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O que eu aprendi sobre a educação inclusiva

"Disseram que fui à escola para aprender. Só muitos anos depois percebi que, enquanto todos observavam aquilo que eu aprendia nos livros, quase ninguém reparava na tese que eu escrevia sobre o mundo."

Carlos, 34 anos, pessoa autista não verbal


Nasci autista.

Esta frase por si só não deveria necessitar de mais nada para ser um ensaio literário, mas as pessoas insistem em que tem de ter mais palavras. Talvez isso tenha a ver com o facto de serem verbais. Não aprenderam com o seu próprio silêncio, e com o ruído dos outros!


Muito mais tarde descobriram que também era não verbal.


Mas entre o nascimento e o diagnóstico aconteceu aquilo que acontece a todas as pessoas: vivi.

E viver é aprender.


Talvez seja essa a primeira verdade que a escola nem sempre consegue ensinar. A aprendizagem não começa quando um professor entra na sala de aula, nem termina quando toca a campainha. Aprender é uma actividade permanente da consciência. É uma reorganização contínua da forma como habitamos o mundo.


Durante doze anos frequentei a escola obrigatória.


Hoje penso nesses anos não como um percurso escolar, mas como a escrita lenta de uma tese. Não uma tese para obter um grau académico, mas uma tese sobre aquilo que significa existir entre outras pessoas.


Nenhum professor me pediu que a escrevesse. Ainda assim, escrevi-a todos os dias. Cada aula acrescentava um parágrafo. Cada recreio corrigia um argumento. Cada amizade introduzia uma nova hipótese. Cada rejeição obrigava-me a rever aquilo que julgava saber sobre a humanidade.


No final dos doze anos, percebi que tinha aprendido muito mais do que aquilo que alguma pauta conseguiria mostrar.


Primeira proposição. Toda a aprendizagem é biográfica.


Disseram-me que existia um currículo.


Matemática.

Português.

História.

Ciências.

Educação Física.


Era verdade.

Mas existia outro currículo.


Nunca apareceu nos horários.

Era composto pelas experiências que cada um levava para casa sem lhes dar um nome.


Aprendia-se a confiar.

Aprendia-se a desconfiar.

Aprendia-se a pertencer.

Aprendia-se a desistir.

Aprendia-se a esperar.

Aprendia-se a desaparecer.


Cada pessoa construía silenciosamente esse segundo currículo.


O meu era invisível.


Talvez por isso tenha sido o mais importante.


Percebi que não aprendemos apenas aquilo que alguém decide ensinar.

Aprendemos sobretudo aquilo que a vida insiste em repetir.


Segunda proposição. A inclusão nunca acontece apenas do lado de fora.


Durante muito tempo pensei que incluir significava permitir que alguém estivesse presente.

Hoje sei que isso é apenas arquitectura.


A verdadeira inclusão acontece quando uma pessoa consegue continuar inteira enquanto está presente.


Pode existir uma cadeira para mim.

Pode existir um plano educativo.

Podem existir adaptações.

Tudo isso importa.


Mas nenhuma dessas coisas responde à pergunta essencial.


Enquanto estou aqui, sou verdadeiramente visto?


Durante anos observei que era possível estar rodeado de pessoas e permanecer profundamente invisível.


Também descobri o contrário.


Bastava uma pessoa olhar para mim como alguém completo para que uma sala inteira se tornasse habitável.


Foi então que compreendi que a inclusão não é uma técnica.

É uma relação.


Terceira proposição. A linguagem nunca foi o único idioma da inteligência.


Como não falava, muitos acreditavam que o meu pensamento também era silencioso.

Era uma conclusão lógica.

Mas falsa.


Enquanto esperavam palavras, eu construía mundos. Enquanto esperavam respostas rápidas, eu demorava-me nas perguntas. Enquanto avaliavam aquilo que eu dizia, quase nunca imaginavam aquilo que eu observava.


Aprendi cedo que existe um estranho privilégio em permanecer calado. As pessoas revelam-se diante do silêncio.


Quem fala pouco acaba por assistir àquilo que os outros raramente escondem. Os gestos. As hesitações. As pequenas crueldades involuntárias. As delicadezas quase invisíveis.

Foi assim que me tornei estudante da condição humana.

Talvez a minha maior disciplina tenha sido sempre esta.

As pessoas.


Quarta proposição. O sofrimento também produz conhecimento, embora nunca devesse ser escolhido como professor.


Não romantizo a dor. Não acredito que seja necessária. Mas negar aquilo que ela ensina seria negar parte da minha própria história.


