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Quantas pessoas autistas são precisas para construir uma casa?

A anedota costuma ser - Quantas pessoas são necessárias para mudar uma lâmpada? Estou certo que muitos de vocês já responderam de forma diferente consoante a perspectiva que procuram assumir para pensar na pergunta. Por exemplo, enquanto psicólogo poderíamos responder - Apenas um, mas a lâmpada tem de querer ser mudada! A questão que foi colocada no título deste post - Quantas pessoas autistas são precisas para construir uma casa?, também parece ter várias respostas consoante a perspectiva que se toma para a pensar. No entanto parece que a resposta real à situação perguntada parece ser uma anedota (entenda-se a frase em questão com sarcasmo). Por vezes chego a pensar que será preciso ser atingindo um determinado número de pessoas diagnosticadas com autismo para que se comece a pensar que é importante poder pensar em políticas adequadas do ponto de vista da saúde, mas também a nível social, profissional e habitacional para as pessoas autistas. E poder pensar na autonomia e independência das pessoas autistas ao longo da sua vida é preciso ir além daquilo que muitos de nós tem feito. Não basta apenas poder diagnosticar e cada vez mais precocemente, ainda que seja fundamental. Não basta poder desenvolver todo um conjunto de medidas, nomeadamente legislativas para que as crianças autistas se sintam incluídas ao longo da escolaridade obrigatória. E desenvolver todo um conjunto de esforços para possibilitar as terapias mais adequadas para que estas possam compreender-se e compreender o Mundo de uma forma mais capaz, ao ponto de poderem ser elas próprias agentes participativos. É fundamental poder pensar na autonomia e independência ao longo da vida como um direito da pessoa. E para isso é fundamental que ela sinta que pode contribuir de uma forma activa para a construção desta sua autonomia e independência. Mas fiquem cientes que sem mudar o paradigma que ainda continua vigente em relação às pessoas autistas e à saúde mental de uma forma global, não será possível. E apesar do processo de desinstitucionalização já ter começado há algum tempo, continuamos a observar que as pessoas autistas adultas continuam em muito a ficar reféns de todo um processo que necessita de ser revisto. E a integração no mercado de trabalho, assim como assegurar condições para que os próprios possam fazer frente face ao mercado habitacional é fundamental. E além de haver todo um conjunto cada vez maior de Instituições que trabalham com esta população que procura ajudar neste processo, ainda continuamos com um modelo muito assistencial e que necessita de ser alterado. Da mesma forma que mudamos em muito a nossa visão relativamente ao doente oncológico, em que passou a ser equacionado como uma pessoa com uma doença crónica e capaz de ser travada, e já não um diagnóstico que significava o fim da vida para a pessoa. Também na saúde mental e mais especificamente nas pessoas autistas é necessário pensar que as pessoas são capazes e desejam poder participar na construção da sua própria vida e de uma forma activa. Por isso, que se erga a primeira pedra e se comece a construção, e de preferência que todos possamos participar.


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