O Autismo ainda esquecido

Domingo dia 8 celebra-se o Dia Internacional da Mulher. Se é importante, por todas as razões conhecidas, continuar a reconhecer o papel e a importância da mulher. Mas também as suas dificuldades num acesso igual aquilo que são os seus direitos inalienáveis - educação, justiça, educação, etc. Ainda mais se torna importante o reconhecimento merecido da mulher no Espectro do Autismo. Tal como as mulheres neurotipicas, também aqui têm sido relegadas para uma segundo plano. E sempre com um impacto marcadamente negativo para si, para a sua família e Sociedade. Na Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) temos meninas, raparigas, jovens, mulheres adultas, mães, educadoras, profissionais que lutam ao longo destes quase 80 anos da existência do Autismo para verem ser feita justiça em relação aos seus direitos.

Se é sabido e repetidamente referido que o primeiro paciente, de nome Donald Tripplet, diagnosticado com Autismo ocorreu em 1938. Diagnóstico esse feito por Leo Kanner. Já há menos pessoas a saberem que quase duas décadas antes, a mulher Grunya Sukhareva fazia a caracterização do Autismo. Antes de Leo Kanner e de Hans Asperger.


Estávamos em 1924, e Grunya recebia um rapaz de 12 anos que tinha sido levado à clínica de Moscovo para uma avaliação. Ele era descrito como sendo diferente de seus colegas. A outras pessoas não lhe interessavam muito, e ele preferia a companhia de adultos à de crianças da sua idade. Ele nunca brincava com brinquedos: aprendeu a ler aos 5 anos e passava os dias a ler tudo o que podia. E magro e desleixado, o tinha uma marcha lenta e desajeitada. Sofria de ansiedade e dores de estômago frequentes. Certamente muitas das queixas são facilmente identificadas como sendo iguais às descritas por Kanner e Asperger e por tantos outros Neuropediatras, Pedopsiquiatras e Psicólogos ao longo destes 80 anos.


Para além deste apontamento histórico é fundamental falar e continuar a falar sobre a mulher no Espectro do Autismo. Seja acerca da sua importância do seu papel, enquanto cidadã, mãe e cuidadora. Mas também enquanto menina, rapariga, jovem e mulher que continua a não ver justamente reconhecido o seu acesso ao diagnóstico e não só. Mais profundamente enraizado há o facto de que os próprios critérios de diagnóstico do Autismo ao longo das várias revisões da DSM e ICD foram colocando mais à parte aquilo que é sabido como sendo o fenótipo mais alargado e que é expresso no feminino. As mulheres apresentam um conjunto de características diferentes ao nível qualitativo comparativamente aos homens no Espectro do Autismo. E para além disso as mulheres apresentam uma maior competência ao nível social, designado normalmente como camuflagem social. Ou seja, a capacidade de conseguir aprender um guião social que lhe permita estar mais integrada socialmente. Mas não sem que isto tenha um impacto extremamente negativo para o seu bem estar psicológico.


São muitas as raparigas que desde cedo devido à apresentação das suas características vêm negado a possibilidade de serem diagnosticadas e reconhecidas como pessoas que precisam de ser compreendidas e ajudas a se compreender e compreenderem o Mundo. São muitas as raparigas que sofrem em silêncio desde cedo logo na entrada do 1º ciclo e até antes. E porquê? Porque as suas características comportamentais não são iguais às descritas na DSM 5 para a Perturbação do Espectro do Autismo. E quando se começa a investigar um pouco o porquê de toda esta situação descobrimos que a grande maioria dos estudos de investigação cientifica feitos ao longo destes 80 anos no campo do Autismo, as amostras usadas são de participantes do sexo masculino, rapazes e homens do Espectro do Autismo. E como tal as próprias características e critérios de diagnóstico existentes na DSM e ICD são principalmente apegados aos rapazes e não às raparigas. Como tal se as raparigas fazem contacto ocular e se manifestam vontade em ter relações sociais - Não podem ser do Espectro do Autismo!


Os instrumentos de avaliação usados para realizar a avaliação no Espectro do Autismo sofrem eles próprios de um enviesamento. Tendo em conta que também eles são construídos com base nas mesmas investigações cientificas realizadas principalmente com participantes do sexo masculino. Principalmente no Espectro do Autismo mais funcional é onde estes instrumentos parecem ser menos fiáveis na detecção destes casos. Adicionalmente e não menos importante temos a formação dos próprios profissionais de saúde. Os conteúdos programáticos nas Universidades que leccionam os cursos de Medicina e Psicologia continuam em muito a perpetuar este conhecimento de que há uma maior percentagem de casos de Espectro do Autismo no sexo masculino (3-4:1) comparativamente às mulheres. E de que as características são “somente” as que são apresentadas nos manuais de diagnóstico. Levando a que um conjunto de profissionais de saúde continue a não sinalizar e referenciar situações possíveis de Espectro do Autismo.


Na Perturbação do Espectro do Autismo uma outra questão que leva a que haja uma maior dificuldade na detecção destes casos é a existência de outras perturbações psiquiátricas associadas ao Espectro do Autismo. Também aqui é fundamental sensibilizar os profissionais de saúde e melhorar os instrumentos de avaliação para o diagnóstico diferencial.


Continua a ser ainda nos dias de hoje mais fácil de ser diagnosticado com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) se for criança e do sexo masculino. Não é apenas uma questão de falta de informação ou de desinformação. As raparigas continuam a ser vistas como alguém que normalmente é mais sossegada ou arrumadinha. E como tal isso acaba por levar em várias situações no Espectro do Autismo a que muitas raparigas sejam negligenciadas em determinadas características. Da mesma maneira se considera que uma mulher seja mais propensa a ser volátil no seu humor e como tal muitas mulheres no Espectro do Autismo continuam a não ser consideradas pois é normal pensar-se que as mulheres mais frequentemente têm estas reações emocionais.

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