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O Rei está vacinado

O Rei está vacinado. Poderia perfeitamente ser uma boa frase de campanha para incentivar as pessoas a aceitarem a vacina para o COVID-19. Talvez a fotografia em questão possa ter tido algum resultado positivo na altura da campanha de vacinação para a Poliomelite nos anos 50 do século passado. No entanto nos dias de hoje, seja pelo enquadramento psicossocial da própria situação vivida e todo um conjunto de acontecimentos decorridos ao longo de todos estes anos. E a forma como tudo isso tem alterado a própria visão das pessoas. O certo é que se tem verificado alguma resistência ao processo de vacinação para o COVID-19.


E quando procuro reflectir sobre como é que as pessoas autistas estão e irão continuar a reagir a este processo. Parece-me inevitável não me ocorrer toda a celeuma e misto de fake news em torno da ligação de certas vacinas com o próprio desenvolvimento de autismo.

A hesitação em ser vacinado e a própria retórica anti-vacina, que pode resultar em atraso na aceitação ou até recusa, interage de forma complexa com factores contextuais mais amplos, presentes em certas manchetes na comunicação social.


Os movimentos anti-vacinação são conhecidos por usar métodos com forte componente emotiva e histórias anedóticas para persuadir os leitores da sua relevância. E dois argumentos fortemente usados são os perigos associados à percepção do conteúdo de mercúrio em vacinas comuns, e o debate (ainda) em curso no que diz respeito à vacina contra o sarampo, papeira e rubéola (MMR) e o autismo. Mesmo que a comunidade científica tenha rejeitado os resultados do artigo original de Andrew Wakefield, citando uma ligação potencial entre o autismo e a MMR, os seus efeitos ainda são evidentes dentro do população geral. Na verdade, os medos da segurança da vacina e dos efeitos secundários das vacinas são amplamente citados como uma razão primária dos pais em hesitar ou recusar-se a ter o seu filho vacinado.


A hesitação da vacina pode ser considerada na literatura actual como uma categoria referente ao atraso e/ou recusa da toma da vacina e da potencial tomada de decisão. A anti-vacinação é considerada aqui como as opiniões e acções contra o uso da vacinação, que por si só pode ser considerado um efeito a jusante da hesitação da vacina.


Antes da pandemia do coronavírus, verificaram-se um aumento das mensagens de grupo anti-vacinação nas plataformas das redes sociais, imediatamente após a cobertura mediática mainstream pró-vacinação. Neste momento, também foi notado que um grande factor contextual nos movimentos anti-vacinação, e que surpreendentemente, retomam o tema da eficácia das próprias vacinas.


Haverá certamente todo um conjunto de pessoas que terá conhecimento de muitos exemplos de pessoas autistas que têm estado a receber de forma bastante positiva a proposta para a vacina contra o COVID-19. Nomeadamente, temos observado em vários países a movimentação de cidadania das Associações e Organizações pró-Autismo relativamente ao enquadramento das pessoas autistas como grupo prioritário.


Contudo, também são várias as pessoas que têm conhecimento de pessoas autistas que se têm recusado a fazer a referida vacina contra o COVID-19. E se muitos pensariam que isso seria impossível de acontecer. Pensem que algo com contornos semelhantes aconteceu e eu diria que ainda continua a acontecer. Que é o facto de ter havido um movimento anti-vacinação que quer na altura do seu maior impacto mas ainda nos dias de hoje continua a ter um impacto alargado.


Podemos inclusive pensar que a própria comunidade autista não deixa de estar mais susceptível às próprias teorias da conspiração. Seja relacionado com estas questões das vacinas ou outros, são vários os exemplos descritos na própria literatura cientifica que demonstram poder haver uma maior fragilidade nas pessoas autistas para colocarem em causa determinadas questões com base em informação veiculada por certos grupos de influência.


