Porque é que não te sentas?

A resposta inesperada de Rene Magritte serve de plano para a pergunta feita. E a mestria de João dos Santos é comparável à do melhor carpinteiro existente. Resta-me juntar à brincadeira e descrever o que lá se terá passado. Se há coisa que é característico no ser humano é a sua capacidade mas também necessidade de previsão e antecipação. Seja esta mais ou menos baseada em conhecimentos científicos mas também nos nossos achismos e fellings. E já há quem na prática se tenha debruçado de como deverá ser a abertura das escolas. Justificado entre outras coisas pelo facto de haver necessidade de darmos estrutura, continuidade e equilíbrio na vida dos alunos.

Muitos de nós têm sentido que o que se tem passado é da responsabilidade do Ministério da Educação e por conseguinte das Escolas e dos respectivos professores. Sejam aqueles que concordam com as medidas desenvolvidas e as propostas para a reabertura do próximo ano lectivo. Mas também por aqueles que consideram que as medidas são um mal menor e outros que discordam. Lembro que a responsabilidade é de todos nós, pais e alunos inclusive. Todos nós que fazemos parte da comunidade escolar. Mesmo os pais que aceitam ou se recusam a por em prática as medidas. Mas também os alunos que por mais pequenos que possam ser e outros nem por isso e que precisam todos eles de serem ajudados a serem livres pensadores


As Escolas são habitadas por crianças, pré-adolescentes e adolescentes. E vão continuar a sê-lo na sua reabertura. E já se começou a ter uma noção do que se espera na reabertura da escola atendendo ao que já se está a verificar no presente momento com a escola em formato de videoconferência. Os alunos dizem repetidamente que estão cheios de trabalhos e mais trabalhos. Os pais reforçam-o e os professores atestam. Não sei se haverá em todas as situações mais trabalhos a serem prescritos. Quero crer que em algumas das situações será o facto dos pensamentos destes alunos estar cheia de outras tantas coisas e os trabalhos são sentidos como sendo a mais quando na realidade não estão a ser assim tão a mais.


Não sei o que vão chamar a esta geração actual. Se é que não existe já um nome e eu desconheço. Mas estou em crer que injectar e prescrever mais e mais trabalhos num momento em que é preciso assimilar todo um conjunto de outras experiências vitais vai criar um emaranhado de coisas que levaremos outra vida para desatar muitos destes nós. Até porque é bom lembrar dos números de crianças, pré-adolescentes e adolescentes que apresentam perturbação psiquiátrica e outras vulnerabilidades e predisposição para o desenvolvimento de perturbações mentais. E tantas outras situações que irão surgir à boleia deste período vivido, nomeadamente situações no seio familiar, com o número de divórcios, desemprego e outras questões afim.


Se nos últimos anos se vinha a perder a noção da importância do brincar, para além de todas as transformações que têm acontecido na própria actividade do brincar. Parece que agora ainda menos se está atendo a esta necessidade. O brincar constitui um comportamento de consolidação de conhecimento e desenvolvimento do Eu, do Outro e do Mundo. Parece muito para algo tão simples. É muito sem dúvida, mas o brincar não só não é simples mas também é vital. Ainda que as crianças o façam parecer muito simples, visto na perspectiva do observador. A verdade é que o brincar tem contido dentro de si um essência vital para o desenvolvimento e para a nossa saúde mental. João dos Santos diz-o de forma única e simples como o próprio brincar, “O Brincar escapa aos adultos que frequentemente o vêem como algo separado do aprender, o que é não só absurdo como abusivo e cruel.”. E vai continuando a dizer “A criança precisa de ter espaço para criar tempo. Tempo para Brincar, tempo que seja todo tempo inteiro. Para Sentir, Aprender, Pensar...nas coisas sérias da vida... no Brincar.


O brincar e a brincadeira, seja esta individual e exploratória, num primeiro momento da vida, ou entre pares com jogo simbólico, mais ou menos elaborado, e com a representação de papéis, constitui a fonte principal de construção de conhecimento, aquisições cognitivas, desenvolvimento da linguagem e construção do Eu. No seu inicio a criança começa por brincar naquilo que designamos enquanto observadores de uma forma desordenada e desestruturada. Mas aos poucos, esta mesma brincadeira e jogo simbólico vai sendo mais e mais organizada. E a criança traz para a brincadeira situações da vida dos adultos que replica, aprendendo assim a vida e.o mundo que a rodeia. Não somente a nível pessoa e social, mas também cultural. Aprende e constrói imagens mentais de situações que viveu e trá-las para a brincadeira, resolvendo eventualmente, ansiedades e preocupações, e aprende a lidar com as situações, encontrando soluções, através dessa mesma brincadeira.


As crianças, pré-adolescentes e adolescentes, todos estes alunos têm vivido um período conhecido e vivido por todos nós. E eles além de o viverem na primeira pessoa, também vivem aquilo que está a ocorrer no seu meio ambiente envolvente. Os pais que ficaram em lay-off, desempregados, contaminados. Que viram alguns dos seus familiares falecerem, seja por terem sido contaminados pelo vírus ou por outra qualquer situação normativa. E todas estas e mais algumas experiências precisam de ser sentidas, processadas, agidas e representadas a nível mental e do nosso sentir. Sendo que este processo é feito individualmente mas também no grupo de pares. E é preciso que todos possamos criar este tempo para que este brincar possa acontecer.


Aulas e mais aulas, formais e com conteúdos programáticos que precisam de ser cumpridos e que não possibilitam a existência deste tempo para brincar. E atenção que este brincar não é uma brincadeira que o professor ou educador traz para ser desenvolvida como mais outra actividade ou trabalho escolar. É um brincar e uma brincadeira criada pelos próprios com o seu tempo e responsabilidade de gerir o tempo e os acontecimentos que são gerados dentro deste intervalo. Porventura, ainda durante este resto de ano lectivo já não irá ser possível introduzir mais seja o que for. Mas no próximo ano lectivo é fundamental que possa ser revisto a importância do brincar e da brincadeira em conjunto para que todos estes e outros acontecimentos que vão continuando normativos, sejam os acontecimentos próprios da infância e adolescência, os namoros, o lançamento de novos jogos e outras tantas coisas, possam ser integradas, pensadas, sentidas, agidas por todos eles. Assim, neste tempo para o brincar estaremos a cuidar da saúde mental de toda uma geração.

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