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Não tão atípico

Spoiler alert, fiquem tranquilos que não vos irei falar da série Atypical. Mas confesso que brincar com palavras é divertido. O mesmo já não pode ser dito de algumas coisas da vida real das pessoas.


Penso que todos terão a noção que a situação pandémica continua presente e a estimativa é de que vá durar mais algum tempo. Ainda que não se perceba muito bem qual a forma como algumas das coisas no nosso quotidiano se irão alterar.


A 13 de março de 2020, eu e muitos outros Portugueses vieram para casa. E após um breve período de adaptação ao que estava a acontecer, foram vários os estudos científicos que começaram a ser realizados. Muitos ainda estarão lembrados da quantidade de pedidos de preenchimento de questionários online terão recebido no seu e-mail e redes sociais. De uma maneira geral importava perceber como é que a situação pandémica estava a impactar nas pessoas, nomeadamente na saúde mental. Toda a situação era única e servia como um laboratório social a céu aberto para se estudar o comportamento humano.


Ao fim de quase dois anos continuamos por cá e ainda a estudar algumas destas variáveis. Fiquem descansados que esta conversa toda não é para acabar com um link de um novo questionário online. Mas gostaria de reflectir convosco o impacto que o COVID-19 tem estado a ter na vida das pessoas autistas, mas de uma forma ligeiramente diferente, confesso.


Ou seja, os estudos que têm demonstrado que o COVID-19 tem tido um impacto significativo e negativo na vida das pessoas autistas parece plausível. E não apenas nas pessoas autistas, mas sim em todos nós. Mas pensando apenas nas pessoas autistas, esta afirmação parece tão evidente que daria para afirmar algo como - Foi preciso acontecer a COVID-19 para perceber que a alteração brusca e dramática da realidade quotidiana das pessoas autistas têm um impacto significativo e negativo na vida das pessoas autistas?


Assim como algumas pessoas, nomeadamente pessoas autistas, têm referido que a pandemia tem trazido vários níveis de conforto a muitos. Ou seja, o facto de poder ficar em casa e a realizar muitas das suas tarefas habituais a partir de casa sem ter de interagir directamente com um número grande de pessoas, normalmente neurotipicas, é gerador de um determinado nível de conforto. Mais uma vez alguém poderia perguntar com um tom mais irónico - Mas foi preciso acontecer a COVID-19 para perceber que manter a pessoa autista num contexto conhecido e confortável para si sem ter de interagir directamente com um número grande e diverso de pessoas pode ser confortável no global?


E por isso me lembrei do titulo deste texto - Não tão atípico. Assim como penso que também não tão atípico é aquilo que a situação pandémica veio ajudar a destapar. Ou seja, aquilo que são e continuam a ser as dificuldades de muitas pessoas autistas em grande parte pela forma como as pessoas não autistas continuam a agir.


Por exemplo, no mundo do trabalho, a situação pandémica veio mais uma vez demonstrar que um grupo já em si tão castiga no acesso ao mercado de trabalho, foi precisamente aquele que mais prejuízo teve. Ou sejas, as pessoas autistas e as pessoas com deficiência de uma forma global, foram precisamente aqueles que mais viram as suas possibilidade de entrada no mercado de trabalho, mas também de continuidade de determinados projectos que estavam pensados para iniciar.


Assim como nas escolas, muitas das crianças e jovens autistas integrados na educação inclusiva viram muitas das suas necessidades ultrapassadas e com a justificativa de que a situação pandémica não possibilitava a realização das coisas da mesma forma. Eu diria que nem da mesma forma, mas também não de uma forma adaptada à realidade. E não, isto não quer significar que os culpados são os professores de educação especial e todos os outros, ou os directores das escolas, ou os senhores e senhoras do Ministério da Educação. Somos todos responsáveis. E enquanto não pensarmos e sentirmos as coisas dessa forma iremos continuar a gastar energia em dirigir as culpas para uns e para outros ao invés de canalizar os esforços comuns para um bem comum e global.


Ao fim de quase dois anos e de muitos já dizerem que estamos a conseguir ver a luz ao fundo do túnel e que o esforço de todos tem levado a conseguir combater o COVID-19. Tudo isto é verdade. Mas também é verdade que as dificuldades das pessoas autistas se mantêm presentes e em número significativo. E por favor, não digam que o comportamento humano é algo que demora mais tempo a mudar. Isso é tão atípico!


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