Informação útil:

©2018 by Autismo no Adulto. Proudly created with Wix.com

Não deixe as pessoas a falar para a parede

A horas do mundo começar a celebrar a passagem para o novo ano são muitas as pessoas que ainda formulam os seus desejos. Desde o perder peso ao deixar de fumar, há uma gama variada de pedidos. Uns parecem mais prováveis de serem realizados. Outros precisam de um envolvimento para além do próprio. Mas o desejo de ser compreendido e ajudado a se compreender. O ter um diagnóstico compreensivo da sua situação. Ainda que este na realidade nem deveria ser um desejo mas sim um direito. É o caso de muitos adultos que apenas na vida adulta obtém o seu diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo (PEA). E a meio da sua vida desejam "ter a sua vida de volta!".

Já vimos pessoas a processarem a Phillips Morris (Tabaqueira) pelos anos de vida perdidos a fumar sem ter tido conhecimento dos malefícios causados pelo tabaco. Pode parecer estranho a muitos mas é um facto inegável. E há evidência de tantas outras situações de pessoas que não tendo sido informadas devidamente acerca de alguma condição que os prejudicou de alguma forma que procuraram processar essa entidade, pública ou privada. Por vezes penso que as pessoas adultas que recebem um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) já na vida adulta. E tendo passado por um conjunto variado de profissionais de saúde, seja, Pediatra, Médico de Clinica Geral e Familiar, Psicólogo, Terapeuta da Fala, Pedopsiquiatra, Psiquiatra, etc. Manifestando desde cedo as suas características comportamentais com mais ou menos dificuldades expressas. Que também estes poderiam exigir algum tipo de reparação deste erro.


É o caso do Zé Carlos (nome fictício) que recebeu o seu diagnóstico aos 50 anos. Ele sempre lutou por se integrar. Primeiro na família, depois com os colegas e na creche. Mais tarde na escola e durante doze anos. A seguir no mercado de trabalho. E desde sempre na Sociedade. Lutar para se integrar não é uma forma de expressão tal como frequentemente usada por muitos de nós. É para ser entendida de forma literal. Fosse a sua família que não o deixava ir para uma escola nova. Não obstante ele continuar a ser vitima de bullying. É verdade que a família não sabia de forma clara da situação. Até porque o Zé Carlos tinha dificuldade em informar acerca da situação. Como também em outras situações. Ele não compreendia porque os outros lhe faziam o que faziam. E como tal pensava que a sua família também não saberia entender. E como tal do que valeria dizer alguma coisa se eles não sabiam como entender? E o mesmo se passava nas festas de aniversário ou nas celebrações da própria escola. Em que os pais o obrigavam a ir às festas. E na escola penalizavam o Zé Carlos quando este se negava a participar nestas actividades. Ambos, família e escola sem compreenderem a verdadeira razão pela qual ele se negava a ir.


Ainda assim o Zé Carlos fez o seu percurso. Terminou o Ensino Secundário e entrou na Universidade. Para espanto de muitos que diziam sem qualquer pudor em serem ouvidos que o Zé Carlos não haveria de conseguir. Mas ele conseguiu. E formou-se como professor. Passou a exercer a sua profissão como tantos outros, diariamente e ao longo do ano. As dificuldades foram muitas. Quem sabe ou pelo menos ouve falar da vida dos professores consegue perceber a dificuldades que muitos deles sentem. Seja na dificuldades das colocações em diferentes pontos do país e longe da sua zona de residência. Mas também das dificuldades existentes ao longo do dia no exercício da sua profissão. Ser professor é uma actividade exigente e sempre no contacto com o outro - colegas e alunos. Mas o Zé Carlos continuou apesar de todas as dificuldades. Foi acompanhado em psiquiatria e fez medicação para os seus sintomas depressivos e ansiogénicos. A medicação ajudou mas não resolveu as coisas e as dificuldades foram continuando. Até que o Zé Carlos em algumas situações abandonava a medicação. E voltava a ela mais tarde já com outro psiquiatra.


Ainda assim conseguiu encontrar alguma estabilidade na profissão e conseguir ter uma casa e uma família. O desejo de todos, ou de grande parte das pessoas adultas - uma família, casa e um trabalho. Mas com o avançar dos anos as suas dificuldades foram agudizando. Algumas deixaram de parecer estar tão evidentes enquanto outras passaram a estar mais presentes. Mas as dificuldades persistiram. Até que a sua esposa passou a insistir para o Zé Carlos procurar ajuda. Ao principio esta situação era geradora de conflitos. Zé Carlos referia que não fizera outra coisa ao longo da vida senão procurar ajuda profissional especializada e ninguém o parecia compreender. Mas a sua esposa insistia na medida de acreditar que algo deveria ser feito para o ajudar e ajudar em tudo o resto na sua vida também. E ao fim de algum tempo e com a ajuda da sua esposa Zé Carlos procurou um psicólogo.


Numa primeira consulta, o Zé Carlos que já tinha pensado toda uma vida sobre as suas coisas, situações difíceis, comportamentos mais idiossincráticos, não demorou a fazer uma listagem cronológica das mesmas ao psicólogo. E que ao fim de não muito tempo lhe disse que toda aquela descrição tem um nome - Perturbação do Espectro do Autismo (nível 1) e que também poderia ser conhecido por Síndrome de Asperger. Zé Carlos não podia acreditar naquela facilidade toda. Nos primeiros minutos chegou mesmo a desconfiar que o psicólogo seria um charlatão de tão fácil que dissera aquele diagnóstico. A sua esposa com alguma cautela e conhecedora da pessoa do Zé Carlos pediu que falassem mais um pouco acerca de todas aquelas situações. E pediu especificamente para o psicólogo falar acerca de outros casos com idades semelhantes. Zé Carlos ficou petrificado ao ouvir tantos outros casos que pareciam ter saído da sua cabeça e da sua experiência de vida.

27 visualizações