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O autista que já quis ser paisagista

Leonel (nome fictício) licenciou-se em Arquitectura. O curso demorou mais do que era suposto. Foi mais ou menos como a situação das obras públicas em Portugal, diz Leonel em jeito de piada mas sem esboçar um sorriso. Houve muitos percalços no caminho e nem sempre tive a melhor ajuda ou orientação, continua. Apesar de ter sido diagnosticado com Perturbação do Espectro do Autismo aos 15 anos, na altura que entrei na Universidade não quis que ninguém soubesse da minha condição, acrescenta. A minha vida foi muito difícil até aos 15 anos, principalmente porque nem eu próprio me compreendia, refere. Mas depois do diagnóstico não passou a ser melhor, acrescenta. Até os próprios professores na Escola Secundária achavam que eu era preguiçoso e caprichoso e que queria tudo à minha maneira, refere. Descobri no 11º ano que os meus colegas souberam da minha condição por um dos professores e isso descredibilizou completamente aquilo que aceitei ao ser integrado na Educação Inclusiva. E por tudo isso prometi a mim mesmo que a Universidade haveria de ser diferente, diz. Ainda que tenha sido um período igualmente difícil. A relação com os colegas não foi melhor e os trabalhos de grupo continuaram a ser igualmente penosos. E com os professores talvez possa ter sido ainda pior do que alguma vez fora. Senti-me completamente perdido, refere. Apesar de tudo isto acabei o meu curso, ainda que nunca tenha conseguido exercer Arquitectura. Cheguei a fazer um estágio, mas nada mais do que isso, diz. Mas sempre mantive o meu gosto pela cozinha e principalmente a padaria. O meu avô tinha sido padeiro e o meu pai ainda hoje o é, partilha. E como tal sempre fui aprendendo e praticando novos técnicas para melhorar o meu produto. E na família toda a gente sempre adorou as minhas coisas. Certa vez pediram que eu fizesse uma determinada quantidade de bolachas para os Escuteiros locais. Eu entrei em pânico na altura, mas os meus pais ajudaram-me no processo. No dia a seguir todos nos Escuteiros comentavam as minhas bolachas e perguntavam onde é que as tinham arranjado. Eu não queria acreditar numa coisa daquelas. E foi então que me falaram da possibilidade de eu criar o meu próprio negócio. Os meus pais ficaram assustados, até porque sempre trabalharam por conta de outrem. Mas eu senti que queria agarrar aquele desafio, e por isso fui procurar informação, conta.


Empreendedorismo até rima com autismo, mas aquilo que o Leonel descobriu é de que há um conjunto infindável de entraves, até na criação do próprio emprego para as pessoas autistas. O desconhecimento e o descrédito que têm em relação às pessoas autistas chega também a este sector.


Há cerca de 50 anos, empreendedorismo era quase uma palavra temida entre muitos profissionais. Parecia haver uma divisão entre aqueles que se preocupavam mais com estilos de vida confortáveis ​​/ ganhar dinheiro e aqueles que se preocupavam mais com o meio ambiente, tomada de decisões pessoais e a situação daqueles que considerávamos menos afortunados do que nós. Infelizmente, algumas das ações sistémicas tomadas para abordar as questões ambientais, tomada de decisão pessoal e a situação daqueles que consideramos menos afortunados do que nós levaram à pobreza institucionalizada de muitos, incluindo as pessoas com deficiência.


As estimativas actuais indicam que quase 80% dos adultos autistas em idade activa estão desempregados ou em situações de sub-emprego. Situações que os adultos neurotipicos tomam frequentemente como garantidas — tais como preencher uma aplicação, retomar o rastreio, passar por uma entrevista de emprego, embarcar para uma posição, e ajustar-se a ambientes de trabalho em mudança — colocam barreiras significativas para os adultos autistas. Portanto, a questão é: como é que estes adultos conseguem um emprego sustentável? A resposta? Podem começar os seus próprios negócios.


No entanto, as pessoas autistas podem ser membros activos e produtivos da sociedade, desde que recebam o apoio adequado, a compreensão e as oportunidades de que precisam. De facto, diversos eventos, debates e campanhas já foram organizados com o objetivo de promover o respeito aos direitos dos autistas e a igualdade de oportunidades no ambiente de trabalho. No entanto, apenas 12% dos adultos autistas que precisam de apoio para emprego, realmente o recebem. Apesar desses números desfavoráveis, muitas ideias de empreendedorismo social foram implementadas para tornar o mercado de trabalho um lugar mais acolhedor para pessoas autistas.


Precisamos de quebrar muitas barreiras. Mas podemos pensar que estas existem porque foram lá colocadas ou construídas. E como tal também podem ser removidas. O empreendedorismo não será a receita milagrosa para a resolução do problema do emprego nas pessoas autistas. Nem o será para ninguém, na verdade. Mas será um passo importante no sentido de devolver às pessoas autistas a real possibilidade de serem eles próprios a construir o seu próprio projecto e realizarem-no. Até porque se sabemos que há um conjunto de necessidades que as pessoas autistas necessitam que sejam tidas em conta na adaptação nos locais de trabalho. Quem melhor do que a própria pessoa autista para saber o que precisa de fazer para que o seu projecto vá ao encontro das suas necessidades? E não fiquem com a ideia de que temos de inventar a roda. Os próprios gabinetes de apoio ao empreendedor podem perfeitamente ser usados para que as pessoas autistas usufruam deles. Ainda que falte todo um caminho para que isso possa acontecer com mais frequência. Até lá procure pelas bolachas do Leonel.


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