Olha o peixe fresquinho, freguesa!

Para quem já tentou comprar peixe fresco sozinho sabe que a tarefa não é fácil. Assim como também não é difícil trazer para casa um peixe com dois dias de arca. Coisa que o meu pai me ensinou desde novo - olhar para o olho do peixe e ver se está raiado de sangue e o cheiro que sai das guelras. Na Perturbação do Espectro do Autismo (PEA), os pais, principalmente estes sentem muito receio da interacção dos seus filhos com outras pessoas, principalmente por sentirem que estes têm um maior nível de ingenuidade e que são mais facilmente enganados. Até porque é conhecido a sua maior dificuldade em conseguirem ter uma perspectiva diferente à sua para poderem avaliar a situação que estão envolvidos. As histórias que os pais e até mesmo os próprios contam servem de exemplo para caracterizar esta situação de maior probabilidade de serem enganados e menor capacidade de enganar.

Percebemos e interpretamos o Mundo através do modo como as outras pessoas se comportam com o objectivo de prever as suas próximas ações e ajustarmos os nossos próprios comportamento em conformidade. Uma vez que é do conhecimento comum que as pessoas interpretam as ações umas das outras dessa maneira, a possibilidade de usarmos o que é designado de engano estratégico ou simplesmente engano, surge. Ou seja, podemos intencionalmente realizar uma ação que provavelmente será mal interpretado, a fim de obter uma vantagem estratégica.


Às vezes, supõe-se que o engano tenha de envolver necessariamente a tomada de perspectiva, ou, equivalentemente, ter uma teoria da mente. De acordo com essa ideia, os que enganam devem levar em consideração como os outros perceberão e interpretarão as suas ações. Assim, por exemplo, um jogador de poker pode o tamanho da aposta, apesar de receber uma mão horrível de cartas, pensando que os outros jogadores provavelmente interpretarão o aumentar da aposta como significando uma boa mão de cartas - já que presumivelmente não se jogaria voluntariamente por mais dinheiro com uma mão horrível de cartas. Portanto, aumentar a aposta aumentará a probabilidade dos outros jogadores desistirem, ou seja, e perderem a aposta. De acordo com essa ideia, a capacidade de engano eficiente parece estar altamente correlacionada com uma perspectiva social complexa.


No entanto, o engano também pode ser puramente baseado em aprendizagem de causas e efeito. Ao interagir repetidamente com os outros, podemos observar comportamentos regulares que podem ser exploradas posteriormente para prever como os outros responderão às ações de alguém. O jogador de poker pode simplesmente associar o aumento da aposta com uma probabilidade aumentada de dobrar com base em interações repetidas, sem realmente representar a perspectiva do outros jogadores. Tais estratégias aprendidas socialmente podem servir como alternativas rápidas à tomada de perspectiva, mas também como estratégia (compensatória).


No entanto, as pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) são frequentemente vistas como tendo maior compromisso nesta tomada de perspectiva, aquilo que alguns investigadores têm designado de "blind mind". Em alguns estudos inicias por volta de 1990 chegou-se mesmo a conceber que esta característica seria uma característica que definia a própria perturbação.. Contudo, estudos mais recentes têm enfatizado as importantes diferenças individuais da Perturbação do Espectro do Autismo e que dificilmente serão redireis a um único deficit. De facto, vários estudos demonstraram que em ambientes experimentais adequados crianças e adultos com PEA parecem perfeitamente aptos para adotar as perspectivas de outras pessoas. No entanto, mesmo estes estudos reconhecem que as dificuldades com a tomada de perspectiva são comuns em pessoas com PEA. Portanto, prevê-se que as pessoas autistas tenham dificuldade com os enganos e na detecção de fraude.


Aquilo que a ciência tem ajudado a demonstrar é de que há um maior número de semelhanças entre pessoas com e sem Espectro do Autismo em várias áreas e também nesta. O que existe no entanto parece ser uma maior dificuldade no processamento de informação e no tempo de realização. Ou seja, verifica-se que de uma forma global não há diferentes entre neurotipicos e neurodivergentes. No entanto, as pessoas autistas demoram um pouco mais de tempo. Até porque usam enquanto estratégia compensatória o estudo da estratégia comportamental que o outro está a usar e isso pode representar um pouco mais de tempo até conseguir dar uma resposta, ainda que a consiga. Esta ideia é muito comum de se poder observar e também encontrar no próprio relato das pessoas autistas, que nos dizem frequentemente preferir ficar a observar para perceber o que está a acontecer para depois poderem intervir com um maior nível de confiança. Não que não o queiram fazer, seja interagir ou até mesmo poder enganar a outra pessoa, porque o fazem. mas é preciso dar um pouco mais de tempo para que isto aconteça. Estas e outras diferenças, principalmente quantitativas têm sido possíveis à luz do desenvolvimento de melhores desenhos experimentais e principalmente no trabalho conjunto realizado com pessoas autistas que têm informado continuamente acerca daquilo que investigadores e clínicos andam à procura.

15 visualizações

Informação útil:

©2018 by Autismo no Adulto. Proudly created with Wix.com