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Não lhes dês com os pés

Não penses que agora que és adulta podes fazer aquilo que sempre fizeste!, grita-lhe o pai. A partir do próximo ano vais ter de trabalhar mais e melhor do que até agora!, refere-lhe a professora do 12º ano. Não penses que podes continuar a te comportar como na adolescência! Os meus sentimentos não são para brincar!, diz-lhe a namorada. Ao longo da vida são muitas as situações em que as pessoas autistas ouvem estas e frases semelhantes. E à medida que ao longo do desenvolvimento se vão aproximando da transição para a vida adulta, a preocupação dos pais e professores parece aumentar e isso parece levar a um aumento desta ansiedade e que acaba por ser projectada nestes jovens em processo de transição. E onde eles próprios acabam também já por se sentir mais assoberbados de solicitações e igualmente de ansiedade própria destas fases importantes de transição. Além de poder ao longo do desenvolvimento ajudar a pessoa autista a compreender o seu diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. Por exemplo, ainda vai sendo possível verificar situações de jovens com 15 anos em que ainda não lhes foi transmitido o seu diagnóstico por se pensar que o mesmo pode vir a traumatiza-lo de alguma forma. Penso que é compreensível que da parte dos pais possa haver estes receios e fragilidades próprias da sua pessoa e da vivência deste processo. E também os pais precisam de ser ajudados a desconstruir estas crenças para melhor poderem ajudar os seus filhos. Mas para além de poder ajudar as pessoas autistas ao longo do desenvolvimento a compreender o seu diagnóstico. Também é fundamental poder ajudar os próprios a aceitar a sua identidade. Muito daquilo que vai acontecendo desde a infância nas múltiplas interacções que existem, seja com familiares, professores, colegas mas também profissionais de saúde, é que a narrativa parece muito centrada nas características comportamentais. Quase ao ponto da pessoa se sentir desmembrada na sua identidade num conjunto de comportamentos. É fundamental poder ajudar a pessoa a construir a sua identidade com base naquilo que são muitas daquelas suas características. E principalmente poder aceitar-se tal qual é. Até porque será uma melhor forma de se poder continuar a proteger no futuro relativamente a determinados constrangimentos causados por outras pessoas que podem não não ser aceitantes das (neuro)diversidade. Mas também poder ajudar a pessoa a sentir-se bem com aquilo que vai acontecendo em termos das suas experiências e vivências. Sem que a mesma sinta a pressão de estar a fazer algo errado ou estranho comparativamente aos outros. Até porque é fundamental que as pessoas possam elas próprias contribuir para o crescimento do seu bem-estar e Qualidade de Vida. A falta de aceitação, seja a auto-aceitação mas também a aceitação por parte da família, é um factor de maior isolamento social e de não procura de ajuda na comunidade. Nomeadamente, a aceitação leva a uma maior aproximação da pessoa autista junto da comunidade em que se vê representado e isso também contribuiu para um reforço da sua identidade social. Além do mais é igualmente fundamental que a pessoa autista possa ser ela própria uma activista na representação dos seus direitos e de todos os demais. A aceitação e apreciação da sua pessoa leva a uma percepção de maior empoderadamento e por conseguinte a uma motivação intrínseca para a participação activa no processo cívico e de cidadania, ajudando também outras pessoas autistas a seguir exemplos semelhantes. A não aceitação está intima e positivamente correlacionada com a ansiedade. Seja porque a própria pessoa não percebe o porquê de algumas coisas estarem a acontecer consigo e não se conseguir proteger. Mas também porque os outros não estão consciente da identidade da própria pessoa autista e continuam a infligir sobre si todo um conjunto de pedidos e exigências que não fazem sentido. E todo este processo será certamente catalisador de um maior número de episódios de ansiedade e de desregulação emocional. O mês de abril e mais especificamente o dia 2 foi o Dia Mundial para a Consciencialização do Autismo. Mas também é verdade que além do simbolismo do dia é fundamental criar uma plataforma que diariamente possa fazer acontecer esta diferença. Será fundamental que as próprias pessoas autistas possam elas próprias sentir que estão capacitadas para lutar e fazer valer os seus direitos ao longo do desenvolvimento. E para isso será fundamental que o processo de aceitação e apreciação possa começar desde cedo junto dos próprios, da família, professores e dos profissionais de saúde.


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