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Rigido! Quem!? Eu!?

As pessoas autistas têm uma marcada rigidez comportamental, ouvia-se. E as pessoas com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo são caracterizadas por uma maior inflexibilidade cognitiva, respondia a outra pessoa de volta. Mas eu próprio também sou inflexível em algumas coisas, retorquia o primeiro. E eu conheço várias pessoas que gostam de fazer as coisas de uma certa e mesma maneira, acrescenta rapidamente o outro. Mas e quando é que traçamos a linha clínica do que é rigidez? perguntava o primeiro. E o que é que consideramos rigidez? pergunta o segundo.


Esta questão acerca do significado que estamos a falar quando nos referimos à rigidez e inflexibilidade não se esgota aqui. O mesmo poderíamos estar a fazer em relação à impulsividade, ou à inteligência! É fundamental podermos continuar a reflectir sobre o que é que estes e outros conceitos/constructos nos encaminham. Até porque quando lemos ou observamos as pessoas autistas, frequentemente verificamos haver múltiplas referências e características relativas a estas questões da rigidez e inflexibilidade em várias situações, domínios e áreas de vida da pessoa. O que nos leva a pensar que todo o comportamento possa ser rígido ou inflexível, quando na verdade não temos a certeza.


Falamos de rigidez e inflexibilidade no autismo quando nos referimos a interesses fixos, insistência na mesmice, adesão inflexível a rotinas, visão "preto e branco", intolerância à incerteza, padrões ritualizados de comportamento verbal e não verbal, interpretação literal, ou desconforto com a mudança. Como podemos ver nestes exemplos, parece que a rigidez e inflexibilidade se parece adequar a todo e qualquer comportamento, ainda que a sua natureza seja diferente. E também por isso é que alguns investigadores e clínicos propõem a explicação para estes aspectos da rigidez e inflexibilidade relacionado com o funcionamento executivo. Mas esta noção não é consensual, ainda que seja um contributo fundamental. Outros investigadores e clínicos pensam nestes aspectos mais relacionados com a estrita adesão a rotinas e a necessidade de um ambiente de aprendizagem estruturado, e que associam as rotinas à intolerância à incerteza e o comportamento observado prende-se com o evitamento destas mesmas questões. Outros procuram perspectivar as várias facetas da rigidez, por exemplo, na insistência na mesmice, interesses restritos, e resistência à mudança, mas não incluem a intolerância à incerteza. E se pensarmos nas questões da interpretação literal e da simetria, podemos ver que estamos na frente de um leque bastante variado de comportamentos e na maior parte das vezes pouco ou mal compreendidos.


Lidar com a subjectividade, ambiguidade ou incerteza é desafiante para qualquer um de nós, mas aparentemente, mais ainda para as pessoas autistas. Seja pela necessidade das coisas serem iguais, porque é entendido pela pessoa como sendo mais funcional e lógico daquela forma e como tal é assim que deve ser mantido, mas também pela dificuldade em fornecer uma resposta adequada e em tempo útil a uma situação inesperada. E se as coisas funcionam de acordo com um conjunto de regras, a quebra dessas mesmas regras, sejam elas morais ou convencionais, pode ser vista de forma mais negativa. Todas estas situações serem enquadradas dentro do que se pode chamar de inflexibilidade cognitiva, por mais ampla que possa ser, parece não ser suficiente.


É importante poder ter conhecimento do ponto de visto do processo neurofisiológico e dos mecanismos neuronais envolvidos. Mas é igualmente fundamental poder compreender o significado atribuído por cada pessoa autista a estes mesmos comportamentos. Não estaremos a negar os contributos médicos quando procuramos olhar para os aspectos psicossociais, assim como o seu contrário. E com tudo isso estaremos certamente a ser menos rígidos na tentativa de compreender a pessoa que é um ser dinâmico, complexo e multidimensional.


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