Percebes ou queres que te faça um desenho?

Uma frase que muitos de nós já ouviram, certo? Provavelmente muitos de vocês não gostaram, correcto? Compreensível. Não pensem que vos vou falar sobre as fantásticas competências de algumas pessoas autistas para desenhar, até porque eles o poderão fazer melhor do que eu - desenhar e falar sobre isso. Mas voltando à frase inicial - Percebes ou queres que te faça um desenho?, como uma frase que muitos não gostam de ouvir. Até porque muito provavelmente também não estarão a perceber o que se está a passar ou a ser dito. Agora imagem aquilo que muitas das pessoas autistas sentem quando se dirigem a vários situais e têm de tratar de assuntos seus. Nomeadamente, assuntos de grande importância, tais como ir a uma consulta. Isso mesmo, acontece em algumas situações verificar-se alguma dificuldade na compreensão daquilo que está a ser falado na consulta. Muitos poderão logo pensar que é compreensível visto que estamos a falar de pessoas autistas, certo? Mas já pensaram que a dificuldade também poderá ser vista pelo facto do profissional de saúde não se estar a conseguir adaptar à pessoa que tem à sua frente? Seja ela uma pessoa autista ou não! Até porque ambos, a pessoa autista e o profissional de saúde lutam para encontrar um terreno comum para se poderem fazer compreender. As dificuldades na comunicação são transversais a todos nós e provavelmente sempre aconteceram ao longo do desenvolvimento da espécie humana. Não é apenas nas pessoas com um determinada condição que ela acontece. Se olharmos para as dificuldades na comunicação entre os casais podemos perceber rapidamente essa ideia. Ou então a dificuldade de compreensão devido à forma como se comunicação entre pais e filhos, principalmente quando estes são adolescentes. Nesta altura alguns professores dirão que a sua comunicação com os alunos também passa por diversas dificuldades. E o que dizer em relação aos políticos? Como podemos constatar as dificuldades de comunicação são uma constante. Ao ponto de haver registo da mesma na Bíblia em relação à torre de Babel, em que os Homens procuraram construir uma torre até ao céu e Deus terá lançado sobre eles uma maldição em que as pessoas envolvidas na sua construção passaram a falar cada um a sua língua ao ponto de não se entenderem e por conseguinte não terem terminado a obra. E o que dizer sobre os filmes, séries ou banda desenhada? Sim, a própria ficção que habitualmente espelha parte da realidade, também acaba por ter inúmeras evidências de encontro de dois povos ou espécies e que são de planetas diferentes e que como tal apresentam iguais dificuldades de comunicação. Desde a série Espaço 1999, Star Wars ou Star Trek, entre outros. São todos bons exemplos dos conflitos e problemas em que as pessoas se podem envolver quando o processo de comunicação não é adequado para ambos. Voltando à questão das pessoas autistas quando vão às suas consultas. É compreensível pensar que nas pessoas autistas são várias as situações que podem levar à existência de algumas dificuldades na comunicação, até porque é um dos critérios de diagnóstico. Seja os desafios na comunicação verbal, competências comunicacionais, necessidade de consistência, falta de reciprocidade ou dificuldade de compreensão da teoria da mente, etc. Todas elas atrapalham na capacidade das pessoas autistas em se conectarem com o profissional de saúde. Porém, para a comunicação bidirecional ser fica, os profissionais de saúde têm a responsabilidade de atender estes seus clientes procurando enquadrar-se ao seu perfil de funcionamento. E para atingir esse objectivo, os profissionais de saúde devem fazer adaptações para facilitar a reciprocidade, identificar os interesses e usa-los para facilitar a comunicação. A necessidade surge para os profissionais de saúde pensarem fora daquilo que é o seu método de comunicação e aprender com os seus clientes. E se é verdade que a disponibilidade das pessoas leva a um encontro mais facilitado entre ambos. Também é verdade que esse exemplo se encontra em muitas referências da ficção. Em todas as séries, nomeadamente aquelas que referi anteriormente, há exemplos desse mesmo encontro e disponibilidade entre espécies diferentes para poder comunicar melhor. Por exemplo, no Star Trek: The Next Generation, a história de Darmok e Jalad mostra bem como dois povos procuram ir ao encontro um do outro a partir dessa sua disponibilidade para comunicarem. E talvez não seja preciso ter de pensar muito para saber de uma pessoa autista que possa conhecer ou até mesmo ter algum interesse especifico no Star Trek. Tal como quem acompanha pessoas autistas não é preciso pensar muito para se recordar no número de vezes em que alguns dos seus clientes trouxeram ideias de algo que ocorreu em determinado episódio e que ficaram mais detidos a pensar naquilo que lá ocorreu. Ou então em alguma personagem de algum videojogo especifico. Porque haveriam as pessoas de estranhar acerca da possibilidade de se poder usar os interesses específicos das pessoas, sejam estas autistas ou não autistas, para abordar determinadas questões?! As interações na área da saúde e que se consideram bem sucedidas dependem da reciprocidade do provedor, ou seja, da sua disposição e capacidade de modificar o seu próprio comportamento para atender às necessidades dos clientes e tratá-los com respeito.


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