Fui subestimado.

Fui infantilizado.

Fui ignorado.


Houve momentos em que falaram sobre mim diante de mim. Momentos em que decidiram por mim porque era mais simples do que esperar por mim. Essas experiências não me fizeram melhor. Fizeram-me mais consciente.


Aprendi que a dignidade humana pode ser retirada muito antes de alguém perder direitos.

Basta perder a possibilidade de ser reconhecido como sujeito.

Foi talvez esta a maior lição da minha escolaridade.


Nunca tratar uma pessoa como se a sua consciência dependesse daquilo que consegue dizer.


Quinta proposição. Cada ser humano constrói secretamente uma filosofia do mundo.


Enquanto aprendia capitais, equações e regras gramaticais, outra aprendizagem acontecia dentro de mim.


Perguntava-me por que é que algumas pessoas ajudavam sem esperar recompensa. Porque é que outras tinham medo da diferença. Porque é que certos professores mudavam vidas sem nunca perceberem que o tinham feito. Porque é que uma palavra podia permanecer anos dentro de alguém.


Estas perguntas nunca fizeram parte dos exames.


Mesmo assim, foram as únicas que continuei a responder depois de terminar a escola. Percebi então que cada criança está constantemente a construir uma metafísica. Uma ideia sobre quem merece existir.

Uma ideia sobre justiça.

Uma ideia sobre amor.

Uma ideia sobre pertença.


A escola participa nessa construção, mesmo quando não sabe que o está a fazer.


Sexta proposição. As circunstâncias educam tanto quanto as intenções.


Conheci professores extraordinários. Conheci colegas generosos. Conheci pessoas que esperavam pelo meu tempo. Esses encontros ensinaram-me confiança.

Mas também conheci impaciência.


Conheci pressa.

Conheci o desconforto que algumas pessoas sentem quando encontram alguém que comunica de forma diferente. Essas circunstâncias ensinaram-me prudência.


Hoje percebo que nenhuma delas aconteceu em vão. As circunstâncias não perguntam se queremos aprender.


Limitam-se a ensinar.

Somos nós que, mais tarde, decidimos o significado dessas lições.


Sétima proposição. A educação acontece entre duas liberdades.


Durante muitos anos pensei que estava ali para ser educado. Hoje acredito que também estava ali para educar. Sem falar. Sem discursos. Sem apresentações.


A minha simples presença obrigava muitas pessoas a reverem aquilo que acreditavam saber sobre inteligência, comunicação, autonomia e humanidade. Enquanto elas me ensinavam conteúdos, eu ensinava perguntas. Talvez nunca se tenham apercebido disso. Mas educámo-nos mutuamente. A verdadeira educação é sempre recíproca.


Oitava proposição. A maior aprendizagem nunca aparece nos certificados.


No fim da escolaridade recebi classificações. Mas aquilo que realmente levo comigo nunca foi avaliado. Levo a capacidade de reconhecer um olhar que acolhe. Levo a memória daqueles que esperaram pelo meu ritmo. Levo a consciência de que existir não depende da velocidade com que respondemos. Levo uma convicção difícil de explicar. Nenhum ser humano pode ser reduzido ao modo como comunica.


Conclusão. A tese continua inacabada.


Quando terminei a escolaridade obrigatória, muitos pensaram que a minha educação estava concluída.


Sorrio quando penso nisso.


Foi precisamente nesse momento que compreendi que a escola nunca tinha sido o lugar onde a aprendizagem começava ou terminava.


Ela tinha sido apenas um dos capítulos.

A tese continua.


Continua sempre que encontro alguém que decide ouvir antes de interpretar. Continua sempre que descubro uma nova forma de compreender a experiência humana. Continua sempre que a diferença deixa de ser um problema para passar a ser uma possibilidade de ampliar aquilo que entendemos por humanidade.


Hoje, olhando para trás, não digo que a educação inclusiva foi perfeita. Sería injusto afirmá-lo.

Também não digo que falhou. Seria igualmente insuficiente. Prefiro dizer que foi o lugar onde aprendi uma das ideias mais importantes da minha vida.


A educação não é aquilo que uma instituição faz connosco. É aquilo que, silenciosamente, vamos fazendo de nós próprios através de tudo aquilo que vivemos. E talvez seja por isso que continuo a acreditar na inclusão. Não porque ela esteja concluída. Mas porque, tal como qualquer ser humano, também ela continua a aprender.


 
 
 

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