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Pássaros sem asas

As raparigas costumam ser mais bem comportadas que os rapazes na escola! ouvia na mesa ao lado. Mas ainda assim não deixam de ter dificuldades! retorquia a outra pessoa. Elas até são mais inteligentes do que os rapazes! volta a ouvir-se a primeira pessoa. Mesmo que consigam aprender melhor em muitas disciplinas continuam a ter várias dificuldades! voltei a ouvir.


E não foi preciso mais nada para pensar neste texto. Várias vezes deparo-me com este tipo de dilema. Principalmente quando oiço que esta ou aquela rapariga não pode ser do espectro. E porquê? pergunto eu. E lá oiço várias daquelas frases que anteriormente escrevi. As raparigas são mais bem comportadas e sossegadas. Ou então, é porque são mais conversadoras, ainda que possa ser um pouco mais tímidas. Mas nada que se compare aos rapazes. E até gostam de brincar. E fazem-no com uma outra amiga. E estão ali as duas tão sossegadinhas! E sorriem! E olham nos olhos! E são obedientes, ainda que por vezes possam ser mais persistentes nas suas coisas! E muitas adoram animais! E talvez um dia venha a ser médicas veterinárias?! Até porque são muito inteligentes!


Não os compreendia. Não entendia o que estava a acontecer à minha volta. Era como se estivesse a andar num nevoeiro! diz Raquel (nome fictício), sobre a sua passagem pela escola, sendo que agora tem 35 anos.


Lembro-me que era uma boa aluna, que os professores não conseguiam perceber como é que eu podia ser tão inteligente e e tão socialmente ignorante ao mesmo tempo.... Nunca percebi as crianças à minha volta, as suas conversas ou os seus comportamentos. Eu era como um extraterrestre que aterrou ali! diz Júlia (nome fictício) sobre o período escolar entre o 5º e o 12º anos, sendo que agora tem 28 anos.


Eu não os entendia. Fossem colegas ou professores. Eu não me compreendia a mim própria, e eles não me compreendiam, não me entendiam... Era um grande pesadelo. Eu queria morrer todos os todos os dias! diz Carla (nome fictício) sobre todo o período escolar até ao 12º ano, sendo que agora tem 45 anos.


A maior parte do tempo eu estava numa espécie de .... Acho que posso... acho que lhe poderia chamar "mundos imaginários na minha cabeça", com histórias, personagens e coisas. Não gostava da realidade, por isso criei uma melhor na minha mente! diz Catarina (nome fictício) sobre o tempo de escola e faculdade, sendo que neste momento tem 31 anos.


Na escola primária era horrível...Os seus colegas diziam que eu era esquisita, intimidavam-me. É muito difícil para mim falar sobre o que aconteceu lá. Tenho cicatrizes na minha alma dessa altura. Eu só tentava ser...Tentei fazer parte deles... Estava completamente sozinha! afirma Carolina (nome fictício), agora com 47 anos.


Ainda não me tinham diagnosticado, mas havia muitas dificuldades sociais. Não encontrava o meu lugar; ...Não é que...Não é que eu não tentasse fazer amizade com eles, eu tentava mesmo, como se estivesse a jogar os seus jogos e até a falar dos seus interesses.... Tive muitos ataques de ansiedade nessa altura, e ninguém sabia o que era! diz Sofia (nome fictício) sobre as suas experiências na escola, sendo que agora tem 41 anos.


Lembro-me de me sentir muito só, incapaz de descobrir quem eram exatamente os meus amigos e quem não era. Tornou-se mais difícil na quarta classe porque os colegas riam-se de mim, assediavam-me, chamavam-me nomes. riam de mim, assediavam-me, chamavam-me nomes. perdi-me socialmente. A escola não sabia como se comportar nesta situação. A escola não sabia como se comportar perante esta situação, não sabia como me ajudar. Hoje sei que não compreendi a situação social. Foi muito confuso para mim... algumas raparigas que eu pensava serem minhas amigas deixaram de repente de falar comigo e ficaram zangadas comigo e não me disseram porquê, ...como se fosse suposto eu resolver tudo sozinha...eu não posso fazer isso. Se queres que eu saiba alguma coisa, diz. diz... Lembro-me que me fazia sentir tão perdida! diz Paula (nome fictício) sobre algumas das suas experiências na escola na relação com os colegas, sendo que agora tem 51 anos.


