O último domador de leões

"Senhoras e senhores, meninos e meninas, temos a honra de apresentar o mais emocionante, arrepiante, estonteante, o maior do mundo...". Lembro-me de ouvir esta frase e ficar pregado ao banco de emoção. O domador de leões entrava, imponente, sem que ninguém lhe visse um estremecer de receio ou hesitar perante o rei da selva, o leão. Recordo-me de sonhar nesse mesmo dia que também eu conseguia estar ali dentro daquela jaula mais o imponente leão e o grupo das leoas. E até de andar a galope em cima do leão segurando-lhe a sua juba. Tudo parecia possível no sonho. Penso que todos nós, de uma forma ou de outra também pensávamos como é que ele conseguiria domar aqueles ferozes animais ou outras curiosidades próprias da idade. Uns anos mais tarde ouvi uma história de um jovem que foi atacado no Zoo por um destes animais. Quando procurei saber mais detalhes descobri que ele queria saber se o leão tinha cócegas. Isso mesmo, se o leão tinha cócegas. Afinal de contas, eu tenho cócegas. E conheço muitas outras pessoas também com cócegas. E até há gatos e cães que parecem ter cócegas. Pelo menos quando lhes fazemos eles parecem reagir como se estivessem a sentir. Mas realmente leões nunca tinha ouvido falar. Mas este jovem tinha essa curiosidade. E como ninguém lhe respondeu, ele próprio decidiu descobrir por si próprio. Saltou a vedação e quando se aproximou da jaula para lhe fazer cócegas, o leão acordou com o seu toque e de um só golpe arrancou-lhe um dedo. Felizmente foi possível voltar a coser o dedo, mas os pais do jovem não "ganharam" para o susto", como se costuma dizer. E eles já tinham apanhado uns quantos sustos. O seu filho, agora com 26 anos tem um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo e Esquizofrenia. Na altura do episódio do Zoo tinha 18. Os pais perguntam-se frequentemente o que vai ser do seu filho no futuro, e principalmente quando eles morrerem, ou já não tiverem capacidade para cuidar do filho. O filho não parece ter essa preocupação. Pelo menos não a partilha.

Alexandre (nome fictício) tem agora 26 anos. É filho único. Os seus pais perceberam desde cedo que alguma coisa não estava bem com o seu filho. Olhavam para os outros bebés, nomeadamente na família e percebiam que o Alexandre não era em nada igual. Ficava muito tempo parado, mais do que era suposto, e com momentos de grande alheamento, mesmo com estimulação. E depois alternava com momentos de maior irrequietação sem que ninguém o compreendesse ou conseguisse acalmar. Foi assim durante muito tempo, dia e noites seguidas. Havia um ou outro brinquedo que o parecia deter durante algum tempo. Alexandre manipulava o brinquedo durante tempo a fio, sem que parecesse haver intenção de brincar com ele. E depois desse seu tempo, largava-o e nunca mais volta a mexer nele, mesmo que os pais o procurassem aproximar. Ele não fazia birra, nem o afastava. Simplesmente não lhe dava atenção, era como se ele não estivesse ali. Aos três anos de idade os pais decidiram leva-lo a uma consulta de Neuropediatria. Após várias insistências com o Pediatra do filho, sentiram que tinham de procurar outra resposta que os ajudasse a compreender o que se passava com o seu filho.


Aos três anos apesar de andar autonomamente desde os dois anos, a sua linguagem alternava entre uma discurso inteligível e uma enorme incongruência de palavras que pareciam ser inventadas, mesmo depois de ele já ter aprendido algumas delas. As diferenças comparado com as outras crianças pareciam crescer exponencialmente. E muitas das suas dúvidas ficaram esclarecidas quando ouviram do Neuropediatra que o Alexandre tinha Autismo. E digo muitas das suas dúvidas, porque algumas outras continuaram durante mais algum tempo sem resposta. Principalmente alguns dos comportamentos mais estranhos e outras mais preocupantes. Até aos 16 anos do Alexandre, a vida dos seus pais foi dividida entre essas duas palavras, estranho e preocupante. Nessa altura, levaram o Alexandre a um Psiquiatra que lhe referiu que muitas daquelas inquietações seria devido a uma Esquizofrenia. Os pais perguntaram se seria Esquizofrenia ao invés de Autismo. Ao que o Psiquiatra lhes respondeu que não. O Alexandre tinha ambos os diagnósticos. Os pais foram aprendendo a lidar com o Alexandre e principalmente a compreende-lo. Leram, leram muito, assistiram a conferências e a grupos de pais. Não houve nada que não fizessem. Mas continuavam a ter as dificuldades habituais de muitos outros não compreenderem o Alexandre.


