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Rótulo

Eu não quero que o meu filho seja rotulado com nenhum diagnóstico! diz uma mãe com um ar transtornado e assustado. Eu tenho receio que a minha filha seja posta de parte na escola, e que possa não ter iguais oportunidades comparativamente aos outros por causa deste rótulo! diz um pai com um ar abatido.


A utilização da palavra rótulo é usada com frequência e há tempo suficiente na história da medicina e da psicologia. É compreensível na medida em que os diagnósticos e mais especificamente os critérios de diagnóstico aparecem apresentados de uma forma categorial e que referem necessitar de ser verificados para que se atribua o referido diagnóstico. Estes rótulos e mais especificamente a forma como são utilizados leva a senti-los como um carimbo que é colocado na pele e fica visível para todos, além de nunca mais sair. Além do mais, muitas vezes a utilização destes rótulos servem o propósito de rapidamente categorizar alguém, arrumando a pessoa em questão numa determinada gaveta, precisamente naquela que tem o nome do seu rótulo. Até porque há a ideia de que as coisas que necessitam de rótulo não se devem misturar. E se isso acontece com os produtos, também é verdade que as pessoas sentem que o mesmo deve acontecer com as pessoas quando têm um rótulo. E se formos olhar a história da humanidade isso aconteceu em muitas situações e durante muito tempo. Talvez até hoje ainda vá existindo ainda que de uma forma mais subtil. Os rótulos, sejam aqueles usados na saúde em geral e mais especificamente na saúde mental têm todo um percurso histórico. E apesar de sabermos desde há algum tempo que a doença mental não é contagiosa. Ainda assim, sentimos que estar na presença de uma pessoa com um rótulo de uma perturbação mental pode ser significado de perigo, ameaça, etc. E isto apesar de se saber que não é verdade que as pessoas com um diagnóstico de uma perturbação mental são agressivos ou perigosos. Nos rótulos, naqueles que são colocados nos produtos, e não aqueles que são colocados nas pessoas. Esses rótulos, apresentam informação, seja escrita ou pictográfica acerca do nível de perigosidade. Seja para a pessoa que o consumir, mas também para o ambiente.


Contudo, se qualquer um de nós ainda não olhou para um rótulo, no sentido literal do termo, aconselho a que o faça. E por várias razões. A pessoa que vai consumir o produto em questão poderá apresentar alguma intolerância ou reactividade alérgica e o facto de poder verificar os constituintes do produto a consumir poderá evitar algum tipo de problema mais ou menos grave. Para além disso, a pessoa pode estar mais interessada em cuidar da sua saúde e poder perceber quais os nutrientes e as concentrações dos mesmos no produto a consumir. Podendo evitar dessa forma a ingestão de um número excessivo de açucares ou outros nutrientes menos saudáveis para a sua saúde. O rótulo pode conter informação tal como foi referido anteriormente sobre a perigosidade. E as pessoas deverão querer saber acerca do quanto nocivo ou inflamável é aquele produto. É verdade que as pessoas por vezes usam o termo de ser tóxico relacionado com o comportamento humano e com certas personalidade. Aquela pessoa é tóxica! Aquela pessoa teve uma atitude tóxica! Mas estou em querer que as pessoas terão capacidade de discernimento para perceber o que significa isso num produto e numa pessoa ou comportamento. Mas também acredito que essa mesma designação faça parte desta semântica e que contribui para tudo isto que estamos aqui a falar. Neste mesmo sentido, a pessoa também pode ser inflamável, e até em vários sentidos. Mas neste caso vamos pensar na pessoa inflamável como aquela que tem maior dificuldade em se auto-regular ao nível do comportamento e das emoções. Por exemplo, quantas vezes não ouvimos já dizer, Aquela pessoa ferve em pouca água! Ainda que não tenha a ver com o mesmo processo físico-químico de combustão mas sim de ebulição, mas penso que perceberão o exemplo fornecido.


A ideia do rótulo e de todo um conjunto de informação contido no mesmo espaço para rapidamente informar a pessoa do produto que vai consumir, pode levar a pensar naquilo que nós fazemos com a utilização do estereótipos e dos preconceitos (pré conceitos). Ou seja, é uma informação objectiva e que rapidamente poder ser lida para nos poder igualmente rápido informar acerca da pessoa e de como devemos ou podemos agir com ela. E sabemos que as pessoas e a velocidade com que vivemos acaba por privilegiar esse processo de uma informação reduzida para ser tomada uma decisão igualmente rápida. Contudo, também sabemos do impacto que esses mesmos pré conceitos têm nas relações sociais de uma forma geral, e mais especificamente quando estamos a falar de relações sociais com grupos minoritários. E ainda que se fale de um número preocupante de pessoa com um diagnóstico de perturbação mental, não deixam de ser uma minoria face aos restantes. E se pensarmos em determinados grupos específicos dentro da saúde mental, por exemplo das pessoas autistas, com uma maior probabilidade os iremos considerar uma minoria. E como tal a utilização destes pré conceitos irão ter um impacto ainda maior. Nomeadamente no desajudar em relação à falta de informação adequada sobre esta condição-


Podemos pensar que esta questão do rótulo e da utilização da sua designação é apenas da responsabilidade do cidadão. Mas precisamos de pensar que o profissional de saúde na utilização deste mesmo diagnóstico, seja na forma como o realiza mas também na maneira como o comunica junto da pessoa e dos seus familiares. Já para não falar quando comunica para a Sociedade de uma maneira em geral. É igualmente responsável em todo este processo. E é fundamental poder usar este diagnóstico de uma forma compreensiva e não apenas categorial. E mostrar que o diagnóstico é dinâmico e que vai sofrendo alterações ao longo da vida. Ou seja este designado rótulo é uma constelação de sinais comportamentais e outros. Mas também é um instrumento fundamental para a compreensão da pessoa e da escolha da intervenção terapêutica adaptada ao seu perfil de funcionamento.


É fundamental que a pessoa possa ser diagnosticada para que possa ser compreendida e melhor acompanhada em termos das suas necessidades. E que todos nós, com diferentes responsabilidades neste processo, possamos ser responsáveis na utilização desta e de outras palavras. E ajudemos a desconstruir crenças e pré conceitos erróneos e que levam a perpetuar o não pedir ajuda especializada e a aumentar o sofrimento psicológico.


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