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Quem não quer ser uma girafa não lhe veste a pele

Bem sei que o ditado popular se refere a um lobo e não a uma girafa. Mas não consegui encontrar uma imagem adequada. Poderia dizer que tentei compensar uma determinada ausência. Quase a fazer 45 anos dou comigo cada vez mais vezes a ter estratégias compensatórias. Seja para ler algo que está impresso numas letras mais pequenas e dou comigo a aproximar e afastar para conseguir focar melhor. Mas também já houve alturas e que procurei disfarçar a barriga para parecer mais elegante. Muitos de nós, senão todos, já usamos estas e outras estratégias compensatórias. Seja face a um deficit, fraqueza, lesão ou inadequação percebida numa determinada área ou competência especifica. No entanto, há determinados grupos de pessoas que recorrem com maior frequência a estas mesmas estratégias. Mas tal como na fotografia o leão apresenta um ar desconfortável as pessoas que usam as estratégias compensatórias correm o risco de aumentar o seu mal estar psicológico.

Há um crescente reconhecimento de que algumas pessoas com uma Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) desenvolvem comportamentos de compensação, mostrando poucos sintomas comportamentais (por exemplo, habilidades sociais neurotípicas), apesar de continuarem a experimentar dificuldades cognitivas relacionadas ao autismo (por exemplo, dificuldades na cognição social). Uma maneira de conseguir isso é por indivíduos que empregam conscientemente "estratégias compensatórias" durante a interação social quotidiana.


As estratégias compensatórias são modificações ambientais ou estratégias comportamentais projectadas para contornar o comprometimento persistente da atenção, memória, função executiva e / ou outras habilidades cognitivas como um meio para alcançar os objectivos de reabilitação desejados. As modificações ambientais podem incluir o uso de auxílios externos ou a modificação do cenário em que as actividades ocorrem.


O uso de um pager alfanumérico e uma lista de verificação para uma pessoa com deficit de memória e função executiva para garantir a conclusão de tarefas diárias em horários específicos seria um exemplo de auxílio externo. Trabalhar numa sala livre de distrações para melhorar as suas competências de concentração numa pessoa com sintomas de desinibição seria um exemplo de modificação de um ambiente. Exemplos de estratégias comportamentais incluem repetir frases durante interações sociais para garantir o processamento preciso da conversa ou associar palavras a imagens para melhorar a recordação.


É cada vez mais reconhecido que um subgrupo de pessoas diagnosticadas com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) pode, em certos contextos, parecer neurotípico, demonstrando poucos comportamentos atípicos. Essas pessoas podem mostrar um bom contacto visual, reciprocidade social apropriada e nenhum interesse restrito óbvio. Mas muitos questionam-se sobre este facto. Perguntando, se as pessoas com esta condição consegue desempenhar este comportamento será que são verdadeiramente autistas? O diagnóstico não estará errado? Ou então, será que as pessoas podem deixar de ser autistas em algum momento da sua vida? Estas e outras questões levam a considerar a necessidade de se investigar e compreender mais e melhor este conceito de "camuflagem social" ou uso de estratégias compensatórias.


Uma abordagem usada para compreender este fenómeno procura olhar para a discrepância entre comportamento e cognição. E operacionaliza a compensação como a incompatibilidade entre o comportamento observável e a cognição subjacente. Ou seja, os autistas que compensam devem parecer mais neurotípicos em comportamento do que o perfil cognitivo sugeriria. Alguns estudos quantificaram a capacidade compensatória social na PEA como a discrepância entre as competências sociais classificadas pelo observador e o desempenho em tarefas sócio-cognitivas. Essa abordagem é vantajosa, pois captura a produção geral de compensação, tanto na forma consciente quanto na inconsciente, de maneira bastante objectiva. No entanto, não lança luz sobre compensações mal sucedidas, ou seja, estratégias que não se traduzem necessariamente em comportamentos mais neurotípicos. Uma segunda abordagem, usa o autorrelato, para medir a propensão a compensar, por meio de estudos e questionários qualitativos que perguntam directamente aos autistas sobre as suas experiências usando estratégias compensatórias.


A compensação na PEA tem sido associada a melhores competências cognitivas gerais, com estudos descobrindo que uma maior discrepância de comportamento social-cognição (ou seja, maior capacidade compensatória) está associada a um QI mais alto e a uma melhor função executiva. Isso pode reflectir o facto de que as estratégias compensatórias geralmente envolvem regras derivadas intelectualmente (por exemplo, quando e por quanto tempo fazer contacto visual). Ou então por uso de uma observação cuidadosa e alternância de estratégias necessários para compensar com êxito. Consequentemente, dados esses vínculos, propõe-se que a remuneração tenha uma função adaptativa, apoiando as pessoas autistas a poderem viver de forma independente, terem relacionamentos sociais bem-sucedidos e obterem e manterem emprego.


Da mesma forma, a experiência clínica sustentada na investigação tem demonstrado existirem resultados negativos correlacionados com a compensação. Os resultados da investigação qualitativa sugere que, como a compensação disfarça, mas não elimina necessariamente, as dificuldades dos autistas, algumas pessoas podem não receber o diagnóstico necessário de PEA até a idade adulta. Propõe-se que esta questão seja particularmente aguda para mulheres autistas que compensam em maior extensão do que os homens. O diagnóstico tardio, para homens e mulheres, pode consequentemente atrasar o seu acesso a apoio clínico e acomodações apropriadas no local de trabalho. Além disso, tem sido demonstrado que a valores mais elevados de compensação social está igualmente o aumento de pior saúde mental. Isso é sugerido porque os esforços compensatórios são relatados como cognitivamente exigentes, stressantes e nem sempre suficientemente bem-sucedidos para "passar" como neurotípicos e fazer conexões sociais com outros.


Se é fundamental capacitar as pessoas com uma Perturbação do Espectro do Autismo. É fundamental que este trabalho seja feito em conjunto com uma descoberta do próprio acerca de si mesmo. Na procura da compreensão da sua identidade e da aceitação da mesma. É fundamental que a pessoa autista possa não sentir culpa ou vergonha pelo seu comportamento de uma forma global. Não digo que alguém do espectro do autismo não possa ou não seja ajudado a compreender que um determinado comportamento seu possa ter magoado alguém e como tal deva pedir desculpa e tentar não o repetir. Mas de uma forma global parece-me fundamental devolver à pessoa com PEA a possibilidade de construir uma identidade mais fortalecida.

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