O X marca o lugar. Não há autismo no feminino!

Os meninos isto, as meninas aquilo! Os rapazes isto, as raparigas aquilo! Os homens isto, as mulheres aquilo! Os autistas...!?! E agora, como é que fica?

Penso que o titulo tal qual está pode dar espaço para algumas questões, observações, altercações, etc. Há espaço para tudo, até para poder reflectir sobre aquilo que pensamos ser a realidade.


Continuo na prática clínica diária a ver mais e mais adultos, homens e mulheres, a serem diagnosticados pela primeira vez com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) nesta etapa da vida. Ou seja, estou a dizer que estou a contactar com um maior número de pessoas adultas, homens e mulheres, que tendo características comportamentais que cumprem os critérios de diagnóstico de uma PEA, na maior parte desde crianças, apenas o estão a ser diagnosticados na idade adulta pela primeira vez. Curiosamente, nem sempre estes adultos são diagnosticados quando vêm à procura de resposta para si. Há situações em que os adultos trazem os seus filhos, mais pequenos ou adolescentes à consulta para fazer um despiste de PEA e passam a perceber um pouco melhor que um deles (pais) ou ambos apresentam características semelhantes. Esse facto em algumas situações desencadeia um processo novo de avaliação ao adulto(s) em questão.


Continua a haver muito a ideia de que não se diagnostica PEA nos adultos! Não é verdade, ok? Há testes. Há instrumentos validados na comunidade cientifica internacional para realizar um diagnóstico de PEA numa pessoa adulta. Além dos instrumentos sublinho o facto do diagnóstico de PEA ser um diagnóstico clínico realizado por um profissional (médico, psiquiatra, psicólogo, etc.) que observa as características comportamentais do seu cliente de acordo com as características de um quadro de funcionamento de PEA. Não somente as características que estão descritas na DSM-5 ou ICD-10 mas todo um conjunto de outras características que são descritas na literatura sobre a apresentação da PEA.


Quando refiro no titulo - "Não há autismo no feminino" quero significar o seguinte. A PEA é uma perturbação do neurodesenvolvimento. Ela é diagnosticada por intermédio de vários critérios, tais como comportamentos de procura/interesse sensorial, adesão rígida a uma rotina e dificuldades na interacção social. E isso é verdade para as pessoas de todos os géneros. Embora existam diferenças na forma como esses mesmos factores se apresentam entre géneros, eles são sociais, não biológicos. Entender que os traços autistas são universais e exibidos de maneira diferente é crucial para entender como as necessidades e desafios são diferentes daqueles dos meninos e homens autistas.


Não é segredo nenhum que a linguagem e o comportamento de género para meninas e meninos estão presentes desde o nascimento: os meninos devem ser corajosos e fortes, enquanto as meninas devem ser doces e educadas, etc. Os rapazes são determinados enquanto as raparigas são sensíveis e estão em contacto com as suas emoções. Os rapazes tendem a concentrar a sua frustração e apresentam mais frequentemente explosões de raiva. As raparigas são ansiosas e tendem a ser quietas ou reservadas. Estas e outras descrições (podem) enviesam a nossa observação e avaliação.


O diagnóstico de PEA é para meninos e meninas, rapazes e raparigas, homens e mulheres. Os critérios de diagnóstico, para além do que é descrito nos manuais de diagnóstico, são os mesmos. Ainda que se verifiquem formas diferentes de apresentação nos homens versus mulheres com PEA. Isso não faz com que deixem de ser autistas. Isso não faz com que muitos deles e delas tenham características semelhantes e dificuldades semelhantes nos vários domínios observados. É importante, fundamental até chamar a atenção do enviesamento do diagnóstico de PEA para os rapazes. As raparigas/mulheres não podem continuar a ser negligenciadas. E não o podem por serem autistas.

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