Quanto mais alto, maior é a queda

O povo é sábio nos seus ditos. No autismo tem havido um maior esforço na desconstrução dos conceitos usados. Não somente para compreender melhor os mesmos mas também para ajudar a desfazer as dificuldades causadas por algumas das "quedas" que têm sido dadas ao longo dos anos com conceitos como "Autismo de Alto Funcionamento" e outros similares.

Quanto mais alto, maior a queda, certo? Talvez não. Se imaginarmos que somos um animal de pequeno porte, por exemplo, um gato. Ou somos uma pessoa com um peso relativamente baixo, será que temos mais ou menos problemas se cairmos de um terceiro comparativamente a cair de um primeiro andar?


A aerodinâmica diz-nos que quanto mais leve o corpo, mais devagar ele cai. É o caso do gato. Se pensarmos na queda livre do animal, o que nos leva a analisar tal acontecimento como um lançamento vertical para baixo, ou seja, um movimento rectilíneo uniformemente acelerado, no qual a velocidade do corpo em queda aumenta no decorrer do tempo. Não esqueçamos de que na queda também está presente a resistência do ar, o que permitirá o gato obter sucesso em sua queda ou não. Analisando os fenómenos físicos já apresentados, observamos que o gato, ao cair do primeiro andar, não terá tempo suficiente para o sucesso na queda, isso porque o tempo de queda não possibilita ao animal a postura ideal capaz de “defendê-lo”. Já quando ele cai do terceiro andar, ocorre um momento de velocidade limite, na qual a resistência do ar aumenta até o momento em que se iguala ao peso do corpo do animal, facto que anula a aceleração resultante, fazendo então com que o gato caia com velocidade constante, tendo tempo de conseguir uma postura completa, evitando assim, possíveis danos de choque. Conclusão: baseados nas leis da aerodinâmica, podemos concluir que os riscos de queda do 20º ou do 90º andar são iguais.


Bem, mas se pensarmos na recente legislação em relação à protecção animal o exemplo anterior não é o mais indicado.


Mudando para o caso do Autismo, há alguns anos que se usa o termo de Alto Funcionamento para descrever algumas pessoas no Espectro do Autismo. Em parte porque não têm um deficit cognitivo. No entanto, continuam a lutar em muito com questões do quotidiano e a sofrer a nível psicológico. Ou seja, apesar de apresentarem um perfil cognitivo mais alto que a média da sua idade continuam a ter bastantes dificuldades na realização de tarefas assumidas por muitos como simples. Por exemplo, podem ser capazes de montar um PC mas são incapazes de andar de autocarro ou atar os atilhos dos ténis. Claro que podem comprar calçado sem atacadores ou terem a possibilidade de se deslocar sem ser de transportes públicos. Mas os exemplos não terminam aqui. Há uma gama muito variadas de tarefas consideradas simples que se transformam numa tarefa herculana para muitos autistas.


Esta questão poderia ser algo meramente de discussão académica. Mas não e o caso. Em muitos países a fórmula para determinar as ajudas e apoios para os autistas contam com estas nomenclaturas. Ou seja, se não apresentar um deficit cognitivo pode perfeitamente não receber as ajudas necessárias não obstante as dificuldades serem sentidas em várias frentes. É verdade que pode ser atestado as dificuldades verificadas na vida quotidiana da pessoa. No entanto a legislação que determina estes apoios é clara na sua definição e como tal estes relatórios esbarram aqui.


Para além de que no senso comum a designação Autismo de Alto Funcionamento pode acabar por traduzir na mente da Sociedade de que as pessoas até são bastantes funcionais e capazes. Nomeadamente terem atributos semelhantes ao de Steve Jobs e outros. Ao ponto dos próprios autistas optarem por esconder o diagnóstico autista por sentirem que irão ter mais penalizações que o contrário. Para além de sentirem que faz muita confusão a muita pessoa esse conceito de que no mesmo diagnóstico pode ser usado as designações Autismo e Alto Funcionamento.

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