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O mundo que está para vir

Ashram, na antiga India, era um eremitério hindu onde os sábios viviam em paz e tranquilidade no meio da natureza. Hoje em dia, o mesmo termo Ashram é, habitualmente, empregue para nos referirmos a uma comunidade formada intencionalmente com o objectivo de promover a evolução espiritual dos seus membros. Na antiga India, estes situavam-se longe das habitações, normalmente em florestas ou nas montanhas. Os actuais Ashram vão surgindo em muito lados, normalmente inseridos dentro da comunidade. Em tempos procurei a prática de Ioga e levei-me a perceber um pouco mais da sua filosofia. Sentia que dessa forma a prática que ia aprender ser-me-ia mais fácil. Do pouco que pude me aperceber, até porque ao fim de algum tempo parei, foi que o meu corpo mas também a minha postura face a muitas coisas da vida tinha sofrido algumas alterações e para melhor. Em momentos mais difíceis lembro-me da minha passagem pelo Ioga e pelo Ashram onde o pratiquei. E se há coisa que nos últimos tempos tem estado presente são momentos difíceis. Não que o Ioga e a presença ao Ashram seja A solução. Até porque se formos olhar para a evolução do Ashram ao longo dos tempos, nos seus primórdios, este não servia apenas o propósito do bem estar e crescimento espiritual. Em determinados momentos as pessoas recorriam ao Ashram para a aprendizagem de técnicas de guerra. Mas talvez neste último ano pudéssemos todos beneficiar de procurar alguma serenidade espiritual. A situação causada pelo COVID-19 e a forma como todos nós vamos conseguindo reagir à situação, tem tido um impacto devastador para todos. Mas provavelmente, alguns de nós poderá estar dentro de grupos de risco, sendo que não me estou a referir em relação ao vir a apanhar o vírus. Mas antes em risco de sofrer um ainda maior impacto com toda esta situação. Seja porque os dias ao longo deste ano têm sido pautados de momentos frequentemente inesperados, as actividades, sejam as escolares e profissionais, mas também as rotineiras diárias, tem sido constantemente alteradas, normalmente devido às medidas impostas pelos sucessivos confinamentos. E não esquecer a sensação geral e constante de incerteza. Todos dirão que isso tem afectado a todos. Facto que representa uma grande verdade. Mas a forma como cada um de nós consegue reagir a todas elas e implementar estratégias de enfrentamento, tem um resultado diferente naquilo que é o bem estar psicológico mas também no agravamento do mesmo. E se há questões que já apresentam agravamento é a saúde mental das pessoas autistas, assim como a sua maior fragilidade. Mas os momentos de incerteza e de adversidade não são de agora, e a Humanidade tem procurado aprender com os vários que têm acontecido. Por exemplo, se pensarmos no Mundo após 1945, em que certos países europeus se reergueram literalmente das cinzas e dos destroços e o número de perdas de vida foi igualmente drástico. Podemos pensar que ao fim setenta e cinco anos fomos sendo capazes de lidar com tudo aquilo que sucedeu. Mas também crescemos e procuramos fazer mudanças para que não voltasse a acontecer situações semelhantes, mas também mudanças que pudemos verificar que necessitam de ser realizadas porque a situação de adversidade vivida permitiu que as pessoas se apercebessem delas. E ao longo deste ano de pandemia tem havido várias situações, pelo menos para algumas pessoas que se tem tornado benéficas. E algumas destas situações têm inclusive desafiado algumas das nossas crenças enraizadas em relação às pessoas, nomeadamente aos autistas. Por exemplo, ainda no inicio do texto referi a dificuldade que muitos autistas sentem em lidar com a incerteza e com as mudanças das rotinas. O certo é que ao longo deste ano temos conseguido ouvir várias pessoas autistas, pais, professores e profissionais de saúde a referir que algumas das mudanças se têm tornado positivas a partir de determinado momento. Por exemplo, o facto de não ir à escola e ficar a aprender por videoconferência em casa. É verdade que houve uma reacção inicial e negativa em relação a esta mudança. Mas quando percebido que a mesma não seria possível alterar foi possível aceitar a mesma como um facto. Mas o certo é que muitas crianças, adolescentes e jovens universitários autistas passaram a sentir que o facto de ter de ficar em casa foi melhor para a sua saúde mental e com resultados em menores níveis de ansiedade. Depois de aprenderem a implementar as novas rotinas e perceberem que podiam ficar um pouco mais a dormir e que mais rapidamente poderiam estar preparados para a escola. Além de não terem de sentir muitos dos constrangimentos de alguma da interacção social, foi entre outros exemplos, demonstrativo do quanto positivo as adversidades se tornaram em melhorias da qualidade de vida. Ainda recordo que antes de tudo isto e cada vez que se falava do ensino doméstico e nos estudantes autistas, eram muitas as reservas e apenas em determinados casos a situação era autorizada. Talvez esta experiência deste último ano nos possa ajudar a olhar para toda esta situação de forma diferente e pensar que as situações precisam de ser equacionadas de forma diferente para cada um dos alunos autistas. E usar muitas destas situações agora ocorridas como