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Onde é que as pessoas autistas trabalham?

O que é que aquelas pessoas estão a fazer de volta ou em cima de um monte de palha? Já ouviu falar de procurar uma agulha no palheiro?


Se você acha que já é difícil saber quantas pessoas autistas adultas estão a trabalhar com um contrato de trabalho, pense novamente! Porque se isso é difícil, então ainda mais é saber onde é que elas trabalham e em que sectores é que se encontram mais ou menos representadas. E essa questão de saber onde estão e para onde são orientadas é tão ou mais importante do que saber se estão ou não a trabalhar. E porquê?


Porque precisamos de olhar para as pessoas autistas adultas como pessoas de direito e validar os seus direitos fundamentais, nomeadamente de eles próprios escolherem as suas profissões e terem condições para alcançar esses objectivos tal como qualquer outro cidadão de direitos.


Por exemplo, ainda existe muito a ideia de que as pessoas autistas querem ou gostam de trabalhar na área das Tecnologias de Informação (i.e., informáticos, programadores, etc.). Mas aviso que isso é um estereótipo tão grande ou maior do que pensar que o ratio de diagnósticos homem : mulher continua em 4 : 1.


Mas também podemos observar que alguns programas de empregabilidade para pessoas autistas as orientam para áreas menos diferenciadas. E se é verdade que é importante as pessoas estarem a trabalhar com um contrato de trabalho, é igualmente importante perceber se a pessoa deseja aquele mesmo trabalho.


Se percebermos para onde as pessoas autistas desejam ir trabalhar e em conjunto com elas possamos criar um caminho para essa mesma integração passaremos a ter uma maior empregabilidade das pessoas autistas, mas também uma maior representatividade destes em sectores mais diversos. Além de podermos compreender que medidas necessitamos para poder criar melhores condições para todos nos locais onde se encontram representados.


Por exemplo, parece haver uma maior representatividade de mulheres autistas no sector da saúde! Ficou espantado? Talvez esta informação possa levar a criar uma nova série mas com o nome A boa doutora! e não The good doctor! Piadas à parte, mas com essa informação podemos perceber melhor o perfil destas pessoas autistas e a que sectores do mercado de trabalho estão a querer aceder. E isso é fundamental para criar guias orientadores para os vários e diferentes stakeholders envolvidos no processo: empregadores, recrutadores, colegas, universidades, escolas de formação profissional e as próprias pessoas autistas.


No que diz respeito aos recrutadores tenho escrito várias vezes a importância de que estes possam estar munidos não apenas das ferramentas habituais de um processo de recrutamento, ainda que estas ferramentas possam (algumas delas) estar adaptadas para pessoas com deficiência. Mas que sejam adaptadas para pessoas autistas ou neurodivergentes. E tal como os instrumentos de avaliação psicológica (i.e., escalas, questionários) se tem verificado que não estão suficientemente adequados para medir ao que se propõem medir na população autista, também estas ferramentas na área do recrutamento e selecção necessitam de o estar. Assim como os próprios recrutadores precisam de estar sensibilizados para estarem neste processo com as pessoas autistas.


Mas também os empregadores, que muitas vezes não sabem sequer que tipo de medidas de adaptação necessitam de fazer nos locais de trabalho e anteveem que irão gastar imenso dinheiro, quando na verdade as mudanças são principalmente comportamentais (ainda que estas também sejam desafiantes). Por exemplo, a utilização de equipamentos que possam reduzir o ruído ambiental não é igual a não querer estar conectado com os colegas ou não os querer ouvir. Sendo que o uso dos Loop earplugs aquilo que faz é reduzir o ruído e deixar a pessoa autista continuar a ouvir os colegas. Ou o poder trabalhar num ambiente mais reservado e não em open space, forçando as pessoas a se adaptar a algo que para si é violento e desorganizador. Ou vestir uma determinada roupa que faça parte do dress code e ainda assim dizer que se não o querem fazer então deveriam pensar em outra área que não a banca/financeira.


Ou as universidade e escolas de formação profissional que precisam de saber como poder adaptar os currículos e ajusta-los àquilo que é a realidade das pessoas autistas e do mercado de trabalho para receber pessoas autistas. Um exemplo disso passa por haver pessoas autistas que optam por fazer um bootcamp para trabalhar na área da programação quando antes tinham entrado para um curso de engenharia informática. E não há nada de errado nos cursos de engenharia informática ou outros. A questão é da necessidade de ir ao encontro das necessidades das pessoas e do próprio mercado.


E é necessário podermos compreender que as pessoas autistas com níveis mais elevados de formação, nomeadamente Ensino superior, são aquelas que têm maior probabilidade de integrarem o mercado de trabalho, ainda que dentro de todo um conjunto de dificuldades já conhecidas. E com isso quero dizer sobre a importância de ajudar a que as pessoas autistas queiram caminhar no seu processo continuo de formação pós Ensino secundário. E não venham dizer que isso já é uma realidade com a criação de contingentes especiais e afins pois na verdade este ano lectivo foi relembrado pela Direcção Geral do Ensino Superior que esse mesmo contingente é para pessoas com atestado multiusos com uma incapacidade igual ou superior a 60%. Ora muitos de nós sabem o quanto isso inviabiliza a entrada de todo um conjunto de candidatos autistas ao Ensino superior ao abrigo desse mesmo contingente. Além de continuarmos a lutar para que as Instituições de Ensino Superior possam ter os docentes universitários e demais técnicos sensibilizados e adaptados para a integração de alunos autistas e isso ainda não é uma realidade completa.


E o mesmo se pode aplicar nas escolas de formação profissional e que continuam com tanta inflexibilidade a não aceitar a educação inclusiva para os alunos autistas, ainda que seja um direito seu. E também aqui deve haver a possibilidade de que os currículos possam ser pensados de forma adaptada. Seja para aqueles alunos autistas que possam apresentar em comorbilidade um Dificuldade Intelectual e Desenvolvimental, mas também para os demais.


Provavelmente se continuarmos, nós os não autistas, a insistir rigidamente em não fazer determinadas mudanças, talvez acabemos a comer a palha ao invés de a embalarmos e comercializarmos, já sem agulhas!


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1 則留言


Excelente !!! Gratidão pela reflexão !! Rosário, mãe do Daniel Tartuci !!!

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