Os anjos têm sexo? Sim, claro!

"Mãe, como é que nascem os bebés?", "Mas mãe, se é a cegonha que os traz para que serve o pénis ou a vagina?", "Onde é que aprendi isso? Com os colegas, na escola e na internet!", "Sabes mãe, eu penso que a humanidade é anterior às cegonhas, logo a tua explicação não parece fazer muito sentido!". Este pode muito bem ser um diálogo provável entre mãe e filha autista. Não acredita? Pensa que as crianças autistas não sentem ou pensam nisso? As crianças autistas crescem e tornam-se em adolescentes e adultos autistas, sabe disso, não sabe? E que os adolescentes e principalmente os adultos, sejam autistas ou não, passam a ter um conjunto de sensações fisiológicas, libido, desejo em estarem com outras pessoas e descobrirem o seu próprio corpo? Não sabia? Tinha ideia que o seu "Anjo Azul" não teria essas coisas? Este pode muito bem ser um diálogo provável entre um psicólogo e uma mãe ou pai de uma pessoa autista. Na volta, talvez todos tenhamos de conversar um pouco acerca dos "pássaros e das abelhas". É que a Primavera já vai longe!

Os limões têm penas? Alguém sabe? Ninguém parece saber, mas são muitas as pessoas que continuam a comprar limões apenas olhando para eles e identificando-os como tal. Ninguém os cheira ou abre ao meio para ver se estão bons. Simplesmente, identificam onde estão os limões e colocam-os no carro das compras. E se assim o é, porque será que as pessoas têm dúvidas que as pessoas autistas têm uma sexualidade, a sua sexualidade, identidade de género, pensamentos eróticos, desejos, vontade de ter relações intimas e sexuais, vontade em conhecer o seu corpo e da outra pessoa, masturbarem-se, terem fetiches, etc.? E por favor, não respondam simplesmente porque são autistas! Isso não vai abonar em nada da vossa competência intelectual, assim como de qualquer coisa que possa dizer a seguir sobre o assunto.


A sexualidade é algo que aflige muitas pessoas. Por exemplo, quando se procurou implementar a Educação Sexual nas escolas houve logo quem ficasse a pensar que as crianças e os jovens passassem a ter uma vida sexual mais precoce. Claro que o número de gravidez na adolescência que se verificava nessa altura em nada interessava para o facto. Ou outros indicadores dos níveis de insatisfação com a vida sexual na vida adulta principalmente nas mulheres, entre outros. O funcionamento psicossexual abrange não apenas comportamentos sexuais, mas também as dimensões interpessoais (isto é, socialização psicossexual; por exemplo, relacionamentos) e dimensões intrapessoais (isto é, identidade psicossexual). Embora não seja necessário, os elementos interpessoais e intrapessoais podem ser a base para um funcionamento psicossocial geral saudável. Por exemplo, ter uma paixão ou desenvolver um relacionamento com alguém e ter desejos sexuais, pode ser a base para o desenvolvimento de comportamentos sexuais em parceria.


E este funcionamento psicossexual pode ser dividido em três domínios: socialização psicossexual (interpessoal), individualidade psicossexual (intrapessoal) e comportamento sexual / íntimo. A socialização psicossexual inclui a interação com contextos sociais (por exemplo, colegas, pais, irmãos e comunicação social e redes sociais) nos quais os indivíduos aprendem e experimentam relacionamentos e sexualidade. A individualidade psicossexual refere-se ao funcionamento intrapessoal, incluindo auto-estima, competência percebida e conhecimento. O comportamento sexual / íntimo inclui um continuum de comportamentos e experiências sexualizados, variando de comportamentos típicos apropriados à idade a comportamentos atípicos, inapropriados ou até ilegítimos.


E é assim para todos, não obstante serem autistas ou não autistas. Ainda que existam determinado conjunto de características próprias do diagnóstico de Espectro do Autismo, mas principalmente, traços relacionados com a própria pessoa que podem fazer variar este meu desenvolvimento e funcionamento psicossexual.


As pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) apresentam uma condição do neurodesenvolvimento que afecta a comunicação social, e apresentam um padrão de comportamentos e interesses restritos e uma tendência para a inflexibilidade. É compreensível que o autismo ou algumas das suas características afecte também o desejo sexual afectivo, em especial nos adolescentes e adultos. A PEA compreendida como uma alteração do neurodesenvolvimento, pode apresentar-se com um desenvolvimento psicoacfectivo mais tardio. Mas ainda assim não é correcto que se pense que não venham a ter. Como tal, independentemente da altura em que começa a ser mais manifesto nos comportamentos, pensamentos e sentimentos da pessoa autista algo mais característico do seu desejo sexual afectivo, devemos pensar que é um processo em desenvolvimento e que como tal já está a acontecer e vai continuar. Como tal, é fundamental, para as pessoas autistas como para qualquer pessoas, ajudar neste processo de descoberta de si próprio e do outro e de crescimento.