situações de jurisprudência. E não tem sido apenas no âmbito educativo que se tem assistido a situações semelhantes. No âmbito clinico, em que no inicio da pandemia se verificou uma perda substancial dos acompanhamentos terapêuticos. Ao longo deste ano tem havido um conjunto de descobertas e implementações de novas metodologias desenvolvidas à distância, mas também outras que já existiam e foram aumentadas. E que todas elas têm levado não só a que mais pessoas com necessidades terapêuticas estejam a ter melhores cuidados, mas também se tem verificado que algumas pessoas têm sentido beneficio na forma de estar envolvido nas terapias agora que as realizam à distância, quando antes nem sequer as queriam equacionar. Também tem sido possível verificar que algumas pessoas autistas se têm sentido mais felizes durante este período, nomeadamente pela diminuição significativa da interacção social e imersão sensorial. E faço aqui o sublinhado de que esta observação não serve o propósito de reforçar a ideia que muitos têm de que as pessoas autistas não gostam de interagir. No entanto, a frequência com que muitos a fazem ao longo dos dias é sentido frequentemente como algo bastante difícil. Como tal, é possível verificar que o momento actual tem levado a uma melhoria de alguns indicadores de saúde. E como tal no futuro talvez se possa equacionar que algum afastamento ou uma presença social feita de uma forma mais equilibrada e de acordo com o perfil da pessoa autista possa fazer todo o sentido. Na área profissional é inquestionável o impacto negativo que muitos de nós tem sentido. E no caso das pessoas adultas autistas o impacto sentido tem sido ainda maior. No entanto, com a resposta do teletrabalho, a situação tem-se tornado uma oportunidade para muitas pessoas manterem os seus trabalhos, mas também para outros que estavam com dificuldade em entrar no mercado de trabalho viram nesta modalidade uma saída. E no caso das pessoas autistas esta possibilidade de teletrabalho tem-se verificado como uma mais valia para algumas destas pessoas. No âmbito da saúde pública e na disseminação de informação para a comunidade, também na comunidade autista se tem verificado um conjunto de mais valias. Nomeadamente, antes de tudo isto eram várias as pessoas, familiares e até mesmo profissionais de saúde que se queixavam de falta de informação sobre a Perturbação do Espectro do Autismo e das pessoas autistas. Ao longo deste ano têm sido várias as organizações que têm procurado produzir bastantes materiais para colmatar muitas das necessidades da comunidade autista e isso também tem servido o propósito de ajudar a sensibilizar a Sociedade para o autismo ao longo da vida. Do ponto de vista da intervenção clínica propriamente dita, ao longo destes anos todos têm-se defendido a utilização de terapias validadas cientificamente. No entanto, ao longo deste ano têm sido várias as alterações à técnica em vários modelos de intervenção, nomeadamente na Psicologia. E isso também tem ajudado os próprios terapeutas a deixar alguma da sua postura mais rígida em relação ao modelos. E a comunidade cientifica que se tem procurado ao longo deste anos todos em estudar os modelos de intervenção em ensaios clínicos, têm verificado que este último ano tem sido uma oportunidade fantástica para testar algumas mudanças. Bem como o desenvolvimento de novas metodologias de avaliação à distância e que levaram à adaptações de alguns dos instrumentos clássicos usados. Por exemplo, há uns anos atrás seria impensável em realizar uma avaliação cognitiva e intelectual à distância. Ainda que não o seja possível realizar em Portugal por falta de adaptação dos instrumentos em questão. No entanto, já o é possível em outros países. E que fiquem todos descansados, principalmente aqueles que pensam que agora com tudo isto, as pessoas irão querer não sair de casa para nada. As pessoas, nomeadamente as pessoas autistas, vão continuar a desejar sair de casa, interagir, trabalhar e fazer tudo aquilo que as pessoas fazem. Mas a partir de agora passa a haver mais um conjunto de possibilidades para tornar as respostas mais diversas, assim como a própria diversidade verificada no Espectro do Autismo. O facto de podermos ter verificado aquilo que muitos já sabiam - a escassa resposta dos serviços sociais e de saúde para as pessoas autistas, nomeadamente para os autistas adultos, tem levado a que várias Organizações se estejam a organizar para levar a que possam ser criadas novas medidas que ajudem a poder mudar esta realidade. Até se pensarmos na questão do conceito de normal, a situação de pandemia tem ajudado a reenquadrar. A designação do novo normal, assim como todo um conjunto de situações vividas têm levado as pessoas, autistas e principalmente não autistas, a poderem reequacionar de forma diferente e até mesmo mais tolerante este intervalo do normativo. A reflexão não termina aqui, assim como os exemplos, até porque irão continuar a aumentar. Deveremos todos, autistas e não autistas podermos estar envolvidos em pensar de uma forma mais tolerante para que as oportunidades possam ser olhadas com possibilidade de se tornarem uma realidade e um novo mundo, mais amigável para as pessoas autistas possa ser construído.



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