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Retalhos da vida de um médico

"Serras, veredas, atalhos,

Estradas e fragas de vento,

Onde se encontram retalhos

De vidas em sofrimento..."

Ary dos Santos


Retalhos da vida de um médico conta sobre as vivências dum jovem médico de província, inspiradas nas próprias memórias pessoais do escritor Fernando Namora, que é também uma visão da realidade social portuguesa em meados do século XX. A situação mudou muito desde então, mas parece continuar aquém das necessidades de muitos.


Actualmente estão inscritos na Ordem dos Médicos um total de 57198 profissionais de saúde, dos quais 18,6% são Médicos de Clínica Geral e Familiar. Mas continuamos a ouvir, seja por parte dos profissionais de saúde, mas também por parte dos cidadãos, que estes números não são suficientes. E além do mais também vamos escutando, mais uma vez entre os profissionais de saúde, mas também entre alguns grupos específicos de cidadãos, que parece não haver uma adequada formação para dar uma melhor resposta em termos de certos cuidados de saúde primários.


Estes médicos de clínica geral e familiar acompanham o utente ao longo do seu ciclo de vida. É uma especialidade médica que promove cuidados de saúde a todos os que procuram o médico de família, independentemente da idade, género, etnia ou estado de saúde, de forma personalizada, global, acessível e em continuidade ao longo do tempo. A prática destes profissionais de saúde assenta no modelo biopsicossocial, que inclui os dados da pessoa, o seu passado, a sua estrutura familiar e o contexto da sua comunidade, e entende que a interação com a pessoa pode ser, por si só, terapêutica.


Se atendermos ao aspecto referido anteriormente do acompanhamento do utente ao longo do seu ciclo de vida. Podemos pensar que este profissional de saúde é por excelência o primeiro contacto com a pessoa autista e em vários momentos da sua vida. Seja na identificação, referenciação para avaliação e acompanhamento, mas depois também no acompanhamento médico ao longo da vida, nomeadamente adulta.


Em Portugal ainda não se olhou de forma particular para as necessidades dos Médicos de Clinica Geral e Familiar relativamente ao autismo no adulto. Contudo, quando olhamos para outros países, nomeadamente europeus, sobre esta mesma necessidade, verificamos que os profissionais de saúde em questão identificam um conjunto de necessidades vitais para o exercício da sua profissão junto deste grupo especifico. Além de se saber que as pessoas autistas adultas, aquelas diagnosticadas, mas também aquelas auto-diagnosticadas e/ou com suspeitas que mencionam que gostariam de ter uma outra resposta por parte dos Centros de Saúde e depois especificamente pelos Médicos de Clinica Geral e Familiar, tendo em conta a própria proximidade do ponto de vista geográfico e da suposta celeridade no acesso a cuidados de saúde.


Estes profissionais de saúde, tais como outros, são competentes, mas continuam a necessitar de aprender aquilo que está para além dos manuais de diagnóstico sobre a Perturbação do Espectro do Autismo. Seja ao nível da identificação, nomeadamente na pessoa adulta e quando as características se expressam de forma mais subtil, tal como por exemplo no fenótipo comportamental da mulher. Mas também na compreensão das próprias características da pessoa autista, sobejamente heterogéneas, mas que necessitam de determinado conjunto de adaptações para que as pessoas autistas adultas se sintam encorajadas a procurar o seu médico de família.


Ao longo destes anos no acompanhamento de pessoas autistas adultas, tenho-me deparado com a necessidade de contactar com Médicos de Clínica Geral e Familiar. Seja porque as pessoas continuam a necessitar de visitar estes profissionais de saúde para aspectos da saúde em geral. Até porque é conhecido que as pessoas autistas apresentam não apenas um conjunto de comorbilidades psiquiátricas, mas também um conjunto de outras questões médicas. Para além dos aspectos da própria prescrição necessária e que vai para além das questões psiquiátricas. Neste contacto com estes profissionais de saúde continuo a deparar-me com a necessidade de compreensão de algumas destas características mais idiossincráticas expressas na pessoa autista e também como se adaptar para continuar a fornecer uma resposta adequada.


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