Não vires as costas a ti próprio

Desde cedo que gosto de correr. Penso que é algo que muitas crianças gostam de fazer. Correr atrás uns dos outros, fazer corridas e competições, ou simplesmente correr. Tive o privilégio de ter conhecido outros corredores e professores que impulsionaram o meu gosto pela corrida e que depois passou pelo atletismo. Ainda participei em corta-mato ao lado da Carla Sacramento, ainda nenhum de nós sabia que ela haveria de ser uma excelente atleta, ainda que naquela altura já me ganhasse com grande distância. Correr não foi apenas um desporto. Foi uma escolha de e na vida, e que me trouxe muitos e vários benefícios. Sabe-se que a prática de actividade física é benéfico para a saúde física e mental. E que entre as pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA), sabemos que existe um conjunto variado de condições físicas e mentais, nomeadamente depressão, ansiedade, com maior prevalência do que a população em geral. Correr com (o) Autismo, seja como a pessoa o quiser ler, traduz-se numa mudança de paradigma para ajudar na melhoria da qualidade de vida da pessoa autista. Venha dai correr connosco.

Quando falo de actividade física a alguns dos meus clientes ou aos seus pais a resposta nem sempre é positiva. Ou porque já experimentam várias modalidades e não se conseguiram encaixar em nenhuma delas. As actividades desportivas em grupo são sempre mais difíceis devido a algumas das suas características em estar e funcionar em grupo. Ou também porque apresentam algumas características relacionadas com a motricidade grossa e fina e sentem-se desajeitados na realização de vários comportamentos motores necessários à realização da actividade física e porque sentem que os seus colegas poderão vir a gozar consigo. OU também todas estas situações descritas anteriormente juntas. E como tal não é difícil antecipar que a motivação para a prática de actividade física seja grande. Ainda que alguns outras crianças, jovens e adultos autistas possam praticar uma ou várias actividades físicas e possam gostar, além de serem fantásticos na sua realização.


A actividade física é eficaz na redução do risco e no gestão da saúde física e mental a longo prazo e em várias condições na população em geral. E a saúde das pessoas autistas é pior em média do que a população em geral, portanto, o exercício pode ser particularmente útil para eles, ainda que se saiba pouco acerca da utilização da prática de actividade física neste grupo especifico. A actividade física oferece benefícios à saúde, enquanto a inactividade é associada ao aumento da mortalidade. A actividade física e o exercício físico diminuem o risco de condições físicas, incluindo melhoram os sintomas da doença cardíaca coronária e diabetes tipo 2, redução do risco de doença depressiva, e têm efeito terapêutico na depressão leve a moderada, embora a adesão possa ser difícil para aqueles com depressão. Há também evidências de melhora da ansiedade, insónia e sintomas relacionados ao stress. Como tal, numa primeira análise a introdução de actividade e prática de desporto seria uma mais valia para muitas das dificuldades sentidas pelas pessoas autistas.


E então, porque não é mais frequentemente implementado? Penso mais uma vez que será importante poder ter uma actividade que possa ser mais abrangente e inclusiva e que possa ir ao encontro do perfil de cada um. Por exemplo, ninguém questiona que quando vai iniciar a actividade física aos 45 anos de idade e com excesso de peso tenha de fazer algumas adaptações necessárias à sua condição. Ou se for um desporto para crianças com menos de seis anos de idade ou com mais de 70 anos de idade! E como tal, porque não pensar em fazer a mesma coisa para as pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo?


Até o momento, existe pouca investigação sobre os benefícios de actividade física para as pessoas autistas, principalmente adultos. Os autista adultos têm uma maior probabilidade e propensão para os riscos de determinadas doenças, incluindo depressão, ansiedade, patologia do sono, obesidade, hipertensão, acidente vascular cerebral e diabetes. E como tal sugerir a realização de actividade física seria particularmente benéfico para este grupo. Mas penso que seja importante deixar de parte a ideia de que a realização de actividade física e deporto vai fazer com que o autismo da pessoa diminua. Essa ideia acaba por ter um efeito precisamente contrário, além de ser cientificamente incorrecta. Porventura, será mais benéfico poder ajudar a que as pessoas descubram o seu corpo, tal qual ele é, através da prática de uma actividade física e possam sentir os benefícios do mesmo. E a partir dai poder em conjunto com alguém conhecedor do Espectro do Autismo e da Educação Física construir um conjunto de actividades, individuais e/ou em grupo para realizar. Por vezes, há a ideia de que a realização de um desporto colectivo vai ajudar na interacção social. O que não deixa de ser verdade. Mas talvez a pessoa esteja interessada naquele momento em aprender e praticar andebol e não em fazer amizades, e misturar as duas coisas pode levar ao abandono do andebol e por conseguinte das possíveis amizades.


A realização de uma actividade física e desporto para pessoas autistas, nomeadamente adultos deve poder olhar fundamentalmente para a pessoa em si no seu global. Seja em relação ao seu desejo naquela actividade ou curiosidade. Mas também nas suas capacidades e dificuldades, assim como nas questões adicionais que advêm do facto de ter determinado conjunto de perturbações psiquiátricas associadas. E poder integrar aquilo que são algumas das suas características na actividade física, nomeadamente a realização de determinados comportamentos estereotipados (i.e., stimming). Ora se algumas pessoas tiverem como ideia precisamente o contrário de erradicar estes comportamentos da pessoa autista é compreensível que a realização destas actividades físicas não sejam contempladas.


Muitas vezes as pessoas não compreendem a importância da actividade física. E notem bem que não estou agora a falar de pessoas autistas, mas sim de todos nós. A prática de actividade física em Portugal é escassa. Admirem-se: cerca de 80% da população Portuguesa não pratica uma actividade física. Porventura, porque não percebemos o alcance que a sua prática nos permite ao nível da saúde física e mental, mas também com mais valias a nível da nossa participação cultural, social e política, para além de poder beneficiar a nossa interacção social e estabelecimento de uma rede social. Parece quase um milagre mas não é. Mas a sua prática recomenda-se vivamente a todos. Também penso que será importante poder explicar diferente o que é a actividade física e o desporto. Não são apenas as pessoas que não percebem, também quem a pratica e ensina precisa de ir ao encontro das pessoas, de todos nós e das suas singularidades. A prática de desporto com autistas adultos não é nova, nomeadamente através do atletismo. Já surgiram e alguns continuam no activo a correr por uma causa, seja a do Autismo, mas também pela sua, a saúde. Parece-me uma óptima ideia - Correr com (o) Autismo, seja como for que você o leia e entenda, corra, pela causa e por si próprio.

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