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Porque não mudas tu?

Cantava António Variações em "mudar de vida" - " Muda de vida se tu não vives satisfeito; Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar; Muda de vida, não deves viver contrafeito; Muda de vida, se a vida em ti a latejar...". No Autismo, se há palavra que muito se ouve é esta - mudar!

Se atendermos aos critérios de diagnóstico de uma Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) pensamos em vários aspectos necessários para intervir com a pessoa. Esta intervenção pensada de uma forma muito geral implica necessariamente uma mudança. Mas e se o Autista disser que não quer mudar? O que fazemos? Como é que a família encara esta decisão? Como é que os profissionais conceptualizam esta questão e a integram na intervenção com o seu cliente?


Por exemplo, se atendermos a um jovem que tenha sido diagnosticado em criança por volta dos 6 anos antes de 2013 com uma Síndrome de Asperger. Nos dias de hoje, para além de já não ser uma criança também já não tem esse diagnóstico, mas sim uma PEA (nível 1). Atendendo aos anos seguidos de intervenção, psicológica e farmacológica para as dificuldades de défice de atenção associadas, este jovem apresenta um número reduzido de comportamentos típicos de uma PEA. Ainda assim, quando se sente mais activado ainda faz um movimento com os seus braços e mãos, denominado de flapping. E muito frequentemente quando isso acontece os seus pais pedem-lhe para parar. Algo muito frequentemente observável no autismo. Pedir-se ao próprio que não evidencie determinado comportamento ou característica.


E se este mesmo jovem começa a pensar que já consegue controlar melhor este e outros comportamentos mais característicos seus. Isto apesar de em alguns momentos os poder expressar. E se optar por não os querer continuar a controlar? Como é que poderemos respeitar a pessoa autista se continuamente lhe dizemos que não deve mostrar esse ou outro comportamento? Que dignidade estaremos a conferir a esta pessoa se parece não aceitarmos a sua própria expressão?


Não é uma questão fácil. Mas é uma questão importante. E talvez o seja ainda mais quando falamos dos autistas adultos. Penso ser compreensível que pais, professores e técnicos pensem que a manifestação de determinados comportamentos. Principalmente aqueles com maior impacto e desajuste social possam prejudicar o autista. Em grande parte porque as outras pessoas poderão não o compreender. Não é nada que já não tenha acontecido com qualquer um de nós, mesmo não sendo autistas, ao longo do desenvolvimento. Quantos na entrada na adolescência não ouviram os pais a dizer que determinado comportamento apresentado teria de mudar?


E se queremos pensar e agir de forma verdadeiramente inclusiva não deveríamos pensar que as pessoas se deveriam aceitar na sua própria expressão? Porque têm de ser os autistas a mudar? A procurarem a adaptação? Porque não podemos todos nós, aqueles que não são autistas a procurar aceitar a expressão do Outro?


É importante poder olhar para as características da pessoa com PEA, independentemente do seu nível, com respeito pela sua principal condição - Ser Humano. Devemos procurar olhar para aquilo que são as suas expressões comportamentais e de como as mesmas podem estar a comprometer as suas aprendizagens e desenvolvimento. E procurar ajudar a aprender outras mais adaptativas. Mas também ajudar o Outro a aprender a respeitar-se a aceitar-se por quem é.


Diz a Clarice Lispector no seu poema - "Mude; Mas comece devagar, Porque a direcção é mais importante que a velocidade."

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