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O meu lugar é aqui

Eu sou um cidadão de direitos, diz Rafael (nome fictício). O meu lugar é aqui, continua. Eu fiz a minha parte para estar aqui presente enquanto candidato ao Ensino Superior, acrescenta.


Não concordo com o facto de ter de dizer aos meus professores ou colegas que sou autista, diz Lurdes (nome fictício). E não estou sequer a falar do regulamento de protecção de dados, menciona. Estou a falar dos meus direitos enquanto cidadã, continua. E além disso não acho que uma parte dos meus professores e colegas tenham capacidade de lidar com essa informação, refere.


Tenho o mesmo direito que todos os meus colegas a estar aqui a estudar nesta Instituição do Ensino Superior, refere Carlos (nome fictício). E de não ter de sentir que tenho de estar a pedir que os professores possam ter um comportamento adaptado ás minhas necessidades de aprendizagem, continua. Ou que os meus colegas não façam um esforço para compreender a minha pessoa, conclui.


Parece-me ridículo que haja pessoas que ainda se questionem sobre a presença de pessoas com deficiência no Ensino Superior, refere Clara (nome fictício). Independentemente das suas características são cidadãos plenos, menciona. E se ainda há muitos exemplos que contrariam essa realidade, os mesmos devem ser denunciados, comenta. Se alguém tem duvidas que se procure esclarecer sobre os Direitos Humanos, diz.


Se os meus colegas acham que eu sou esquisita, deviam olhar para muitos dos seus comportamentos, refere Júlia (nome fictício). Do que se queixam? pergunta. De eu ser uma pessoa rigorosa na forma de trabalhar? continua. De ser ambiciosa e gostar de aprender?, avança. Eles também querem o mesmo, ainda que de outra maneira. Por que é que acham que a minha forma é a única forma estranha? conclui.


Por que é que a Universidade não se adapta? questiona Francisco (nome fictício). O Desenho Universal de Aprendizagem não existe apenas de agora? refere. Por que é que a Universidade após estes anos todos com todos estes alunos diferentes entre si não aprendeu a se adaptar? continua. Afinal de contas de quem é a rigidez? conclui.


Porque não percebem que eu preciso de usar fones com cancelamento de ruido para conseguir ir às aulas? questiona Andreia (nome fictício). As pessoas quando está barulho não se queixam? E não se incomodam? continua. E não procuram dizer para fazerem menos barulho? Então não percebo qual é a questão assim tão complexa com a minha sensorialidade!? menciona. É porque não a percebem? Mas não têm de a perceber, mas sim respeitar, conclui.


Hoje estive no instituto Superior Técnico na Alameda para falar do autismo e de quando as pessoas autistas chegam à universidade. Há umas semanas atrás estive no Instituto Superior Técnico no TagusPark a falar do mesmo. E já estive no ISCTE-IUL e na Universidade de Lisboa ou na Lusíada do Porto, também com o mesmo tema. E independentemente das diferentes instituições, as questões são muito semelhantes.


Os docentes sentem que precisam de saber mais. Mais sobre o autismo e mais sobre outras condições. Mais em como agir em certas e determinadas situações. Principalmente aquelas em que sentem haver maior fragilidade. Seja esta fragilidade dos alunos mas também sua. E também sentem necessidade de como poder adaptar algumas metodologias nas aulas e na relação com estes e outros alunos.


Os técnicos na Universidade também sentem necessidade de saber mais e melhor sobre o autismo. Mais especificamente, saber aquilo que representa a variabilidade da expressão do autismo e não apenas o que consta nos manuais de diagnóstico.


Os pais sentem que precisam de saber mais e melhor em como continuar a seguir este percurso dos seus filhos. Mas de uma forma adaptada e em respeito à sua idade. Ainda que sintam que podem ir à Universidade dizer aos responsáveis académicos em como estes podem melhor adaptar as respostas às necessidades dos seus filhos.


Os alunos autistas sentem necessidade de serem tratados enquanto tal. E sentem igual necessidade de serem envolvidos nas tomadas de decisão acerca das medidas a propor para si e para as pessoas autistas.


Hoje ao ver uma sala com docentes universitários, técnicos, alunos autistas e pais retemperei a minha confiança e vontade em continuar este percurso.


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