A explicação mais simples é sempre a mais provável, dizia Agatha Christie. Mas nem sempre é fácil de percebermos a simplicidade dos fenómenos, até pela sua própria complexidade. Além das próprias ferramentas que usamos para os compreender, quem nem sempre são as mais adaptadas. E não nos esquecermos de que a própria capacidade intelectual para poder pensar sobre estes e outros acontecimentos, por vezes torna-se muito difícil ou até mesmo impossível à data do acontecimento dos mesmos. Mas isso não quer significar que as coisas não sejam verdade. Ou que não tenham acontecido.


Como é que sabes que existe apenas este Universo?, pergunta-me Alexandre (nome fictício). Principalmente, se ainda nem sequer sabemos compreender este nosso onde habitamos, continua. Se os Universos paralelos são trabalhados na própria comunidade cientifica, isso não quer dizer que faz sentido colocar essa hipótese?, pergunta Júlia (nome fictício). E se o próprio Stephen Hawking o estudou, isso não confere validade?, questiona Herculano (nome fictício). O Paradoxo cósmico de que na altura do Bing Bang não foi apenas criado um Universo mas sim vários tem vários adeptos! E isso não vos leva a pensar nessa possibilidade?, refere Alexandre. Porquê? Porque não têm informação acerca disso? Também não têm certeza do que irá acontecer amanhã e não é por isso que deixam de o acreditar?, refere Júlia.


Alexandre, Júlia e Herculano são todos adeptos de séries como Stranger Things, The Umbrella Academy ou 22-11-63, entre outras. Recordo que na minha altura gostava imenso de ver Twilight Zone. Quem não? Era uma forma de sairmos da realidade vivida e de imaginarmos aquilo que nos passava nas questões que fazíamos a nós próprios e a outros. No entanto, o Alexandre, a Júlia e o Herculano levam estas questões das Teorias da Conspiração um pouco mais além. Não só têm um conhecimento vasto acerca das mesmas, mas também as rebatem em determinados círculos, principalmente online. E em muitas situações acabam por regular vários aspectos da sua vida quotidiana de acordo com algumas delas. Por exemplo, o facto de acreditarem que a vida terminaria às 03h00 e que durante algum tempo os levou a terem várias dificuldades em conseguir dormir de uma forma adequada. Ou então o facto de não olharem no espelho devido à Maria Sangrenta. Estas foram algumas das situações que viveram quando eram crianças. Mas não são as únicas e eles próprios não são os únicos. Dizem que são várias as pessoas com quem falam, seja em Portugal mas também por esse mundo fora.


Alexandre, Júlia e Herculano são adultos autistas. E eles próprios têm conhecimento de todo um conjunto de teorias da conspiração acerca do próprio autismo e de como em determinadas situações muitas delas têm levado à existência de graves problemas de saúde e até mesmo à morte de pessoas autistas por os próprios ou os seus familiares acreditarem que a vacinação é responsável pelo autismo, ou que a utilização de lixivia pode curar o autismo. Apesar de estarem a par destas questões, não deixam ainda assim de continuar a acreditar em muitas das teorias da conspiração. E ao que parece estes sistemas de crenças complexos que veem o mundo como sendo manipulado por múltiplos actores que colaboram na procura de objetivos malévolos, parece estar bastante enraizado no seu perfil de funcionamento. E ao que parece, pode existir alguma vulnerabilidade relativamente às crenças nas Teorias da Conspiração no Espectro do Autismo. Seja porque a sua capacidade de pensar "fora da caixa" os leva a colocar como hipótese muitos dos pensamentos alternativos. Mas também porque alguma da sua necessidade em pensar em múltiplas possibilidade pode abrir a porta a algumas das hipóteses colocadas nestas teorias. A questão aqui não se trata de melindrar as pessoas autistas que acreditam em teorias da conspiração. Até porque não são apenas as pessoas autistas que creem nelas. Mas sim, podermos pensar no porquê das mesmas poderem ocorrer com determinada frequência neste grupo especifico de pessoas. E de qual o impacto que algumas delas poderão ter. E no caso especifico da campanha de vacinação contra a COVID-19 poder haver um esforço por parte de todos para manter um ambiente sereno e fornecer às explicações adequadas e validadas para uma tomada de decisão importante.


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