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Primeiro episódio

Muitos saberão que o Episódio 1: A Ameaça Fantasma não foi o primeiro filme da saga Star Wars. Mas sim o primeiro filme da triologia prequela e o quarto da série, embora seja o primeiro em termos de ordem cronológica. É um pouco confuso, certo? Pelo menos para aqueles que não estão suficientemente mergulhados no universo Star Wars. Algumas destas dificuldades também ocorrem no universo das Perturbações do Neurodesenvolvimento. Por exemplo, poucos saberão sobre a probabilidade de ocorrência de um Primeiro Episódio Psicótico na Perturbação do Espectro do Autismo.


A Perturbação do Espectro do Autismo e a Psicose partilham uma longa história, e a sobreposição das duas condições tem sido um tópico que tem acumulado a atenção de vários profissionais de saúde e investigadores, sejam aqueles que intervêm no autismo, mas também aqueles que mais se dedicam à Psicose. E de lembrar que a Perturbação do Espectro do Autismo foi inicialmente descrita como um subconjunto da Esquizofrenia e com inicio na infância. Além de ambas as condições partilharem sintomas semelhantes, dificuldades na Teoria a Mente e questões sensoriais. Além disso, tem sido encontrado uma taxa mais elevada de situações de psicose em pessoas autistas. Além de que os traços autistas também são comuns de serem encontrados na população com Psicose em cerca de 7% a 25% das situações.


Os critérios para o diagnóstico de um episódio psicótico não são simples. Até porque os factores de risco, os prodromos e a sua duração podem ser difíceis de estabelecer. A fase prodrómica é o período de semanas, meses ou anos que se manifesta com sintomas menos pronunciados mas clinicamente significativos e, geralmente, antecede um episódio psicótico, com sintomas mais graves. Os sintomas presentes na fase prodrómica podem facilmente passar despercebidos ou serem mal interpretados. Na população jovem, existem dois grandes grupos de diagnósticos: as psicoses não afectivas, que incluem a esquizofrenia e outras perturbações deste espectro e as psicoses afectivas, que incluem a perturbação bipolar com sintomas psicóticos e a depressão major com características psicóticas. Avaliar uma pessoa com um Primeiro Episódio Psicótico requer a consideração de uma variedade de diagnósticos diferenciais. A ausência de história familiar de doença mental major, um início súbito, início após os trinta anos de idade ou uma psicose num indivíduo a receber tratamento no serviço de urgência, unidade médica geral ou cuidados intensivos deve aumentar a suspeita de que os sintomas psicóticos podem ser causados por patologia não-psiquiátrica.


No entanto, quais são as relações clínicas entre a psicose e a perturbação do espectro do autismo? Quais são as principais características clínicas desta possível comorbilidade? Existe a possibilidade de um diagnóstico incorrecto de PEA durante a adolescência ou idade adulta por causa de uma maior dificuldade em poder diferenciar uma perturbação do espectro do autismo e uma psicose? Por exemplo, realizar um diagnóstico incorrecto de psicose numa pessoa autista, uma comorbilidade entre PEA e uma Perturbação da Personalidade Paranóide, uma evolução esquizofrénica de uma PEA, etc.?


António (nome fictício) é um jovem adulto de 23 anos. Fez uma tentativa de suicídio, facto que o levou a ser encaminhado para a urgência hospitalar. Fez várias fracturas quando saltou da janela de um segundo andar. A tentativa parecia estar relacionada com o fim de um relacionamento romântico que tinha ocorrido duas semanas antes, conforme reportado pela sua mãe. Depois do relacionamento terminado, António teve um período de duas semanas caracterizado por uma mudança subjectiva nos níveis de energia. Pareceu ficar mais agitado, assertivo e irritável. E com os níveis de energia constantemente elevados e com diminuição da necessidade de sono. Durante os últimos dois dias antes da tentativa de suicídio, António desenvolveu uma insónia, com culpa, fuga de ideias, delírios persecutórios e alucinações auditivas. O agravamento dos sintomas levou a sua sua mãe a fazer uma consulta em ambulatório de psiquiatria. Foi internado no hospital. No exame mental na admissão estava alerta e cooperativo, facilmente irritável e orientado no tempo e espaço, com dificuldade em manter a atenção.


António cumpria os critérios de diagnóstico para um episódio misto com sintomas psicóticos. Foi feito intervenção com um antipsicótico combinando com medicação antiepilética. Os sintomas psicóticos melhoraram. No entanto, a equipa médica observou um número de comportamentos mais bizarros e estranhos. António limitou o uso da linguagem expressiva. Ele falava normalmente com frase curtas e grupos de palavras. Além disso, parecia geralmente desinteressado nas outras pessoas, inclusive nos familiares, não obstante parecer tolerar a sua companhia. Exigia a supervisão da mãe ao comer, sendo que ele comia apenas uma parte limitada de alimentos e que foram escolhidos com precisão de acordo com a cor e a forma. Não havia intervenções psiquiátricas anteriores. Mas com uma avaliação mais precisa e com recolha de informação junto da mãe, foi possível perceber a existência de sinais e sintomas relevantes e que tinham sido negligenciados


