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Não há borboletas no estômago

Dia 14 é dia de São Valentim. Para os mais distraídos celebra-se o dia dos namorados. Nem por acaso há uns dias li um post que dizia - "Se queres sentir borboletas no estômago no dia dos namorados, podes começar já hoje a comer bichos da seda!". E fiquei a pensar na intimidade romântica no espectro do autismo. Embora as pessoas no espectro do autismo tenham dificuldades com a reciprocidade socioemocional, a maioria ainda deseja relacionamentos românticos íntimos. A questão é pensar como é que sentem essa mesma intimidade sem estarmos enviesados por aquilo que são as características nucleares no espectro do autismo.

Durante bastante tempo, demasiado até face ao conhecimento cientifico, presumiu-se que as pessoas autistas não possuíam uma visão própria sobre a sua sexualidade e os relatos científicos e clínicos acerca do que observavam assumiam por default que eram heterossexuais. Essas limitações podem ter contribuído a uma subestimação do interesse das pessoas autistas na sexualidade e nos relacionamentos, ignorando o auto-relato subjectivo dos próprios, e com um foco em exibições observáveis ​​de comportamento heterossexual.


Hoje reconhece-se agora que a maioria das pessoas autistas está interessada na sua sexualidade e em relacionamentos românticos, particularmente aqueles que não apresentam comprometimento cognitivo. Em relação aos discursos de 'deficit' e 'diferença', o comportamento sexual de pessoas autistas é frequentemente comparado a populações neurotípicas ou com deficiência intelectual e/ou outras condições como Síndrome de Down.


A comparação entre pessoas autistas e neurotípicas mostraram que há mais pessoas autistas que demonstram uma menor consciencialização sobre privacidade, menor educação sexual, mais preocupação com a procura de parceiros íntimos no futuro, menos oportunidades de encontrar parceiros íntimos, e relacionamentos românticos mais curtos. Verificam-se igualmente uma incidência mais alta de comportamento sexual inadequado, como como perseguição, masturbação repetitiva e/ou pública, consciencialização empobrecida sobre a privacidade e parafilias.


Devido a suposições anteriores de assexualidade, as pessoas autistas podem ter sido colocadas em ambientes que não são naturais e isso restringiu a sua oportunidade de uma expressão sexual saudável. Paradoxalmente, existem evidências sugerindo um aumento do risco de vitimização e exploração sexual de pessoas autistas. E os pais e professores também relatam preocupações sobre abuso, coerção e situações traumáticas para esta população.


Muito frequentemente as pessoas adultas no espectro do autismo descrevem a necessidade de uma comunicação clara e tendem a enfatizar a semelhança em experiências vividas de certas dificuldades ou diagnósticos útil em se relacionar. Alguns referem que o tomar conhecimento do seu diagnóstico e poder falar acerca dele, para além de útil e melhorar a sua funcionalidade no quotidiano também tem sido muito útil na auto-consciência.

A comunicação foi um tópico importante e recorrente na população do espectro do autismo. E no âmbito das relações românticas ainda mais vital. Referem a comunicação como sendo importante para possibilitar e manter a intimidade. Principalmente sublinham a importância de uma comunicação aberta e honesta na construção da intimidade e resolução de problemas dentro do relacionamento. As pessoas no espectro do autismo relatam que discutir os problemas os ajuda a desenvolver confiança e a gerir os conflitos. Ainda ao nível da comunicação, as pessoas no espectro do autismo enfatizam as qualidades de franqueza e clareza na sua comunicação dentro dos relacionamentos: "entendemos as necessidades um do outro.". E o facto de ambos no casal serem do espectro do autismo parece ser facilitador na capacidade de compreenderem as suas necessidades.


Como em qualquer relação e mais ainda numa relação romântica, a compreensão é fundamental para qualquer um, autista ou não autista. As dificuldades que possam advir de algumas das características de um ou de ambos no casal pode ser gerido na própria relação. Ainda que possam haver maiores dificuldades quando um dos membros do casal é do espectro do autismo. Seja pelas questões da hiper ou hipossensibilidade, principalmente porque na relação de intimidade está implícito o toque e a aproximação. Mas não só, porque esta proximidade também leva a uma maior e mais intensa percepção do cheiro da outra pessoa e isso também pode constituir uma dificuldade.


Mas as questões também podem surgir pela via cognitiva, nomeadamente a forma como as pessoas pensam acerca do outro e como pensam que o outro pensa sobre si próprio. E isto alarga-se também a toda uma gama variada de questões relativamente a outras variáveis como o sentimento de desejo, seu e do outro e da capacidade de satisfazer o desejo da outra pessoa e o seu.


Seja porque razões forem, duas coisas parecem certas. Uma primeira é de que as pessoas no espectro do autismo sentem desejo em ter uma relação romântica e desenvolvem esforços para a procurar. A segunda, é de que quando as dificuldades são colocadas para compreender e resolver na relação o prognóstico é positivo. No entanto, há ainda todo um caminho a percorrer para todos. Nomeadamente para os profissionais de saúde que acompanham as pessoas no espectro do autismo. E também para os próprios pais que precisam de ser ajudados neste processo de compreensão.

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