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O meu cliente é do espectro, e agora? (II)

A semana passada escrevi o primeiro texto sobre este tema, O meu cliente é do espectro, e agora? (I) - ver aqui. E como tinha referido, implícita e explicitamente, há todo um conjunto de outras questões que necessitam de ser pensadas.


Sinto que uma questão fundamental e que pode trazer um grande desafio para muitos dos colegas psicólogos e psicoterapeutas é a questão da relação terapêutica ou aliança terapêutica. E ainda mais quando se pensa nesta com um cliente com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. E se pensarmos na importância que a relação terapêutica tem para a eficácia da psicoterapia, do processo de mudança do cliente e do alcançar dos objectivos terapêuticos, esta questão ainda se torna mais importante de reflectir.


Mas como é que um psicoterapeuta estabelece uma relação terapêutica viável com uma pessoa cujo perfil de funcionamento passa por uma forma ímpar como compreende as relações sociais e se envolve nestas no seu quotidiano? A questão já não passa somente por saber fazer o diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. Ou de que este diagnóstico não se esgota exclusivamente naquilo que são as características enumeradas na DSM. Ou que há inúmeras outras condições psiquiátricas associadas a este seu diagnóstico! Estamos a falar de como é que nos relacionamos na terapia com uma pessoa autista? E como é que podemos contribuir enquanto psicoterapeutas para o surgimento desta relação terapêutica e de como a mesma poderá crescer e se consolidar para que se torne num instrumento transformador? E quando recebemos pessoas autistas adultas devemos pensar que estas possam ter durante algum tempo sido levadas a inúmeras consultas e que em muitas delas não se tenham sentido acolhidos ou sequer compreendidos na sua natureza. Ou nem sequer tenham percebido o porquê de terem sido levados, ou sequer desejado irem! Já para não falar daqueles que foram igualmente a inúmeras consultas por sua vontade própria e que nunca ninguém lhes disse que podia haver a possibilidade de serem autistas.


Mas então, o que temos quando falamos de relação terapêutica ou aliança terapêutica? Podemos pensar de uma forma bastante simples que se trata da relação que é estabelecida entre o psicoterapeuta e o seu cliente. E que esta relação interpessoal é dinâmica e emerge no contexto de intervenção psicoterapêutica. E que se refere à colaboração entre estas duas pessoas para a mudança do cliente. E será em boa parte esta relação e a forma como esta vai sendo consolidada que irá contribuir para o processo de confiança do cliente nas mudanças que irá operar, sejam elas internas ou externas. Sendo que a relação terapêutica é um factor preponderante para os resultados obtidos na terapia e que se observa este mesmo impacto em diferentes modelos de intervenção. Além do mais, a relação terapêutica não se esgota apenas no estabelecimento da relação per si. E tem ela própria diferentes e diversos aspectos contidos, nomeadamente a aliança terapêutica, ou seja, a concordância existente entre o psicoterapeuta e o cliente em relação aos objectivos a alcançar, tarefas e o sentimento dos laços criados.


Quando penso neste aspecto da relação terapêutica, recordo-me com frequência da questão que colocava inicialmente ao meu supervisor quando estava a fazer o estágio - Como lidar com o silêncio? E curiosamente ele devolvia-me a questão! Ao que me deixava frustrado confesso. Eu queria saber verdadeiramente como lidar com o silêncio do meu cliente. E ele queria ajudar-me a pensar e a sentir no que é que eu sentia dentro de mim com o silêncio que o meu cliente trazia para a sessão. O que é que isso significava para mim? perguntava-me ele. O que é que sentes naquele momento em que a pessoa ficou em silêncio? continuava. E o que pensas que pode significar para o processo psicoterapêutico? continuava. As perguntas eram muitas e contrastavam com o silêncio da minha questão. Foi um caminho que fui precisando de fazer e que ainda hoje continuo. Mas porque é que fui buscar esta questão do silêncio? Porque com frequência é algo que encontramos no processo psicoterapêutico com a pessoa autista. E não, isso não significa necessariamente que a pessoa autista não tenha nada a dizer ou que não esteja a sentir nada.


Posso começar por dizer uma coisa? perguntou-me assim que entrou na sala e se sentou. Respondi-lhe que sim. Sabes, da mesma forma que eu acho que as pessoas não estão preparadas para aceitar a minha verdadeira natureza. Também sinto que os psicólogos não estão preparados para me compreender! disse-o de uma vez só. A frase parecia já ter sido dita em outros momentos, como se tivesse sido ensaiada. Mas senti que toda ela era genuína. Quando partilhei a situação em supervisão e me perguntaram como me senti fiquei alguns minutos sem saber o que responder. Alguém disse - Assustado? Agredido? Não! respondi. Fiquei a pensar no que é que a pessoa já teria vivido em outras consultas por ter dito coisas semelhantes. Mas no caminho para casa não deixei de pensar que alguns, não sei quantos psicólogos e psicoterapeutas, se poderão sentir assustados, agredidos ou outra coisa semelhante quando estas ou outras frases são ditas.


