Não voltar a escrever nas mãos! Não voltar a escrever nas mãos! Não voltar a escrever nas mãos!

Uma mão lava a outra e as duas lavam o rosto! Parece um pouco aquilo que se passa entre a Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC) e a Perturbação do Espectro do Autismo (PEA).

De cada vez que o António ficava ansioso com uma situação engolia a seco, uma, duas, três, quatro vezes antes de entrar no quarto ou então engolir a seco com um pé no ar e contar até quatro antes de voltar a colocar o pé no chão. O António já conhece estas rotinas e de quando elas ficam mais intensas. Enquanto adulto sente que tem de lavar as mãos, uma, duas, três, quatro vezes para não ficar contaminado com germes. Não era apenas estes rituais que eram conhecidos do António. A sua depressão também e a forma como a mesma o fazia sentir mais e mais afastado da família e amigos.


A cera altura da vida do António a sua situação clinica piorou e foi encaminhado para uma consulta de psicologia. Pela primeira vez na vida perguntaram-lhe se já tinha ouvido falar em Autismo. E de repente o António que já se tinha habituado às rotinas e aos rituais e à sua POC ficou sem saber como responder. Autismo!? Perguntou ele, uma, duas, três, quatro vezes.


O certo é que o António já tinha ouvido falar sobre isso (Autismo). Principalmente associado à sua dificuldade face às situações sociais. Não que o António não as tivesse. Tinha poucas mas tinha. Mas mais porque o António não as desejava ou deseja ter. Não faz grande questão! As dúvidas no António amontoavam-se. E com isso a sua ansiedade e a depressão também. E com isso os seus rituais. POC? E PEA? Como é possível? Uma, duas, três e quatro vezes. E a resposta ainda demorou um pouco a chegar.


A pequena história do António é a de alguns antónios e antónias do Espectro do Autismo. As pessoas com PEA apresentam uma prevalência de 80% para Ansiedade. E cerca de 17% das pessoas com PEA apresentam probabilidade de terem POC igualmente. E ao que parece pode existir uma maior percentagem de pessoas com POC sem diagnóstico de PEA. São muitos os circuitos neuronais partilhados entre estas perturbações. Alguns dos seus critérios de diagnóstico - comportamentos repetitivos na PEA pode mascarar alguns dos sinais de POC e alguma da rigidez e inflexibilidade comportamental e cognitiva desta última pode mascarar sinais de PEA.


A sobreposição entre ambas as condições - POC e PEA ainda não é totalmente compreendida. E são mais as questões que as certezas. Por exemplo, parece que a hipersensibilidade no autismo parece potenciar os rituais pela via de potenciar a ansiedade. Como tal será importante na prática clinica poder compreender de forma mais capaz estes comportamentos que nos parecem passiveis de ser compreendidos à luz da POC mas também da PEA. No entanto, a fraca capacidade de insight de algumas pessoas com PEA relativamente a estes comportamentos pode dificultar no acesso à informação necessária para os compreender melhor.


O prognóstico da situação clinica é mais grave se tivermos as duas situações POC e PEA em simultâneo. O processo de avaliação precisa de ser diferente e mais pormenorizado. Mas a intervenção ao nível psicológico e farmacológico também. Uma, duas, três e quatro vezes.

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