Não me deixes a falar para a parede

O ano lectivo está prestes a começar. E por estas altura é comum perguntar-se às crianças e jovens - Já estás com saudades dos teus colegas, não é? E atendendo a que viemos para casa em confinamento em Março. E que no caso dos estudantes não voltaram a estar presencialmente com os seus colegas e amigos no espaço escola, a pergunta parece ainda mais fazer sentido. E são muitos aqueles que nem sequer é preciso perguntar porque já há muito que fazem questão de o afirmar. Contudo, quando pensamos nas pessoas autistas ficamos com a ideia que estas não sentem saudades. E que neste período de confinamento e distanciamento social, os autistas até têm estado melhor, devido precisamente a esta ideia de que se sentem melhor estando afastados das pessoas. Mas se pensarmos bem, a própria palavra saudade, é ela mesma difícil de se explicar, ainda que desde há muito esteja presente no cancioneiro e poesia Portuguesa. Ela não é intraduzível como muitos procuram afirma-lo, mas não deixa de ser complexa. Por isso talvez faça mais sentido não partir do principio que as pessoas autistas não a sentem.

"Ai que saudade

Que eu tenho de ter saudade

Saudades de ter alguém

Que aqui está e não existe

Sentir-me triste

Só por me sentir tão bem

E alegre sentir-me bem

Só por eu andar tão triste"


Ana Moura in Desfado


Desde Março deste ano, quando quase todos nós viemos para casa devido às medidas de confinamento devido à pandemia derivada do vírus COVID-19, que muitas pensavam tratar-se de algo mais passageiro. E por esta altura, uns e outros já percebemos que não tem sido assim. E também por isso, ao longo destes meses fomos procurando através de novos hábitos comportamentais procurar manter o contacto social. Não é por acaso que a utilização das redes sociais e das plataformas de comunicação por videoconferência tiveram uma tão grande utilização. E ao fim de alguns meses quando passamos a ter medidas com uma menor restrição, muitos de nós voltaram a procurar implementar não tão velhos hábitos de contacto social, ainda que com algumas adaptações. Nomeadamente, a utilização de máscaras no espaço publico e o distanciamento físico adequado, já para não falar da impossibilidade de realizar ajuntamentos de determinado número de pessoas. E entretanto, muitos têm procurado alternar entre um formato e outro, presencial e online, até para preservar a sua segurança, mas não deixar de manter o contacto. Ainda assim, tudo anteriormente dito parece ter sido muito fácil, mas não foi. E os impactos fizeram sentir-se e ainda se repercutem na vida das pessoas, uns mais do que outros, devido Às suas próprias vulnerabilidades.


No caso das pessoas autistas, este vai e vem de alterações têm tido um impacto gigantesco, seja ele sentido de forma mais negativa, mas também positiva. No entanto, de uma forma geral, as pessoas autistas apresentam uma maior dificuldade em lidar com mudanças mais constantes e inesperadas e que têm um impacto tão grande na sua vida. Para além de que muitas pessoas autistas deixaram de ter os seus acompanhamentos clínicos e isso também acabou por os deixar mais desprotegidos. No entanto, temos verificado que algumas pessoas autistas, algumas destas situações têm tido resultados surpreendentemente positivos. Por exemplo, foram várias as situações em que muitos disseram que esta situação toda levou a uma maior aproximação da família. Mesmo que os momentos de maior tensão e conflitualidade continuassem a ocorrer. Estes foram em menor número e a aproximação que se deu pareceu ter uma melhor qualidade. Para além de que os esforços que muitas Instituições - escolas e de saúde, fizeram para se adaptar a todos os seus clientes, inclusive, pessoas autistas, levou a que tivessem sido dinamizados e implementados excelentes programas de intervenção psicossocial junto de todos. Para além de que alguns beneficiaram deste confinamento, tendo em conta que não sentiram uma tão grande alteração daquilo que sabem procurar em vários momentos da sua vida - um maior isolamento social. E principalmente porque se sentem na maior parte das vezes mergulhados em estímulos e envolvidos em situações em que não se sentem compreendidos, ou que eles próprios não desejam.


Muitas pessoas autistas têm reportado o quanto stressante tem sido ver as suas rotinas diárias completamente trocadas e que ficaram profundamente preocupados com a incerteza sempre presente. Contudo, também são muitos os autistas jovens e adultos que têm referido sentir falta de ver os seus amigos. Sim, porque as pessoas autistas têm amigos. E sim, também sentem saudades. Houve mesmo quem tivesse referido "Eu não percebi o quão importante aquele contacto humano acidental significava para mim. Foi sendo sempre tão acidental que nunca ficou registado no meu radar até que deixou de existir completamente e ai eu tomei conhecimento disso.". Além disso, outras pessoas autistas referem que durante esta altura foi uma oportunidade para adoptarem novos animais de estimação: gatos, cães e peixes, etc. As pessoas também passaram a se envolver de uma forma mais intensa e menos preocupante para o global das restantes tarefas nos seus interesses restritos. Desde os videojogos, desenhar, pintar, saltar de trampolim, ou até mesmo encontrar novas formas de se conectarem com outras pessoas. Estou recordado de algumas pessoas autistas que sempre disseram que nunca haveriam de ter uma conta numa rede social e que passaram ao fim destes meses a ter. Até houve mesmo algumas pessoas que iniciaram relacionamentos românticos online. E nos acompanhamentos que passaram a ser feitos online, percebemos todos que poderia haver uma flexibilização na intervenção. Coisa que antes da pandemia havia uma maior relutância, seja por parte dos profissionais de saúde, mas também dos pais e dos próprios. Além dessas mudanças nos serviços e apoios, as pessoas autistas também descreveram este período como uma altura que lhes deu tempo e espaço para aprender, viver e repensar as suas vidas. Além de ter havido uma maior probabilidade de se envolverem em trabalho comunitário, nomeadamente porque passaram a poder fazê-lo online. Muitas pessoas autistas sublinharam o facto de poderem fazer algo que sempre se questionaram de porque não poderia ser online. Sejam as consultas mas também a escola, sendo que alguns já tiveram em situação de ensino doméstico.


Mas em todo este período também tem sido visível as dificuldades e os obstáculo sentidos neste processo. Após algum tempo de confinamento e principalmente de ausência do contacto existente até então, as pessoas autistas passaram a demonstrar maior sintomatologia ansiosa. E se por um lado o facto de ter passado a existir um acompanhamento clínico à distância e muitas das terapias terem retomado, há evidência de que nem todos as pessoas autistas têm aderido, e da percentagem significativa dos que aderiram, há alguns que sentem que a mesma não tem sido suficientemente favorável. E por isso, torna-se fundamental o retomar dos acompanhamentos presencialmente. Até porque a situação de pandemia ainda vai perdurar e com situações de altos e baixos, facto que leva a uma dupla preocupação - como nos podemos adaptar com intervalos de tempo tão curtos. Por exemplo, no caso dos estudantes, terem ideia de que vão começar as aulas presencialmente, com tudo aquilo que isso implica e depois de algum tempo poderem ter de voltar às aulas online e depois voltar às presenciais. Tudo isso acaba por os desgastar ainda mais. Até porque já não estamos a falar apenas de incertezas, mas de uma necessidade de flexibilidade e de capacidade rápida de nos adaptarmos, facto que nas pessoas autistas está mais comprometido.


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