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Não aceitamos devoluções


"When you get what you want but not what you need

When you feel so tired, but you can't sleep

Stuck in reverse..."

Fix You, Coldplay


É habitual que quando temos alguma coisa lá por casa avariada, uma das primeiras perguntas seja, Ainda está na garantia? E se sim, levamos à loja ou ao representante. No caso de já não estar na garantia avaliamos aquilo que poderá ser o orçamento do arranjo e se ainda vale a pena ou o melhor será adquirir um equipamento novo. Isto tudo para vos dizer que muitas vezes as pessoas autistas sentem que algumas pessoas os querem consertar. Ou seja, sentem-se como se estivessem estragados ou com algo de errado no seu funcionamento e precisassem de ser arranjados. Já nem sequer falo da designação curar, porque espero que todos os leitores saibam que não se cura o autismo. Mas ainda assim, continuam a haver algumas pessoas persistentes e que leva a que esta sensação nas pessoas autistas perdure.


As pessoas autistas, principalmente aquelas que já obtiveram o seu diagnóstico e de uma forma ou de outra estão em acompanhamento, têm ideia daquilo que são as suas carcaterísticas. Sejam aquelas que levaram a que o diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo pudesse ser atribuído. Mas também algumas das suas outras características comportamentais e traços de personalidade, como qualquer uma outra pessoa. Além do mais, são muitas as pessoas autistas que compreendem que necessitam de se compreender melhor na sua forma de ser para que consigam estar melhor consigo próprios e por conseguinte com os outros. E não se esqueçam que as pessoas autistas mais do que ninguém sabem o quanto sofrem no seu dia a dia. E não, não é por causa do seu autismo como muitos poderiam pensar. Serão muito poucas aquelas que poderão dizer que sofrem por causa do autismo. Porventura, haverá pessoas nesta situação. Nomeadamente, pessoas que possam não aceitar ou não querer aceitar o seu diagnóstico, por exemplo.


Mas o certo é que desde muito cedo que as pessoas autistas vão cultivando esta ideia de que muitas pessoas querem que eles sejam consertados, arranjados ou até mesmo curados. Muitas vezes, as crianças, jovens e adultos autistas, ouvem de outros, familiares, professores, colegas e inclusive de profissionais de saúde, de que precisam de aprender determinado conjunto de comportamentos para poder estar em sociedade. E não, não estou a fazer nenhuma confusão com o facto das pessoas autistas poderem beneficiar de terapia e dentro desta de poderem beneficiar de treino de competências sociais. Poder beneficiar de ambas as coisas não significa que se queira transformar a pessoa autista numa pessoa neurotipica ou sequer que aja enquanto tal. A pessoa autista é que toma as decisões de como deseja ser. Certamente que uma criança poderá ter maiores dificuldades em o fazer, por razões óbvias. Mas um adolescente e principalmente um adulto, tem plena capacidade para o fazer, e deve inclusive ser incentivado a fazê-lo.


Provavelmente muitas das pessoas neurotipicas quando dizem determinadas coisas sobre o autismo não estarão de forma premeditada a querer magoar as pessoas autistas. Mas o certo é que o podem fazer. Tal como acontece em muitas outras situações e com outras pessoas e condições. A criança autista precisa de aprender determinado tipo de comportamento porque se não o fizer vai interromper o normal funcionamento da aula, por exemplo. Ou o jovem autista precisa de aprender determinado tipo de competências para que os outros jovens (não autistas) o consigam aceitar com mais facilidade, etc. As coisas podem não ser ditas com estas mesmas palavras, mas acreditem que muitas pessoas autistas já as ouviram, e infelizmente bem piores. E não, nem tudo o que as pessoas autistas ouvem foi assim que foi dito. Mas também não digam que tudo o que ouvem é alvo de algum enviesamento característico da sua condição.


As pessoas autistas não precisam de ser consertadas. Aquilo que na verdade precisa de ser consertado é a forma como todos nós não autistas (neurotipicos), olhamos, sentimos e pensamos o autismo e as pessoas autistas. Precisamos de pensar se não estivermos a compreender o porquê de uma pessoa estar a fazer determinado comportamento podemos sempre perguntar-lhe e ouvir com atenção a sua explicação. É um dever nosso e um direito da pessoa.


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