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Não faças um drama

"Eu considero o teatro como o maior de todas as formas de arte, a maneira mais imediata em que um ser humano pode partilhar com outro o sentido do que é ser um ser humano."

Oscar Wilde


Preciso da tua ajuda!, diz Carlos (nome fictício). Eu não sei como fazer uma situação de conversa num bar. Podes ajudar-me?, perguntou com receio de que estivesse a pedir o impossível. Claro!, respondi-lhe imediatamente. Vamos fazer de conta que esta parte da mesa é o balcão, vamos arranjar aqui dois copos. Tu fazes de ti próprio e eu de um outro cliente qualquer que está no bar!, acrescentei-lhe eu. Carlos parecia radiante com a proposta e pareceu assimilar todos os segundos de encenação. Tirou inclusive alguns apontamentos no final. Na verdade, aquilo que fizemos foi dar uso a uma técnica de role-playing para encenar uma situação do seu quotidiano na consulta. Na semana seguinte Carlos vinha um pouco frustrado porque a situação não tinha corrido como ele tinha antecipado. Temos de rever o nosso cenário, disse Carlos. Como assim?, perguntei-lhe. As pessoas vêm em grupo e não sozinhas e por isso precisamos de mais personagens!, referiu. Pensei que caso estivéssemos num contexto de grupo de competências sociais, teríamos a hipótese de ter mais pessoas para encenar as diferentes personagens. Mas se estivéssemos em Psicodrama, esse seria o contexto porventura ideal para trabalhar com estas e outras questões.


A vida de todos nós é um palco, como dizia Charles Chaplin. E em muitos de nós determinados momentos parecem verdadeiros dramas. E na vida das pessoas autistas há muitos momentos dramáticos. Sejam aqueles vividos ao longo da sua vida no contacto com a família, professores, colegas, etc. Assim como também os momentos revividos no processo psicoterapêutico. Em que muitas das experiências vividas no seu quotidiano são trazidas pelo próprio para a sessão. E frequentemente a pessoa sente necessidade de a compreender. Do porquê dela ter acontecido, das outras pessoas terem feito ou dito o que disseram. Mas também por que é que eles reagiram e responderam à situação daquela forma. As questões são muitas, assim como as abordagens usadas para chegar até elas. Seja num formato de terapia individual, grupo ou família, independentemente do modelo teórico que lhe está na base. Sabemos que são várias as respostas terapêuticas, ainda que tenhamos de as adequar às necessidades da pessoa autista e das suas questões trazidas.


De entre as várias abordagens possíveis, sabemos que há umas mais estudadas do que outras e que também por isso se encontram recomendadas como sendo empiricamente validadas para intervir com as pessoas autistas. É o caso das terapias assentes no modelo comportamental e cognitivo. No entanto, uma outra abordagem nem sempre pensada mas que pode dar uma resposta muito importante e interessante é o psicodrama. Estou certo que aqueles que tenham algum conhecimento do psicodrama e pensem nas pessoas autistas poderão pensar que não faz sentido. Tendo em conta que o psicodrama faz uso de técnicas dramáticas, como aquelas usadas em teatro. E que isso não se adequa às pessoas autistas. Penso que essa visão, a ser descrita tal como a referi, só pode estar assente em crenças e mitos sobre as pessoas autistas. Tais como pensar que as pessoas autistas não têm ou não desejam ter amigos ou que não fazem contacto ocular.


O Psicodrama (psyche = mente, drama = acção) criado no inicio do século XX por Jacob Levy Moreno, também designado de teatro de espontaneidade, em que os actores representavam em palco eventos do seu quotidiano. Moreno foi descobrindo que essa mesma representação de uma personagem tinha reflexos na própria experiência da pessoa. As intervenções através do psicodrama tentam fornecer oportunidades criativas, agradáveis e envolventes para as pessoas autistas poderem praticar uma ampla gama de competências sociais na segurança e proteção de um ambiente criado especificamente para o efeito. Desde todo o grupo até cenários de um para um, as intervenções dramáticas operam

com base na criação de um contexto fictício (isto é, uma situação de fingimento), que captura de forma lúdica a atenção dos participantes e incentiva a interação e comunicação com os outros. Operado num continuum, existem várias abordagens diferentes para usar o drama como uma intervenção com as pessoas autistas, variando de envolvimento na performance teatral e trabalhando em scripts de jogo numa extremidade para improvisação e simulação no outro.


O facto de apoiarmos todas as formas de intervenções dramáticas é uma intenção de envolver activamente a própria pessoa na exploração e na procura do sentido do mundo em que vivem. E assim podermos trabalhar criativamente com eles para entender o seu lugar e a sua relação com os outros e em que ambiente. As intervenções dramáticas são estruturadas, baseadas em artes, mediações educacionais, envolvendo um facilitador, professor ou terapeuta que se baseia numa série de estratégias criativas e divertidas de ensino e aprendizagem para envolver activamente o participante na aprendizagem para uma maior consciência social, comunicação e compreensão. Tipicamente, tanto os participantes como os facilitadores assumem papéis que vão desde simples papéis bidimensionais, como fingir ser um lojista, dentista ou avó, para papéis altamente desenvolvidos, como fingindo ser um super-herói numa missão para derrotar Loki e salvar o mundo.


Desempenhar um papel é uma característica importante nas intervenções dramáticas e muitas vezes envolve um facilitador "no papel", improvisando uma situação quotidiana com os participantes que podem assumir um papel diferente e responder/reagir à situação à medida que se desenrola num cenário de workshop (i.e., role playing). Estas funções podem ser trocadas e desenvolvidas, adicionando novas complicações ou muda cada vez que uma cena é reproduzida. Alternativamente, se os participantes são social e cognitivamente capazes e, em particular, se eles são capazes de diferenciar entre ficção e realidade, tanto o facilitador como os participantes podem "entrar no papel" e envolver-se num drama emocionante, cheio de acção, improvisado, o que facilita a prática e exploração de uma vasta gama de competências pessoais e sociais. Durante tais intervenções, ambos os participantes e facilitador juntos tentam desvendar e resolver vários mistérios e problemas ficcionais.


São várias as situações que podemos pensar que ocorrem na vida das pessoas autistas e que a possibilidade de as poder encenar e levar a que a pessoa a possa reviver de uma forma diferente, mais adaptativa e que possa compreender a própria situação em si, seja algo facilitador e catalisador da mudança. Assim como podermos pensar que o próprio psicodrama e algumas das técnicas usadas podem ser equacionadas para aquilo que já é realizado em termos de treino de competências sociais. São múltiplas a potencialidades, seja do psicodrama enquanto ferramenta terapêutica, ou do teatro ou outra expressão artística.


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