A mãe do António reportou que ele enquanto bebé e criança pequena era resistente a amamentar e alguém extremamente exigente face à alimentação. A restrição alimentar foi algo difícil de resolver. Muitas vezes a sua forma de gerir os seus comportamentos, que incluía pontapés e gritos quando estava angustiado, balanceava-se lenta e ritmicamente, além de procurar insistentemente manter as rotinas e o ambiente de forma consistente. António começou a falar por volta dos 18 meses e a combinar palavras por volta dos dois anos de idade. A sua restrição alimentar estava bastante acentuada na infância. Além de comer apenas alimentos de cor branca e com a forma quadrada, estes não podiam estar misturados. Gostava muito de brincar sozinho por um número grande horas com alguns dos seus brinquedos. Os seus preferidos era de formato quadrado e ferramentas com uma textura fria e que gostava de levar para a cama na hora de dormir. Durante a escola primária recusava-se a envolver nas actividades sociais da turma e sentia que não estava interessado em socializar com as outras crianças pequenas. A sua mãe refere que António parece não ter tido reacção nenhuma aparente quando a sua irmã nasceu. E parecia na altura ficar mais calmo e até mesmo contente quando estava em casa com os avós.


A sua compreensão da linguagem era muito frequentemente literal, e como tal muitas vezes António sentia não compreender as piadas dos outros. No Ensino Secundário desenvolveu amizade com dois colegas e muito em torno de um videojogo em comum e de um tipo de música. A partir dos 14 anos, António sentiu um crescendo de desafios nas situações sociais e académicas, e várias vezes os pais acabaram por o retirar da escola. Passou a estar cada vez mais tempo isolado e a fazer as suas actividades preferidas. Apesar dos sinais e sintomas os pais nunca pediram uma avaliação especializada. O seu pai morreu ainda jovem e o António ficou apenas ao cuidado da mãe.


Helder (nome fictício) quando foi levado à consulta começou a descrever um episódio de sua vida, acontecido em dezembro de 2011, quando tinha 17 anos. Tinha ido junto com os seus pais ver um filme chamado “2012” . Quando ele voltou para casa, tornou-se repentinamente agressivo com seus pais, pegando numa faca e acusando-os de gozarem com ele.


Dado o comportamento agressivo e ameaçador persistente, foi levado à urgência psiquiátrica e admitido com uma situação de surto psicótico. Durante o exame psiquiátrico, emergiu que o Helder tinha um perfil cognitivo limítrofe e teve uma leitura realista e concreta do filme “2012” como se fosse uma notícia real a anunciar o fim do mundo nos meses seguintes. Por causa dessa leitura realista, ficou muito zangado com os seus pais, acusando-os de não lhes contar esta notícia e também por ser responsável por mandá-lo estudar, quando esta actividade não seria importante visto que o mundo estava prestes a terminar. Após ter sido explicado ao Helder o significado do filme e a diferença entre noticias reais e ficção, foi possível observar o súbito desaparecimento das suas ideias agressivas em relação à sua família.


Ângela (nome fictício) de 18 anos foi diagnosticada em jovem com síndrome de Tourette, Dificuldade Intelectual e Desenvolvimental e Perturbação do Espectro do Autismo. Foi referenciada recentemente para a urgência de psiquiatria por ter reportado dificuldade perceptivas e delírios nos últimos 2 meses. Situações que a levaram a ter ideacção suicida e períodos de maior desregulação emocional. Ângela reportou alucinações auditivas com comentários negativos de que ela "não vale nada" e de que ela "se deveria matar". Ângela disse que as suas alucinações eram mais intensas quando estava em espaços públicos. Há algum tempo que não usava transportes públicos. Até porque tinha tido situações quem que tinha respondido de uma forma mais agressiva porque algumas pessoas gozavam com ela.

Manuela (nome fictício) de 24 anos, aluna brilhante a nível académico, estudante de pós graduação de história da arte. Na faculdade tem apresentado comportamentos rígidos e aparentemente bizarros. Por exemplo, tem usado cores específicas das suas roupas para combinar argumentos do que tem estado a estudar. Não faz anotações durante as aulas e à noite, a partir do facto de se lembrar da cor do vestido que usou na aula, consegue lembrar-se da matéria e, como tal, passa-la para o seu caderno. Desde então e sempre que tem aulas com tópicos diferentes acaba por mudar consequentemente os seus vestidos. Além disso, na biblioteca ela tinha de se sentar sempre no mesmo lugar. Os alunos, bem como alguns professores gozavam-a devido a esses comportamentos, ao ponto dela começar a evidenciar uma atitude mais persecutória em relação à faculdade e acabou por ser encaminhada para a urgência psiquiátrica. Deram-lhe um diagnóstico de esquizofrenia paranoide, ainda que ela não soubesse nada da sua perturbação do espectro do autismo, diagnosticada alguns anos depois.


Há sempre mais do que aquilo que estamos a observar, seja no cinema e sem dúvida na prática clínica. Será fundamental poder ao longo do desenvolvimento da pessoa autista poder compreender que determinados acontecimentos, e principalmente aqueles continuados no tempo, podem levar a desenvolver algumas outras situações clínicas que agravam o prognóstico.


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