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Não te preocupes, Charlie Brown

Há quem sinta que a existência do Charlie Brown o tenha salvo em determinado ponto da sua vida. Isto porque há uns anos atrás ninguém falava da depressão nas crianças e na ansiedade sentida em muitos dos momentos mais quotidianos. Charles M. Schultz foi um verdadeira visionário e já em 1950 falava de depressão, ansiedade e perturbação obsessivo-compulsiva. À falta de alguém que o pudesse verdadeiramente compreender há quem tenha sentido o Senhor Schultz como o seu primeiro terapeuta. Anos mais tarde essa criança cresceu e tornou-se num adulto, mas que continua a sentir uma ansiedade que ninguém parece muito bem compreender. A ansiedade é uma perturbação altamente prevalecente em adultos do Espectro do Autismo e pode causar um impacto significativo no funcionamento e qualidade de vida. No entanto, ainda não existem instrumentos para avaliar a ansiedade que estejam projectadas e validadas especificamente para autistas adultos.

As pessoas com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) sofrem de um conjunto de outras condições ao longo do desenvolvimento. Sejam outras perturbações psiquiátricas associadas, tais como a Perturbação de Ansiedade, Perturbação Obsessivo-Compulsiva, Perturbação do Humor (Depressão) ou Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção. Ou então sintomas de ansiedade ou depressão devido a algumas das características do espectro do autismo ou de outra perturbação. O certo é que cada vez mais se tem a noção da importância de quando avaliamos alguém no espectro do autismo termos de pensar em avaliar outras perturbações psiquiátricas. E para tal necessitamos de estar sensibilizados para este facto, conhecedores destas outras perturbações e recorrer a instrumentos de avaliação adequados.


Os adultos do Espectro do Autismo geralmente sofrem de ansiedade, o que pode ter um enorme impacto na sua qualidade de vida. Uma maneira de identificar ansiedade é usar questionários. No entanto quando procuramos usar um questionário adaptado para a população adulta para medir a ansiedade e o usamos numa pessoa com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) é possível obtermos um resultado diferente do que estávamos à espera. Ou seja, no contacto com a pessoa é possível verificar algum desconforto e sinais de uma ansiedade visível. Para além das queixas da pessoa que vão nesse mesmo sentido. No entanto quando olhamos para os resultados os mesmos são mais baixos e em algumas situações não sinalizam nenhuma situação preocupante. Esta ocorrência é por si só preocupante. Isto porque a pessoa poderá ser erradamente conduzida no processo de intervenção atendendo a um resultado que não reflecte a sua realidade. E o mesmo acontece em outras áreas como na depressão. Ou seja, os instrumentos não estão adaptados à população do Espectro do Autismo.


A experiência clínica e a investigação tem mostrado que a ansiedade pode ser experimentada diferentemente por pessoas autistas e, portanto, os questionários criados para adultos neurotípicos podem não ser adequados para os adultos autistas. E como tal, no presente momento, não há medidas de ansiedade que estejam adaptadas especificamente para adultos autistas. Os adultos autistas experimentam níveis de ansiedade com taxas significativamente mais altas que a população em geral, com valores de cerca de 27% e com uma prevalência ao longo d vida de 42% em comparação com a população em geral.


Como tal é fundamental que os instrumentos de avaliação para a ansiedade em adultos do Espectro do Autismo precisam de ir ao encontra da realidade das pessoas com esta condição. Por exemplo, o ficar ansioso por coisas, pessoas ou lugares novos e desconhecidos; o preocupar-se com mudanças no contexto envolvente ou na rotina; quando não sabe o que vai acontecer ou precisar de estar preparado antes das coisas acontecerem; preocupado se não souber o que irá acontecer, por exemplo se houver mudanças nos planos a pessoa sentir-se assustado; o coração começar de repente a bater mais rápido; ou estar como se não conseguisse respirar ou tivesse mais dificuldade que o habitual; sentir-se fisicamente instável quando tem um problema; recear que algo de terrível aconteça com alguém de quem a pessoa esteja familiarizado; começar de repente a tremer ou agitar-se; ficar com tonturas de repente ou com fraqueza; preocupar-se que algo de terrível lhe vai acontecer; desligar de repente e ficar com a sensação de ser incapaz de pensar, falar ou fazer coisas; preocupar-se com o que os outros pensam de si; ficar ansioso em situações onde pensa que poderá fazer algo errado; preocupar-se se sabe que está a ser avaliado; preocupar-se em comer erros durante as interacções sociais ou achar que não foi tão bom quanto esperava ou ter feito uma figura tola em frente de alguém.


Estas e outras situações que descrevem o quotidiano das pessoas no Espectro do Autismo precisam de vir reflectidas no instrumentos de avaliação. Caso contrário corremos o risco de não conseguir compreender correctamente a pessoa.

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