As Escolas por onde o Alexandre foi passando, nem todas as pessoas tinham sensibilidade para lidar com o Alexandre. Era preciso ajudar os professores a perceber quem era o Alexandre. E nem todos pareciam dispostos a aprender, enquanto outros sim, mas alguns mostravam mesmo alguma arrogância, como se os pais não pudessem ajudar os professores a aprender coisas sobre os seus filhos. Ouviram muitas vezes - "Nós somos professores de Educação Especial e profissionais de saúde, sabemos perfeitamente como lidar com crianças como o Alexandre.". Os pais foram ouvindo menos vezes, até porque quando ouviam esta ou frase semelhante sentiam que as coisas não podiam correr bem. E muito provavelmente em algumas dessas situações estariam certos.


Ao longo destes 26 anos, foram muitas as perdas que os seus pais foram tendo, algumas pessoais, mas também algumas materiais. O dinheiro das consultas e de todas as intervenções que foram sendo necessárias fazer com o Alexandre. As vezes em que um dos pais se teve de deslocar a essas mesmas consultas e nem sempre os responsáveis onde trabalhavam conseguiam compreender. E outros que compreendia diziam que ainda assim a situação não podia continuar. Mas a vida do Alexandre continuava e precisava de apoio mais ou menos constante. Foram várias as situações em que não viram os seus contratos validados. E se durante alguns anos o Alexandre foi tendo apoios por parte do Estado, apesar de nem sempre serem suficientes para lidar com todas aquelas situações, iam possibilitando passar aquelas situações de uma forma mais apoiada. Mas os apoios não passam apenas pela pensão atribuída. E a partir de determinada altura os maiores apoios são legislativos e que permitem que continue a haver situações apoiadas, nomeadamente na integração sócio-profissional, mas também no acesso à habitação.


O Alexandre neste momento está a fazer um curso a nível superior. E quando terminar gostaria de vir a trabalhar nessa área. O apoio necessário continua a ser muito, mas o Alexandre continua muito colaborante neste processo. Os pais sentem que a partir do momento em que atingiu a maioridade o Alexandre os apoios e principalmente os serviços a que tem a possibilidade de aceder são cada vez menos. Até porque dentro dos poucos serviços existentes, são muitos aqueles que determinam o QI como ponto de corte. Ou seja, as pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo e que tenham associado um Deficit Cognitivo parecem ter maior facilidade em ter estes serviços e uma maior diversidade. O que é uma coisa positiva. Mas o Alexandre não é caso único e existem muitos outros iguais a si. E situações que podiam ter um desenvolvimento diferente acabam por ter um desfecho semelhante a alguns outros com necessidade de institucionalização, quando neste caso do Alexandre a situação poderia ser perfeitamente ultrapassada. Até os próprios pais que sempre tiveram receios e preocupações em relação ao seu filho sentem que ele beneficiaria em muito de poder estar numa residência assistida com outras pessoas da sua idade.


Ao longo destes últimos anos os domadores de leões e a própria utilização de animais no circo foi caindo em desuso. Mas a imaginação das crianças e jovens não deixou de continuar. E toda esta imaginação chega a um ponto do desenvolvimento em que deseja subir um patamar para ter a possibilidade de ver na prática aquilo que todos nós desejamos, uma vida de adulto. E o Alexandre e outros jovens tal como ele com esta mesma condição e outras, não obstante algumas das suas dificuldades sentem vontade em poder ter uma vida mais autónoma e independente. Tal como o Alexandre diz, "Ainda bem que deixou de haver jaulas para os leões, eles não pareciam felizes com aquela solução!".

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