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O meu cão não é só um cão

Mãe, Pai, posso ter um cão? Quem nunca fez ou ouviu esta pergunta. E quantas vezes não terá ficado a pensar que afinal de contas ter um cão, ou um outro animal de estimação, não é apenas ter. Ou quantas vezes não pensou nos custos e no trabalho associado a ter um animal de estimação? Já foste passear o cão? Mas está a chover! Sim, mas o cão precisa de ir à rua! ou Já mudaste a areia ao gato? Mas também, Ninguém se mexe porque o hamster saiu da gaiola e não sei onde está!, Alguém viu a minha chinchila? ou Ninguém me compreende tão bem como tu! (sendo a pessoa a dirigir-se à sua iguana).


Não quero falar de animais de companhia, assistência ou terapia, no sentido daquilo que tem vindo a ser abordado sobre a utilização de animais em pessoas com deficiência. Mas aconselho a que as pessoas se possam informar mais obre este aspecto (e.g., ver Decreto-Lei 74/2007). Também não quero falar do impacto positivo que os animais de estimação e companhia possam ter na redução do sofrimento e mal estar nas pessoas com comportamentos suicidários, etc. Até porque existem váriso contributos do ponto de vista da validação cientifica sobre o assunto (e.g., ver aqui). Mas então do que é que vos quero falar sobre a relação das pessoas autistas com os animais?


Em criança lembro-me de ter um cão. Era muito criança e como tal não me lembro de muitos pormenores. Era um cão branco. Chamava-se Robi. Porquê este nome, não sei. Não sei sequer se fui eu a dar-lhe este nome. Mas lembro-me que certa vez quando eu e os meus pais saimos de carro em Almada o cão segui-nos até ao Seixal. Como é que conseguiu, não sei. Porventura aquilo que estaria a sentir na altura levou a sentir força suficiente para fazer todo aquele caminho. Depois dele tive outros cães, diferentes na raça, mas semelhantes no comportamento. Eram uma companhia, talvez mais do que isso. Não eram apenas cães. Tal como nós não eramos apenas pessoas.


Quando todos estes anos mais tarde comecei a escutar os meus clientes com diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo a falarem sobre os seus animais de estimação e da relação com eles. Ou de como se sentem em relação aos animais, mesmo aqueles que não têm ou tiveram animais de estimação. Sinto que os consegui compreender facilmente. Porquê? Talvez por ter sido criado sempre junto a animais, sejam os de estimação mas também outros. E de uma forma ou de outra, os animais sempre tiveram uma função e um papel na família. E não considero que nada disto que partilho com vocês relativamente ao meu sentir seja excepcional. Até porque em criança falava com os meus amigos e colegas e havia muito um sentimento semelhante, assim como vivências muito próximas.


E como tal, cresci a aprender que os animais não eram apenas animais, e que sentiam várias coisas. Mesmo que nós não as compreendessemos ou sobessemos explicar. E por isso podiamos perfeitamente falar com o nosso cão ou gato, por vezes até ralhar ou desabafar quando necessário. E quando o faziamos e de seguida ele se aproximava de nós e fazia uma festa ou nos dava uma lambidela na mão, sentiamos que ele estava a compreender o que lhe tinhamos dito. E como nem sempre algumas pessoas conseguiam fazer isso, não é por acaso que muito ouviram aquela frase, Quanto mais conheço as pessoas, mais gosto de animais!, certo? Muito daquilo que as pessoas poderão querer estar a dizer é que os animais não terão determinado conjunto de comportamentos semelhantes ao das pessoas. Comportamentos estes que algumas pessoas sentem como lesivos. Por exemplo, sentirem e experimentarem a critica de forma negativa, humilhação, incompreensão, etc. da parte de certas pessoas. E a forma como esses momentos foram vivenciados foi sentido como traumático (no sentido clinico do termo), e desenvolveu um enviesamento sobre a percepção que as pessoas passaram a ter sobre a Sociedade de uma forma generalizada. E que por conseguinte justifica para estas pessoas que apenas os animais são capazes de serem justos, amigos e tudo o mais que representa aquilo que as pessoas sentem que os magoa e que vai contra os seus valores.


Muitas pessoas autistas referem uma forte ligação aos animais, e alguns estudos sugerem que podem mesmo mostrar uma tendência para preferir os animais às pessoas. Contudo, esta preferência não se fica exclusivamente nos animais. As pessoas vêem frequentemente o humano no não-humano, um processo chamado antropomorfismo. O antropomorfismo é particularmente prolífico no que respeita à humanização dos animais de estimação. Para muitos, o antropomorfismo é talvez mais relevante no contexto em que é mais comum: nas nossas relações com os nossos animais de estimação. E de facto, a investigação sugere que a maioria dos donos considera os seus animais de estimação como membros de pleno direito da família com "estatuto estatuto de pessoas", e podem depender deles para apoio social, por vezes mais do que os seus familiares humanos.


E esta ideia não é algo que ocorre apenas em determinado momento da nossa vida, mas sim é algo que vai ocorrendo ao longo do nosso desenvolvimento e deste sempre. Podemos estar preparados para o fazer desde o início do nosso desenvolvimento, quando as crianças são encorajadas a ver os animais como sujeitos sociais em desenhos animados e histórias. E não será por acaso que os animais falantes proporcionam escapismo, variedade e uma ligação social a uma criatura que, de outro modo, seria estranha.


Do mesmo modo, a posse de animais de estimação nunca teria evoluído se não tivéssemos acolhido os animais nas nossas esferas sociais. Um mundo sem animais de estimação é, para muitos, inimaginável, e talvez por uma boa razão. A investigação sugere que a posse de animais de estimação está relacionada com o desenvolvimento da empatia na infância e traz benefícios para a saúde mental análogos aos que seriam de esperar se o objetivo último de um animal de estimação é proporcionar um apoio social estável e amoroso.


Como os animais de estimação podem sincronizar-se socialmente com as de forma semelhante à empatia humana, talvez não seja surpreendente que os donos de animais de estimação, por sua vez, usem as mesmas heurísticas para compreender as emoções do seu animal de estimação, tal como fazem com as suas emoções. Assim, as pessoas que possuem animais de estimação vêem-nos de forma humana e utilizam as relações com os animais de estimação como uma forma de apoio social.


Se a forma como algumas pessoas autistas vêem, sentem, perceionam os animais é mais intensa, e por vezes atipica. Também me parece poder sair de toda uma normatividade, que na grande parte das vezes é nossa (não autistas) e poder procurar escutar aquilo que dizem e sentem sobre os animais, os seus e todos os outros. Ao invés de ficarmos somente chocados com a frase Eu gosto mais de animais do que das pessoas!



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