Antes de me dar uma resposta posso dizer-lhe uma coisa que realmente me afecta? perguntou-me. Sim, claro! disse-lhe. Não me diga que sente, sabe ou percebe aquilo que eu estou a sentir! A última vez que um colega seu o disse perguntei-lhe como é que ele o sabia se não estava dentro de mim. Penso que ele não o soube responder! referiu.


Antes de me começar a falar sobre o autismo, deixe-me dizer que eu já li tudo o que tinha para ler sobre o assunto! disse-o ainda eu o estava a convidar para sentar. Tudo o que diz respeito à Teoria da Mente e a outros aspectos teóricos semelhantes já aprendi. Não é para isso que eu cá vim, mas sim para me perceber, compreende? perguntou-me.


Não me diga que me pode ajudar, porque nem sequer eu próprio sei o que quero! disse-me. Muitas vezes a pessoa não sabe o que dizer na consulta. Não porque não tenha nada para dizer, porque o tem. Mas também porque não sabe o que dizer e o que faz sentido dizer, ou o que o psicoterapeuta gostaria que fosse dito. Seja como for, a pessoa autista tem muito a dizer. E é fundamental sermos facilitadores desse falar. E também para isso precisamos de desconstruir algumas ideias que fomos construindo sobre o ser psicoterapeuta. É preciso que a pessoa autista sinta e perceba que aquilo que está a ser dito ou que se espera que ela fale sobre lhe possa fazer sentido. Ou seja, na relação terapêutica, um aspecto importante a ser tido em conta, é o desejo do cliente em partilhar coisas com o psicoterapeuta. Mas isso será diferente consoante a pessoa que temos na consulta. E também isso pode e deve procurar ser compreendido junto da pessoa autista. E podermos ter a capacidade de pensar que este aspecto possa ter configurações diferentes daquelas pessoas que podemos estar habituadas a receber nas consultas. E isso não tem nada de errado, é simplesmente uma forma diferente. Assim como o aspecto da pessoa autista estabelecer uma relação connosco na consulta. Uma relação que tem implícito todo um conjunto de afectos e sentimentos envolvidos e que ainda por cima se devem configurar de uma forma diferente daquelas relações a que as pessoas, todas elas, estão habituadas a desenvolver no quotidiano. E também no definir em conjunto os objectivos terapêuticos, pode e deve ser equacionado que a pessoa autista possa ter uma opinião, por vezes bem diferente, daquela que o psicoterapeuta tem. E por mais que esta observação possa não fazer sentido, chamo a atenção para aquilo que cada vez mais tem sido falado sobre as mudanças comportamentais que são propostas às pessoas autistas fazerem em terapia e que para cada vez mais e mais pessoas autistas não faz sequer sentido, para além de ser sentido como algo agressivo. Posso dar por exemplo os comportamentos de stimming.


E muitas destas e de outras situações poderão ser sentidas pelo psicoterapeuta como uma falta de adesão da pessoa autista ao processo terapêutico e à própria mudança em si. Razão que acaba por levar de forma directa ou indirecta a uma reacção no psicoterapeuta. E que no caso de poder ser mais reactiva e negativa possa ser interpretada pela pessoa autista como uma indisponibilidade na relação. E muito provavelmente a pessoa autista não vai dizer isso na consulta, o que pode levar a que não seja possível de ser trabalhado. E tudo isto irá certamente contaminar a relação e poder levar a uma sensação de ineficácia do processo e levar a um abandono do mesmo, por exemplo.


Uma boa forma de podermos começar por estabelecer uma boa relação terapêutica é saber acerca da vivência interna da pessoa. Muitos psicólogos ao lerem isto poderão pensar que isso é o que se aprende nas aulas de Psicoterapia I. O que não deixa de ser verdade, mas é preciso poder adaptar essa noção à pessoa que temos connosco. E no caso da pessoa autista esta pode necessitar de ser ajudada a compreender o que significa isso da vivência interna. E a explicação não tem ou não deve ser feita de forma académica, mas sim de uma maneira que possa fazer sentido para a própria pessoa.


Mas também não é de descartar a possibilidade de a pessoa autista ter vindo a uma consulta porque alguém lhe disse para ir. Ou seja, a própria pessoa não sente necessidade desse mesmo pedido de consulta. Até porque a forma como sente as suas necessidades, pode não passar necessariamente por esse mesmo pedido. O que não significa que a pessoa não esteja em sofrimento!


Não me lembro de ter empatia emocional em nenhum momento em a minha vida, e eu acreditava que esta seria a minha realidade para sempre! disse. Porquê, porque sou autista! Durante muito tempo, tinha-me esquecido que a minha a vida começou com um trauma porque dormi mal a partir dos meus quatro meses de idade. Ou que necessitei de uma seringa para ser alimentado pelos meus pais durante três anos. Ainda hoje me lembro daquela seringa. Voltei a sentir coisas semelhantes durante a escola com alguns dos meus colegas. Fosse porque me gozavam ou porque eu não os compreendia e eles também não! Sentia-me um fantasma entre os vivos! refere.


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