Isto porque, ainda persistem diferentes mitos e crenças sobre as pessoas autistas, por exemplo, que não terem afectos a nível sexual, ainda que existam capacidades de estabelecer relações intimas. Essas crenças foram reforçadas por estudos realizados em pessoas acompanhadas em idade adulta, concluindo que a maioria das pessoas com PEA não desenvolveu relações heterossexuais estáveis e poucas formaram uma família com filhos. E que as crianças mas também os jovens mostram pouca vontade em estarem com os outros, principalmente com os outros do do sexo oposto, e que parecem não ter interesse manifesto no seu corpo. Nada disso, até porque, nos jovens autistas a partir do inicio da puberdade, é comum, tal como em outros jovens não autistas, a prática de masturbação, seja com fonte de obtenção de prazer, mas também como forma de descoberta do seu corpo. E o interesse nas outras pessoas existe, sejam do sexo oposto mas também do mesmo sexo. E as combinações possíveis parecem não ficar por aqui. Até porque alguns de vocês já ouviram falar de género não-binário ou identidade não-binária. Este é um conceito que abarca várias identidades que não se enquadra no habitual masculino ou feminino.


É fundamental continuar a haver uma mudança no paradigma e na forma de poder compreender o desenvolvimento e funcionamento psicossexual da pessoa autista. Para tal, todos os intervenientes no processo precisam de fazer as suas mudanças. Os próprios investigadores começaram nos últimos anos a fazer algumas mudanças fundamentais. Seja com o aumento dos trabalhos de investigação neste grupo, em crianças, adolescentes mas também em adultos. No fundo vão conferir uma validade à sexualidade destas pessoas assim que este tópico passa a ser um fenómeno com interesse em explorar. Depois, ainda na própria investigação se tem assistido a outras mudanças metodológicas e que espelham os sinais de mudanças. Os temas dos trabalhos de investigação têm deixado de ser unicamente centrados nos aspectos negativos relativo à sexualidade as pessoas autistas, para olhar para os aspectos positivos e que são próprios de um desenvolvimento psicossexual normativo e com um conjunto de características que providenciam bem estar e prazer nas pessoas autistas. E também o facto dos trabalhos de investigação terem deixado de ser unicamente baseado em relatos de pais e profissionais de saúde face ao comportamento sexual das pessoas autistas, para passarem a ser os próprios autistas, principalmente adolescentes e adultos a informarem acerca da sua própria sexualidade.


Ainda na gama dos profissionais que trabalham com o Espectro do Autismo, os médicos e psicólogos passaram a integrar com uma maior naturalidade e frequência, a abordagem destas questões relacionadas com a sexualidade e o funcionamento psicossexual das pessoas autistas. Levando inclusive que para além do treino de competências sociais pudesse ser abordado nesta intervenção áreas relacionadas com a sexualidade e os relacionamentos íntimos.


Nos pais, é fundamental como sempre poder ajuda-los a compreender o comportamento dos seus filhos para lá do que são os critérios de diagnóstico e as características comportamentais e sintomas. Os seus filhos são dotados de uma vida intrapsiquica e que precisa de ser nutrida e para isso é importante poder ajudar os pais a procurar um relacionamento mais salutar com os seus filhos e adaptado às diferentes etapas do desenvolvimento em que estes vão estando com diferentes necessidades. Não são apenas os profissionais de saúde e investigadores que precisam e ser ajudados a perceber que há uma sexualidade sentida, vivida e agida nas pessoas autistas. Os pais de uma maneira geral vão continuando a ter a ideia de que os seus filhos autistas se mantêm os seus Anjos azuis toda a vida e que não se vão interessar pelo seu corpo porque não cuidam dele, ou que não querem saber de ter relacionamentos porque nunca demonstraram interesse nas outras pessoas, nomeadamente do sexo oposto. E quando o fazem por exemplo por pessoas do mesmo sexo é uma dificuldade acrescida para estes pais, mas também para estes filhos que sentem que também aqui não estão a ser aceites e compreendidos na sua expressão afectiva.

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