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Prêt-à-porter autista

Não sou nenhum fashion adviser, nem o pretendo ser. E quem me conhece melhor sabe que o meu gosto por meias algo atípicas e coloridas fala por si. Posto isto, gostaria de vos falar de algo muito comum para uma pessoa - vestir-se de forma adequada e adaptada ao contexto. E se isto pode ser importante para um pré-adolescente e adolescente, nomeadamente pela necessidade de adesão ao grupo e às modas. No caso das pessoas adultas, assume também outros aspectos mais relacionados com o mercado de trabalho. Ainda sobre a questão anterior da adesão ao grupo e às modas, no caso das pessoas autistas, é sobejamente conhecido que uma das suas características, passa precisamente por sentir que não tem de aderir às normas, sejam elas sociais, mas também do dress code. E também por isso é que estou a partilhar aqui no Autismo n'Adulto esta reflexão.


Acrescento que este mesmo tópico nasceu do facto de ter partilhado com uma colega de trabalho (obrigado Mafalda Leitão), que tenho estado a preparar um workshop para o namoro no autismo. E uma das coisas que a minha colega perguntou é se iria falar sobre o dress code nos date's (encontros). E como tal fica aqui um pouco da ideia.


Em primeiro lugar quero dizer que a pretensão desta reflexão não se trata de dizer o que é que uma pessoa autista adulta pode/deve vestir em determinadas situações. Mas parece-me importante poder partilhar com as pessoas autistas adultas aquilo que as pessoas não autistas irão esperar que possa acontecer em determinadas situações em relação à roupa que a pessoa autista adulta possa levar.


Quero também referir que apesar de várias pessoas autistas adultas terem aquilo que poderá ser pensado como um bom gosto estético para o vestir. Ainda assim, são muitas as pessoas autistas que sentem várias dificuldades com os tecidos, modelos, tamanhos, etc. das roupas e que se prende com as hipersensibilidades sensoriais às texturas, roupa mais apertada, etc. E como tal, não é assim tão fácil vestir determinado tipo de roupas, ainda que a muitos de nós não autistas possa parecer simples.


Mas vou aceitar o desafio de todas estas variáveis e constrangimentos e procurar partilhar algumas ideias. Por exemplo, se há coisa que as pessoas autistas adultas podem fazer é ser chamado para uma entrevista de emprego. E numa situação destas, sendo a primeira vez ou não, pode arriscar a ir a esta da forma como habitualmente se veste. E como tal, muitos de nós, pessoas autistas ou não autistas, podemos pensar que a situação pode não correr bem e invalidar a situação de entrevista e de poder vir a ser olhado como um potencial candidato. E como tal, é importante poder ajudar a pessoa autista nesta altura a se preparar de forma mais adequada para o momento. Diria que de preferência, esta mesma situação pode ser treinada até bem antes de chegarmos a esta etapa da vida, até para facilitar todo o processo e ser o próprio a escolher a roupa e de uma forma adequada. E como tal, numa situação de entrevista é possível dizer à pessoa autista adulta que é importante poder usar uns sapatos mocassins, calças chino beje ou azul escura, uma camisa branca e um blazer. E de preferência explicar o porquê e a importância desta mudança. E que a mudança não representa uma mudança de personalidade ou outro aspecto estrutural da pessoa. E que não tem a ver com a submissão cega às regras da Sociedade não autista.


Claro que é importante poder ver com a pessoa autista em questão todo um conjunto de características e que possam trazer mais desafios e procurar encontrar em conjunto uma resposta criativa, mas que dê resposta à pessoa para uma questão especifica como esta da entrevista.


O mesmo se pode pensar para uma situação não profissional e que tenha a ver com um encontro (date) que tenha sido feito com outra pessoa e que haja na base uma potencial ideia romântica. Nestas situações é importante, tal como na anterior, encontrar uma resposta que além de adequada possa causar um conforto e bem estar à pessoa. Até para a mesma poder estar focada naquilo que está à acontecer no encontro. Nestas situações, é importante poder em conjunto com a pessoa saber alguma informação extra acerca da outra pessoa do encontro, quando é possível, mas também do local e do evento onde esse mesmo encontro vai ocorrer, até para adaptar as propostas. Parece importante poder dizer que a roupa que vestimos comunica uma mensagem de nós e de nós em relação ao que sentimos daquele momento/encontro. E isso não quer dizer que a pessoa autista adulta não esteja interessada no encontro ou na pessoa do encontro, porque estará. A questão é que a pessoa autista adulta poderá não estar conhecedor e consciente desta informação na altura de decidir. E tal como na situação da entrevista de emprego, o encontro pode não ser bem sucedido, em parte, muito ou pouco vai depender também da forma como a outra pessoa entende a importância da variável aparência, e sair desta situação sem perceber porque as coisas não correram bem. E ficar inclusive a pensar que fez ou disse algo de errado, quando nem sequer houve nenhuma questão a esse nível. E do ponto de vista do vestuário, não é que a pessoa autista adulta tenha feito algo de errado. Até porque se não tinha conhecimento, como é que poderia ter pensado e dado a oportunidade de fazer as coisas um pouco diferente.


Em vários momentos já tenho dito a pessoas autistas adultas que acompanho, que uma das formas de poder conseguir e sozinho saber se a escolha do vestuário poderá ser a mais adequada é visitar os sites de empresas que vendem roupa (i.e., Zara e afins). Desta forma pode mais fácil e rapidamente ver se tem alguma roupa mais adequada e que se possa enquadrar naquilo que está na moda. Além disso podemos pensar que a Inteligência Artificial e o ChatGPT pode ajudar a fornecer uma resposta a esta mesma questão.


Como tal, além das questões sobejamente importantes no treino de competências sociais, há outros aspectos, tal como este do vestuário, que se torna fundamental de ser igualmente abordado. E sem dúvida que as pessoas autistas adultas é que irão fazer as suas escolhas. Contudo, a partir desse momento, passarão a estar conscientes de algo para o qual poderiam não estar despertos, seja pela razão que for.


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