Quem dança seus males espanta

Apesar de ser algo desajeitado na arte de dançar, sempre lhe reconheci graciosidade e capacidade transformadora. E de vez em quando sinto vontade de voltar à pista. Seja quando estamos mais cansados ou tensos e preocupados com algo. Timidos e sem saber o que dizer ou como o dizer. O certo é que o nosso corpo parece ter a resposta para muitas dessas coisas. É como se a capacidade de expressão sempre estivesse dentro de nós e assim que a libertamos a magia acontece. E parece ser assim também no espectro do autismo.

Muitas das vezes centramos a nossa atenção naquilo que não conseguimos fazer. Se estamos numa festa e alguém nos vem convidar para dançar é muito frequente dizermos que não justificando que não sabemos dançar. Ou então fazemos piadas com o facto do chão estar desnivelado. E também frequentemente achamos que os outros conseguem fazer sempre melhor que nós e que não valerá a pena irmos fazer figura de tolo para a frente dos outros. Como se os outros se fosse importar com isso! É o que acontece quando damos "ouvidos" ao nosso pensamento ao invés do nosso corpo.


Na Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) também parece acontecer algo semelhante. Muito frequentemente nos centramos naquilo que as pessoas parecem não saber fazer, nas suas incapacidade ou défices. Seja na interacção e comunicação social. Mas também no facto de poderem ter algum compromisso na motricidade fina e/ou grossa. E também poderem acumular dificuldades em estar na presença de um grupo ou ter de realizar uma actividade em conjunto, fazer contacto ocular, etc. Todo um conjunto de coisas que estão descritas nos manuais.


No entanto, mais dificilmente conseguimos olhar para lá dessas aparentes dificuldades. Por exemplo, perceber que quando se está a dançar a pessoa pode estar "desligada" daquilo que são algumas das suas dificuldades e ficar antes centrada na realização de um determinado conjunto de movimentos. E essa descentração da atenção levar a que a pessoa consiga comunicar de forma mais capaz e abrange aquilo que está a sentir. Sim, a sentir. Mais uma das coisas que se diz que as pessoas no espectro têm dificuldade. E na realidade têm, como tantos de nós e que procuramos a melhor forma de nos podermos expressar. Como tal, se dermos oportunidade às pessoas do espectro para experimentar a dança, veremos como esta actividade consegue fazer magia, seja nas crianças mas também nos jovens e adultos.


A dança ao longo dos tempos sempre foi usada enquanto forma de divertimento mas também de comunicação e expressão de uma cultura própria. É comum observarmos determinados rituais, significados e histórias representadas nas próprias danças. É um veículo de excelência para comunicarmos com o outro. Seja o nosso par ou uma audiência maior. Por exemplo, no espectro do autismo, há um conjunto de pessoas que apresentam igualmente compromissos na área da fala e linguagem. Para além do trabalho na terapia da fala, as pessoas parecem beneficiar em muito da expressão dramática e da dança, nomeadamente enquanto forma de comunicação.


Dançar não é apenas movimentar o corpo ao ritmo de um qualquer som, ainda que o possa ser. Dançar também implica aprender a respirar, como colocar o corpo, e antes disso aprender a conhece-lo. E o da outra pessoa também. Muito frequentemente se diz que as pessoas no espectro do autismo têm dificuldades em respeitar o espaço comum e muitas vezes acabam por se tornar invasivos. A dança ajuda em muito a compreender qual o seu espaço, o do outro e o espaço partilhado por ambos e a importância de respeita-lo e como isso ajuda a comunicar aquilo que se quer dizer. Toda esta pedagogia pelo corpo ajuda o próprio a contactar com sensações que a própria condição do espectro do autismo o afasta. No entanto, a arte da dança e a utilização da mesma enquanto terapia mas também enquanto espaço lúdico pode ajudar em muito a fomentar o crescimento de inúmeros competências que aparentemente estão adormecidas.

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