Queres que te faça um desenho?

Certamente já lhe fizeram esta pergunta algumas vezes? E talvez algumas delas não tenha ficado agradado. Até porque esta pergunta costuma ser usada em forma de retórica quando alguém quer dizer a outra que parece não estar a compreender algo que lhe está a explicar há algum tempo. Mas há muitas situações em que a resposta melhor a dar é um Sim, quero que me faças um desenho! Por exemplo, na psicoterapia e principalmente no acompanhamento de pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) há muitas vezes esta sensação de ser preciso um desenho. A intervenção de acordo com um modelo, suponhamos, Cognitivo-Comportamental na PEA, por mais validado que este modelo esteja em termos de eficácia, é fundamental que o mesmo possa ser adaptado junto deste grupo especifico. É tal como na fotografia que serve de apoio a este post. Parece mesmo um ovo estrelado, mas não é. O artista é bastante bom no seu trabalho sem dúvida. Mas a outra pessoa vai ficar com uma ideia errada da realidade. E isso não interessa. E na psicoterapia muito menos!


Não somos iguais com todas as pessoas, certo? Apesar de mantermos a nossa identidade temos capacidade para nos adaptarmos às diferentes pessoas e às pessoas em diferentes contextos. Na psicoterapia é igualmente necessário. E ainda que sigamos um modelo conceptual da intervenção, mesmo que este seja um modelo integrativo, é importante que haja uma adaptação da técnica à pessoa e ao seu perfil de funcionamento. E este aspecto no trabalho com pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) é fundamental.


Por exemplo, por norma a sessão de psicoterapia dura entre 50 a 60 minutos. No entanto, esta duração pode ser muito difícil para uma pessoa com PEA. Seja pela sua dificuldade em se manter focado no decorrer da mesma. Mas também porque a pessoa não compreende que seja necessário tal período de tempo para estar a falar sobre a sua pessoa. Nesta situação especificamente já tenho tido clientes que me perguntam se é possível reduzir o tempo da consulta. Isto não quer dizer que não possa ser um objectivo a trabalhar com a pessoa. Ou seja, em conjunto com a pessoa fazer com que ganhe ferramentas para conseguir estar o tempo total da consulta na relação. Ainda que este aspecto nos leve a outras questões igualmente importantes e que cada vez mais são trazidas principalmente pelas pessoas adultas com Perturbação do Espectro do Autismo. A ideia de que não querem uma terapia que os mude no sentido de os tornar uma coisa que não são e que não desejam.


Muitas pessoas com PEA sentem que ao longo dos anos de terapia, algumas das mudanças são sentidas como contrárias aquilo que é a sua forma de ser, da sua identidade. Por exemplo, o treino de competências sociais. Não que as competências sociais em si tenha algum problema para as pessoas do Espectro do Autismo, porque não tem. A questão é de que algumas das formas como são trabalhadas as competências sociais são sentidas como sendo de acordo com as normas sociais das pessoas que não são autistas (neurotipicas). E é aqui que muitos se começam cada vez mais a insurgir. E este aspecto especificamente leva a se ter em conta as necessárias alterações na intervenção.


Mas um outro aspecto a que leva a ser importante a modificação na psicoterapia com pessoas com PEA prende-se com a relação terapêutica. As pessoas com PEA podem por vezes não compreender as expectativas da relação terapêutica ou as regras sociais para a relação terapêutica. Atenção que isto não significa em momento algum que as pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo não consigam estabelecer uma relação terapêutica! Porque o conseguem. A questão é o de pensarmos em conjunto com a pessoa a sua necessidade e a sua forma de compreender a relação terapêutica. E procurarmos assim adaptar a nossa forma de o fazer, ou seja, a nossa práxis, à situação em si. Por exemplo, por vezes é necessário poder ser mais directivo em fornecer informação de que é importante haver retorno no diálogo ou a partilha de informação de uma maneira geral. Isto porque nem para todas as pessoas com PEA esta ideia é sentida como necessária. Ainda que seja importante para o processo terapêutico.


Uma outra situação possível de ser preciso mudar prende-se com as orientações poderem ter de passar de um registo exclusivamente verbal para outra modalidade, por exemplo, pictográfica. Por exemplo, uma situação em que o cliente dirigindo-se ao terapeuta diz que enquanto não parar de falar não vai compreender nada. E que será preciso fazer um esquema em fluxograma para que lhe seja possível compreender. Na realidade aquilo que estamos a falar é precisamente o mesmo apesar da forma como a entregamos ser diferente. Mas o objectivo é que a terapia seja funcional para a pessoa que a procura. Ainda que seja importante o terapeuta procurar perceber se se sente confortável com esta forma de trabalhar.


Uma outra questão que é importante de percebermos é de que é fundamental que a pessoas possa perceber e sentir que a terapia é eficaz para os seus problemas quando estão a trabalhar em parceira com o terapeuta. Por exemplo, quem trabalha com crianças e jovens sabe perfeitamente que há imensas vezes em que estes, sejam do espectro do autismo ou não, são trazidos à terapia sem terem motivação para tal. Mas no caso dos adultos com PEA este aspecto é preciso de ser certificado. As regras face ao trabalho a realizar em parceria precisa de ser esclarecido. E o foco muito frequentemente necessita de ser explicito e concreto, seja nos temas mas também nos sintomas. Muito frequentemente as pessoas com PEA lutam contra os duplos sentidos e as zonas cinzentas das relações. E se há coisa que ocorre nas relações humanas e principalmente dos adultos são zonas cinzentas. Por exemplo, quando o terapeuta está a explicar a sua perspectiva do que está a sentir face ao que está a ser dito ou a acontecer o entendimento da outra pessoa pode não ser igual ou até contrário. Não há nada de errado mas é importante poder ajudar a compreender esta multiplicidade de situações e emoções. E neste caso específico se a pessoa não estiver a ver e ou a sentir aquela situação como algo problemático não a vai trazer certamente para a sessão de terapia. E como tal deve ser importante poder colocar algumas questões e sublinhar a importância de se falar sobre o assunto, ainda que seja necessário explicar com mais detalhe para que a pessoa possa compreender. Porque o objectivo da terapia é que a mesma possa ser compreendida pela pessoa que a procura.


Por isso, a intervenção com adultos com PEA, à semelhança do que já acontece com as crianças e jovens com a mesma condição, precisam de ser mais estruturadas. Ou mais tempo para processar determinado tipo de informação, sessões mais curtas ou mais sessões com situações colocada em prática através de role-playing. E porquê? Porque vai muito mais ao encontro da forma da pessoa adulta com Perturbação do Espectro do Autismo funcionar. E esse é o objectivo, certo? Ser funcional para o outro que procura a terapia. Se o terapeuta quiser pode procurar a sua própria psicoterapia e nesse papel estará no direito de sentir que as coisas devem ir ao encontro da sua forma de ser.

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