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O amor é um jogo sério

Este domingo, dia 14 de fevereiro, celebramos o dia de São Valentim. O Carlos (nome fictício) que está na fotografia, apesar de estar a sorrir, na verdade está um pouco nervoso e preocupado. A sua encomenda para a Luisa (nome fictício), que está na fotografia a jogar Super Mario Bros consigo, ainda não chegou! Carlos conheceu a Luísa no clube de matemática na Faculdade. Ele quer desenvolver um modelo económico que possa revolucionar a economia global. Ela ficou estranhamente encantada com a determinação do Carlos. Até porque Luísa é igualmente determinada em muito das suas coisas na vida, mesmo aquelas coisas mais pequenas e sem interesse para a grande maioria das pessoas. Carlos tem um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. Foi diagnosticado aos seis quase a completar os sete anos. Fez alguns anos de Terapia da Fala. Também fez consultas de psicologia, mas até aos 14 anos parecia não perceber muito bem a necessidade disso. Depois quis parar. Há dois anos voltou a pedir para voltar às consultas. Haviam algumas coisas que o estavam a intrigar. São coisas cá de dentro, diz Carlos! Sensações, misturadas com pensamos, sendo que por vezes não sei o que são uns ou outros, além de alguns deles nem saber que nome lhes dar, conclui! Ultimamente tem falado na terapia de uma rapariga. Aparentemente de nome Luisa. Carlos acredita que as pessoas no Espectro do Autismo sentem vontade de ter relações, sejam sociais ou intimas. Já não é a primeira vez que sente essa vontade, ou urgência, como Carlos lhe costuma chamar. Carlos pertence a uma geração diferente. Uma geração em que as questões da sexualidade são mais facilmente abordadas entre si. Mas também a uma geração de pessoas autistas que procura compreender a sua condição para além daquilo que são os critérios de diagnóstico. Mas os pais do Carlos por exemplo já pensam e sentem as coisas de uma forma diferente. Talvez mais preocupados e com ansiedade. O Carlos percebe isso e tenta compreender esse facto. Os pais do Carlos também já leram alguns outros livros, estudos, testemunhos de pessoas autistas e de outros acerca de algumas das dificuldades encontradas no campo da sexualidade. O certo é que, para muitas pessoas, formar ligações românticas e envolver-se em relacionamentos íntimos é uma parte fundamental da sua jornada à medida que passam pela adolescência e daqui para a idade adulta. E isto é assim para a grande maioria de nós, seja dentro ou fora do Espectro do Autismo. Não percebo como é que as pessoas podem pensar que as pessoas autistas não amam, desabafa Carlos! Porque não fazemos ou dizemos determinado conjunto de coisas que possam considerar normativo numa relação amorosa ou numa situação típica de aproximação amorosa?, questiona de forma retórica. Nestas situações aquilo que sinto é que as pessoas não fazem o mínimo esforço para procurar compreender a situação dos outros!, concluiu. Pergunto-me se eles fazem sempre as coisas certas ou adequadas?, questiona-se, sorrindo. Os relacionamentos interpessoais são um aspecto importante da qualidade de vida e isso não é diferente para as pessoas autistas. E uma interação social importante para o bem estar geral inclui o namoro e relacionamentos românticos com outras pessoas. Durante algum tempo Carlos parecia não pensar nisso. Digo parecia porque o que o Carlos refere é que tinha outras coisas que gostava de pensar primeiro, mas que havia coisas que sentia que podiam estar à acontecer, ainda que não soubesse o que era. Mas isso não quer dizer que eu não pensasse nisso, refere! A determinada altura quis saber mais coisas e perguntei aos meus pais, acrescenta! Mas a resposta não foi aquela que eu esperava. Senti que eles ficaram mais aflitos do que eu próprio estava, concluiu! Eu perguntei de forma muito directa, tal como é habitual em mim. A minha mãe ficou corada. O meu pai riu-se. Não percebi uma ou outra reacção. Zanguei-me, como habitualmente acontece nestas situações em que não percebo as coisas, refere! Já uma vez me tinha zangado com os meus pais quando eles pensaram que eu podia ser homossexual. Diziam que eu andava sempre com os mesmos dois rapazes e que não queria saber ou sequer me aproximar das raparigas. Mais tarde fiquei a saber que tinha sido algo que eles tinham lido num sitio qualquer de que era algo que podia acontecer nas pessoas autistas, diz em jeito de reflexão. Fui procurar o que queria dizer homossexual. Escrevi a palavra no google. Fiquei sem saber o porquê dos meus pais pensarem aquilo! Um daqueles dois rapazes com quem costumavam andar às vezes uma vez tentou-me ensinar umas coisas. Disse-me que não podia ser tão brusco e bruto a dizer as coisas. Que assim assustava as miúdas! Não percebi aquele conceito de assustar. Até porque elas não pareciam assustadas. Mas o certo é que não se pareciam querer aproximar de mim. Mas até certo ponto eu também não o queria! Mas eu tinha aprendido que quando alguém me tentava ensinar alguma coisa eu deveria fazer por aprender. E o certo é que o rapaz continuou a ensinar-me todo um conjunto de coisas. Na altura ele chamava-lhe bater o coro! A minha expressão deve ter dito tudo e ele lá me explicou o que aquilo queria significar. Nessas e noutras situações fui aprendendo que esta coisa do amor era um jogo sério! O rapaz que me explicou as coisas penso que o fez melhor do que ninguém, e principalmente porque porque nunca olhou para mim como alguém do Espectro do Autismo. Tal como ele dizia com frequência - és um lobo solitário, e isso não tem nada de mal. Carlos, refere que muitas das vezes foi tendo várias dificuldades em compreender muitas das coisas dentro da sexualidade e das relações. Mas tal como o Carlos costuma dizer - Uma boa parte dos meus colegas na escola tinha dificuldades a este nível. Mesmo quando eu não participava nas conversas ouvia aquilo que eles diziam. E ainda que não as percebesse na totalidade, percebia que eles estavam com dúvidas. Carlos diz sentir-se bem na presença de Luisa. Que em certas situações lhe faz lembrar o rapaz na escola que lhe explicava as coisas. E que também nessa situação se sentia tranquilo. Provavelmente, a Luisa aceita-me assim como sou. Ela não me perguntou o que é que eu tenho ou deixo de ter, ou porque faço estas ou aquelas coisas. E eu faço o mesmo com ela. As coisas parecem ser boas assim. Eu sinto-me bem. E ela também. Como é que eu sei? Noto que ela sorri quando está perto de mim, e isso é uma coisa boa. Na verdade, sinto que a Luisa é a primeira pessoa que está há 78 horas comigo, contado todos os minutos que já passamos juntos desde o mês passado, e ainda não perguntou o que quer que fosse acerca do meu comportamento. Acredito que venha a acontecer. Também acredito que eu lhe venha a perguntar algumas coisas dela. Para já, sinto-me bem. Talvez seja isso que as pessoas dizem sobre o estar apaixonado. E têm razão quando me diziam que é uma coisa boa, concluiu Carlos enquanto procura recuperar a desvantagem que Luisa já lhe leva na quarta série de jogos.


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