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O mundo é como uma máquina de lavar

O mundo é um bidé, ouvi há muito tempo. Na altura não percebi. Não me fazia sentido. Primeiro porque não sabia o que era um bidé. Não usava. Depois de saber o que era não percebi como é que a ideia do mundo cabia dentro do bidé. Diziam que tinha a ver com o facto de estarmos a encontrar frequentemente certas pessoas na nossa vida mas em sítios diferentes e por vezes inesperados. Pois, por isso eu nunca havia percebido. Em primeiro lugar porque não estava a encontrar frequentemente certas pessoas. Numa boa parte das vezes nem me lembrava das suas caras. E mesmo que as tivesse a encontrar frequentemente, para mim seria sempre uma novidade. E que no caso das pessoas seria algo neuro, até porque eu não prestava essa atenção às pessoas. Prestava outra atenção e também a outras coisas. E quanto aos sítios inesperados, a maior parte das vezes procuro evitar. E se não o conseguir, sei que hoje consigo tolerar, ainda que com grande esforço. Mas antes nem pensar e acabava por sair do lugar o mais rápido que podia. Na minha opinião eu sempre achei que o mundo haveria de ser uma máquina de lavar. Ainda que eu não soubesse como mexer numa. Mas também não precisava. E nem queria. Ficava apenas a olhar para ela. E o mundo naquele tempo em que a ficava a olhar fazia-me todo o sentido. E a minha vida ainda mais, não apenas o mundo. Isto porque sempre senti que a minha vida sempre foi a andar aos trambolhões. Fosse porque desde cedo que a minha motricidade fina e grossa não me permitiam fazer certas coisas de determinada maneira. Desde o comer ao vestir, e depois mais tarde ao escrever mas também ao jogar a que quer que fosse. E não me viessem pedir para cortar o que fosse com uma tesoura. E sempre que tinha de correr para fazer alguma coisa era sabido que me haveria de desequilibrar, cair ou ir de encontro a algo ou alguém. E infelizmente andei muitas vezes a correr. Até porque a minha capacidade de me organizar nunca foi a melhor. E quando dava conta já estava a meio de algo. Fosse das aulas e dos trabalhos, mas também das conversas. E por isso na escola havia muitas situações em que as coisas ficavam assim um pouco baralhadas e misturadas umas com as outras. Assim como a própria roupa. Era o que eu pensava quando via uma meia enrolada numa manga de uma camisa. Ficava ali a imaginar todo um conjunto de histórias. E como havia muita roupa em casa dos meus pais para lavar, também havia muito tempo para imaginar. E ainda por cima havia as máquinas de roupa branca e de roupa escura. E não há que esquecer a roupa delicada. Ou as fardas da oficina do meu pai que tinham de ser lavadas sozinhas e a 60º para sair as nódoas de óleo. Ou a minha irmã mais velha que a partir de determinada altura passou a exigir que a roupa interior dela fosse lavada em separado. No principio não percebia o porquê, mas uma das vezes vi o que aconteceu a um dos seus soutien que ficou encravado em qualquer coisa e se desfez. Por cada máquina havia uma história diferente. E por isso na minha vida houve muitas máquinas e histórias. Mais difícil era quando faltava a luz e a máquina e a história ficava a meio. Muito da minha vida ficou a meio. Menos a vida em si. Essa continuou a crescer. E foi havendo coisas que pareciam que as pessoas queriam que eu fizesse. Coisas que antes sempre havia alguém para as fazer. E no principio eu não percebia porque tinha de as fazer. Descobri isso da pior maneira quando a velhinha máquina de lavar teve de ser substituída por uma nova. Foi extremamente difícil para mim. Uma parte importante da minha vida estava ali contida naquela máquina. E muitos pareciam não o compreender. Percebo que uma máquina não responda as coisas se lhes perguntarem. Mas bastava que me perguntassem a mim que eu contaria o porquê. Mas não, preferiram assumir que haveria de ser de outra forma. Levaram a máquina num dia em que estava na escola. Lembro-me perfeitamente que quando cheguei fui logo ver como é que ela estava. E não estava. Estava lá o lugar, vazio. E foi então que fiquei lá três dias entre a parede e o frigorifico vertical. O espaço assim já não estava vazio. Estava lá eu. E eu haveria de valer alguma coisa. Não falei com ninguém. Descobri mais tarde quando a minha avó morreu que aquilo que me tinha acontecido com a máquina de lavar tinha sido uma situação de luto. Quando veio a máquina nova não reagi bem. Da mesma forma que já tinha experimentado isso com a minha irmã mais velha quando eu nasci. E hoje em dia dado-nos bem. E assim também foi comigo e esta nova máquina. Houve coisas que tive de aprender de novo. Esta era mais tecnológica. Fazia muita coisa sozinha. E isso também levou a que eu tivesse deixado de ter tanto interesse em ficar ali a olhar para ela. Passei a ter outros interesses. Na altura estava a passar para o 10º ano e tive de escolher o que queria fazer da minha vida. Disse aos meus pais que haveria de querer cuidar de máquinas de lavar. Eles não perceberam e enviaram-me para um curso profissional de Gestão, único na escola onde eu andava. No novo curso voltei a sentir a minha vida tal qual a máquina de lavar. Principalmente aquelas que ficam cheias de espuma quando nós colocamos mais detergente do que era suposto e depois temos de fazer uma outra máquina apenas para a enxaguar e tirar todo o detergente. Em muitas aulas ficava a desenhar. Não que eu soubesse desenhar, mas ficava a desenhar. Desenhava máquinas de lavar a roupa que era o que eu sabia fazer. Um dia a minha professora perguntou-me o que era aquilo que eu ficava a aula inteira a desenhar. Contei-lhe metade da história. Assim como a minha vida. Tinha dado o toque para o intervalo e eu queria sair dali. Mas no dia a seguir e no outro também ela continuou a vir ter comigo e a perguntar-me mais e mais sobre a máquina de lavar roupa. Não percebi qual o interesse dela em tudo aquilo. Mas eu também não tinha de fazer mais nada senão responder-lhe às perguntas. E não havia problema porque havia sempre o toque do intervalo para eu sair. Não precisava de ficar ali o tempo todo. Um dia ela disse que ia chamar os meus pais para falarmos do meu futuro no curso de gestão. Eu disse que sim. Confiava nela. Se ela queria saber da máquina de lavar roupa, haveria de ser alguém de confiança pensava eu. Disse aos meus pais que eu poderia tornar-me empreendedor. No dia a seguir passei a tarde inteira na internet a pesquisar aquela palavra - empreendedor. Li tudo o que podia ler. Ela disse aos meus pais que o meu conhecimento sobre máquinas de lavar podia levar a que eu pudesse montar um negócio próprio de uma lavandaria. E foi assim que me tornei no primeiro empreendedor autista lá do bairro a abrir pela primeira vez uma lavandaria low cost. A inauguração foi um sucesso. Apareceram lá todos da minha escola. Até a minha professora. Por isso é que eu nunca percebi o porquê de dizerem que o mundo é um bidé. É mas é uma máquina de lavar, percebes?, perguntou-me o Raúl (nome fictício).


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