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Onde é que estavas no 25 de abril?

Onde é que estavas no 25 de abril? perguntaram ao Alberto (nome fictício). Como assim? respondeu ele de imediato. Acho que ele te está a perguntar onde é que estavas no 25 de abril? diz Ana (nome fictício). E talvez se esteja a referir ao ano passado visto que hoje é dia 23 de abril, comenta Ana. Achas que eu me consigo lembrar onde estava no 25 de abril, exclama Alberto. Pensas que com quase cinquenta e cinco anos me consigo lembrar da mesma forma como os meus filhos? pergunta retoricamente. Tu nem com trinta e cinco te conseguias lembrar, quanto mais agora! refere Ana. Tu já me conheces muito bem, retorquiu Alberto. E sim, conseguir lembrar-me destas e de outras datas comemorativas destas e de outras questões não é comigo, continua. Eu nem a minha data de aniversário, quanto mais! exclama.


Alberto tem cinquenta e quatro anos, quase cinquenta e cinco. Já há bastantes anos que fui diagnosticado com autismo, refere. Já nem isso me lembro, continua. Sei que na altura aquilo tudo teve um grande impacto na minha vida, acrescenta. E nem tudo foi negativo. Houve muita coisa que também foi positivo, diz. Mas não me recordo. Sei que ainda era criança. Nem sequer a minha irmã tinha nascido, conclui. Consigo lembrar-me da altura em que conheci a Ana, refere a sorrir. Ainda bem! retorquiu Ana também a sorrir. Mas isso tem a ver com o facto de ter sido algo mais recente. A Ana é a esposa do Alberto. Conheceram-se há quase dezoito anos atrás na universidade. Têm dois filhos, o Diogo (nome fictício) com 14 anos e a Leonor (nome fictício) com 12 anos. O Diogo tal como o pai tem um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. A Leonor tem um diagnóstico de Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção.


Mas afinal onde é que estavas no 25 de abril? perguntaram novamente ao Alberto. Acho que querem saber o que é que tu estavas a fazer quando foi a revolução do 25 de abril de 1975, lembrou-se Ana. O quê?! Em 1975?! pergunta Alberto. A parte de saber que tinha 8 anos é fácil. Até porque se nasci em 1967, é fácil de fazer as contas, continua. Agora o que é que eu estava a fazer nessa altura já não sei, refere. Penso que querem saber de como é que tu viveste a passagem da ditadura para a liberdade, diz-lhe Ana. A sua esposa sempre foi uma pessoa que ajudou o Alberto a fazer uma leitura de muitas das questões do quotidiano. Ultimamente até eu falho com a memória, diz Ana. A vida tem sido toda ela muito intensa, refere. O fim da ditadura e a passagem para a liberdade, é isso que querem saber! refere Alberto. Não sei se fizeram bem em colocar-me essa questão, continua. Há várias formas de a poder responder, diz. Não sei se estarão preparados para ouvir todas elas, acrescenta. Há a versão histórica e que posso fornecer bastantes detalhes sobre ela, até porque tenho um interesse profundo nesta área, refere. Mas também tenho a minha visão pessoa sobre a questão. A liberdade continua a ser um bem escasso para muitas pessoas autistas como eu. Eu próprio sinto que tenho de lutar grande parte dos meus dias para ter a liberdade que é um bem adquirido por todas as pessoas à minha volta. O acesso ao trabalho e às condições que respeitam o meu diagnóstico ainda precisam de ser reclamadas. Isso mesmo, reclamadas, refere num tom mais áspero. Aquilo que eu sei que são dados adquiridos pelos trabalhadores, eu ainda tenho de lutar por eles. E não é só isso, diz. Eu vejo bem as dificuldades que os meus filhos na escola têm. E se não fosse a mãe andar lá todas as semanas, as coisas não corriam tão bem. O fim da ditadura? Por vezes ainda tenho dúvida, refere. Até porque a opressão pode ser vivida de várias formas, conclui.


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