Não compreendia as raparigas da turma; era confuso. Às vezes eram simpáticas e amigáveis e outras vezes não... Lembro-me de tentar fazer o mesmo que elas; como elas faziam. Não percebia porquê, achava que era o que eu tinha de fazer para pertencer. Às vezes funcionava

para mim. Acho que... não sei... Às vezes as raparigas não autistas ficavam irritadas comigo, tornavam-se distantes e não queriam estar comigo... Eu não sabia como lidar com isso! conta Cláudia (nome fictício) sobre a altura do ensino secundário, sendo que agora tem 23 anos.


No sexto ano, apercebi-me que era diferente; só só então isso começou a incomodar-me e eu queria pertencer. Eu nunca me tinha sentido assim. De qualquer forma.... decidi que no escola secundária iria mudar-me para uma nova escola, com novos colegas. Andei no ensino básico numa escola onde ninguém ninguém me conhecia. Queria começar de novo! diz Andreia (nome fictício) sobre as várias passagens na escola, sendo que agora tem 35 anos.


Eu disse aos meus pais que queria um novo começo, sabe, foi um pesadelo na escola primária. Eu queria começar começar de novo. Lembro-me de ter dito à minha mãe que não iria para qualquer escola onde pudesse ver alguém da escola primária. Onde não houvesse professores e muito menos crianças. Eu não queria ver essas pessoas, pensar nelas, lembrar-me delas lembrar-me delas, ou falar sobre elas. Nada! diz Tânia (nome fictício) sobre um período muito traumático da sua vida escolar, sendo que agora tem 31 anos.


Os meus pais procuraram muito! Mas ninguém ninguém sabia como pôr o dedo na ferida e dar-lhe o nome correto... Eu tinha recebido tantos diagnósticos...era como uma viagem para chegar ao diagnóstico... os profissionais descobriram que eu era hipersensível, ansiosa, que tinha dificuldades de aprendizagem ... ninguém conseguia ver o todo o quadro! diz Amélia (nome fictício) sobre a marca que a escola teve para si, sendo que agora tem 43 anos.


Apesar de não ter compreendido o diagnóstico na altura, lembro-me de me sentir aliviada. De repente, tudo fazia sentido. Quer dizer, eu já sabia que era diferente e estranha, e ter este diagnóstico significava que podia começar a perceber porquê! refere Catarina (nome fictício), agora com 26 anos.


Antes de me ser diagnosticado o autismo, lembro-me que sentia-me como um pássaro sem asas... Eu queria voar mas mas não conseguia.... e agora sei porquê... É que, antes do diagnóstico, pensava que se todos os outros tinham sucesso exceto eu, devia ser porque eu não me estava a esforçar o suficiente... O diagnóstico ajudou-me a mudar esse pensamento! diz Clara (nome fictício), agora com 19 anos.


Após o diagnóstico, lembro-me de ter ficado chocada, muito confusa. Não compreendia o que era. Não compreendia bem como é que isso se relacionava comigo... Na escola primária, sentia-me bem sucedida e, de repente, a partir do momento do diagnóstico, tudo se desmoronou. De repente, os professores e os pais viam-me apenas através das coisas em que eu não era bom. Constantemente a tentar integrar-me, pertencer e corrigir o diagnóstico colocava-me sob muita pressão e ansiedade. Era muito muito além do que eu precisava, muito além do que eu queria! diz Vanessa (nome fictício) agora com 29 anos.


Não tinha qualquer contacto pessoal com os meus professores; eles eles não sabiam quem era realmente a Ana. Sentia que eles que olhavam para mim de forma estereotipada, e não pessoalmente... que me fazia sentir transparente, como o ar, como se fosse invisível. Ninguém me conhecia pelo que eu era! diz Ana (nome fictício) agora com 48 anos.


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