos em meninas e mulheres aumentou significativamente. Essa mudança de paradigma produziu um interesse crescente na comunidade científica ao aumentar o conhecimento sobre as necessidades, interesses e competências das mulheres com PEA, embora as pesquisas sobre o assunto sejam limitadas até o momento. Essa falta de informação no campo científico também causa preconceitos de género na prática profissional.


Assim, os diagnósticos no caso das mulheres são ​​ainda mais demorados do que nos homens, mesmo quando as manifestações são evidentes, havendo um risco maior de que eles recebam diagnósticos erróneos ou imprecisos.


"Pessoas com PEA têm competências especiais"


O funcionamento cognitivo de pessoas com PEA algumas vezes faz com que algumas desenvolvam um talento excepcional para certas actividades. Os perfis excepcionais costumam atrair a atenção da órgãos de comunicação social, especialmente aqueles com mais sensacionalistas. No que diz respeito às pessoas com PEA, as séries de televisão ou filmes geralmente mostram-nos personagens com talentos incomuns ou habilidades muito diferentes do habitual; Mas, da mesma maneira que nem todas as pessoas com PEA têm dificuldade intelectual associada, também não é possível generalizar alegando que todas elas têm um talento excepcional.


Estes e outros exemplos povoam muitas noticias sobre o autismo. E como pode ser lido, muitas das noticias não tem apenas a ver com o uso da palavra autista como um adjectivo com conotação negativa. É fundamental poder pensar na forma como comunicamos sobre o autismo.


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