Sabor da liberdade: O diagnóstico de Autismo na idade adulta

A sensação de liberdade é sempre algo maravilhoso. A liberdade após um qualquer período de clausura é indiscritível. A liberdade após um grande período de clausura sendo inocente é único. É a sensação que muitos adultos descrevem após receber o diagnóstico de Autismo.

Liberdade

(...) Sol doira Sem literatura O rio corre, bem ou mal, Sem edição original. E a brisa, essa, De tão naturalmente matinal, Como o tempo não tem pressa...

Fernando Pessoa


Apesar do desenvolvimento cientifico e do conhecimento acerca do Autismo continua a ser mais dificil obter um diagnóstico de Autismo na idade adulta comparativamente em criança. E esta dificuldade é maior quando se é mulher.


As razões são muitas e vão desde o maior desconhecimento acerca do que é o Autismo e das suas características. Seja no global ou mais especificamente na expressão fenótipica na mulher. Muitas vezes os técnicos (médicos, psicólogos, etc.) e outros profissionais (professores, educadores, etc.) continuam a centrar-se nos critérios de diagnóstico da DSM e ICD de forma exclusiva. Mas também devido às próprias crenças de que o Autismo é uma perturbação maioritariamente diagnosticada em rapazes comparativamente às raparigas.


No caso dos adultos a dificuldade acresce devido à existência de outras perturbações psiquiátricas associadas (Depressão, Ansiedade, Anorexia, Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção, Perturbação Obsessivo-Compulsiva, etc.). Mas também se continua a verificar um maior desconhecimento em relação à expressão das características comportamentais do Autismo no adulto e das diferenças face ao que é uma apresentação destas características quando crianças ou adolescentes.


No entanto continuo a observar situações de adultos que apresentam um conjunto de características comportamentais em número suficiente para um diagnóstico de PEA. Mas principalmente verifico que apesar dos múltiplos diagnósticos, sendo que alguns deles até estão correctos, é a expressão de sofrimento contínuo ao longo do tempo. Ou seja, apesar de se verificar um diagnóstico de Perturbação de Ansiedade Social e a pessoa estar a realizar intervenção farmacológica e psicoterapeutica continua a se verificar um mal estar psicológico contínuo. Como se estivessemos a observar uma Perturbação de Ansiedade Social multi-resistente à intervenção. Para além de enquanto profissionais de saúde mental nos devermos questionar ao longo do processo de intervenção dos nossos clientes face ao desenvolvimento do processo psicoterapêutico. Também devemos aconselhar junto de outros colegas ou fazermos supervisão. E em caso de dúvida observar que o cliente continua a demonstrar sofrimento e incapacidade de compreensão dos acontecimentos, das experiências relacionais, etc.


É neste ponto que verifico que quando dou o diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo a uma pessoa adulta sinto esse sentimento único e de liberdade na expressão facial e nas palavras da pessoa. A sensação de se saber e sentir que já não é mais uma pessoa antipática, mal educada e com múltiplas manias, ou arrogante e anti-social e no limite psicopata. É sentir que há uma compreensão para aquilo que são, para a sua existência até ao momento em questão e dali para a frente. E isso é liberdade.

0 visualização

Informação útil:

©2018 by Autismo no Adulto. Proudly created with Wix.com